sábado, 21 de Novembro de 2009

Ainda a Tolerância...


... na sequência da evocação de Voltaire que aqui chegou pela mão de JMCorreia Pinto (autor do lúcido e irreverente Politeia), vale a pena ler o texto de Leonard Boff... AQUI.

Marketing e Navegação à vista



"(...) Que difícil ser próprio e não ver senão o visível." (Alberto Caeiro)

... Jacques Brel e Alberto Caeiro - eis as evocações possíveis depois de se ouvir falar em "espionagem política", quando está em causa o Ministério Público, quando todas as condições concorrem para se falar no desrespeito pela separação de poderes e quando se induzem intenções a partir da especulação explorada após o enunciar de suspeitas, reagindo-se como se de um reflexo condicionado se tratasse... assumindo o risco de descredibilizar a investigação e a avaliação racional dos problemas... a precipitação da auto-defesa, num quadro de maioria relativa em que se adivinham difíceis, morosas e plurais negociações justifica a insensatez?... não!... explica-a mas, de facto, não a legitima... como o preço de acordos pontuais de que é exemplo a avaliação de professores ou o espanto ministerial perante o número de pessoas sem trabalho quando se cumpre a, há muito, anunciada maior taxa de desemprego de que há registo, que mais não significam senão que a tudo se está disposto para viabilizar, sem emendas, propostas polémicas que uma oposição esvaziada aproveita, de forma gratuita e sem alternativas (ou não exigiria a anulação da avaliação de professores e apresentaria, isso sim, medidas concretas para o combate ao desemprego como prioridade no debelar da crise)... A "navegação à vista" tem destas coisas: gere o possível sem se comprometer com coisa alguma e dá razão ao que fôr preciso para não aparentar perder a razão... independentemente do interesse nacional! ... porque o interesse nacional, mais do que ver aprovadas apressadas propostas de lei escassas no conteúdo, exige tempo negocial, recalendarização da agenda parlamentar, reformulação de propostas e flexibilidade analítica de Governo e oposição... ficamos assim, afinal de contas, com a sensação de que o Governo está apenas, talvez até inconscientemente por excesso de vontade de afirmação, a criar condições para a emergência de oposições consolidadas... porque medidas conjunturais são efémeras e o país carece de intervenções estruturais em que todos se comprometam, não para contabilizar vitórias de Pirro perante si próprios mas, para procurar e encontrar soluções melhores... claro que espreita, sobre o ombro de todos, a aprovação de um Orçamento de Estado, a votar... mas o interesse nacional, declarado eleitoralmente, não se satisfaz com o preço da abstenção e visa, pelo contrário, o esforço em fazer mais e melhor do que, apenas, contar com o não bloqueio dos outros... porque o Marketing não retira mas antes fornece razões para que avaliem e intervenham na realidade, quase exclusivamente, valorizando e exibindo uma imagem de aparência que se esgota no ruído das campanhas ou da publicidade mediática sobre acordos que, na realidade, pouco mudam o que urge mudar na vida do país e dos cidadãos.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Tolerância... Precisa-se!



No passado dia 16, foi Dia Internacional da Tolerância e no Crónicas do Rochedo foi lançado um repto de celebração simbólica que consiste em responder, sinceramente, a 3 perguntas... Considerando os tempos que correm e a cada vez maior relevância da diversidade na sociedade multicultural e multiétnica em que vivemos, aqui fica o contributo do A Nossa Candeia:



1 -O que significa ser Tolerante?


Ser tolerante significa ser capaz de respeitar crenças, valores, atitudes e práticas diferentes das que a nossa cultura configura no conjunto de opções de vida que enquadram as nossas decisões.



2 - Em que tipo de situações tenho dificuldades em praticar a Tolerância?


Tenho dificuldades em praticar a Tolerância perante a injustiça e a crueldade conscientes e intencionais, perante o dogmatismo mas, acima de tudo, sempre que estão em causa Direitos Humanos...



3 - Tolerância será abrir mão das próprias convicções?


Não. As convicções individuais que participam da identidade do que somos e do que escolhemos ser, persistem na exacta medida da nossa determinação em as afirmar, enquanto expressão auto-regulada da nossa existência... neste sentido, a Tolerância é uma aprendizagem a que as próprias convicções devem ser sensíveis porque, mais do que qualquer outra coisa, é o exercício da Tolerância que as legitima.



As 3 perguntas devem agora ser transmitidas aos que reconhecem a importância desta reflexão... vão ver que não é tão simples como parece mas, posso dizer-vos que o resultado deste pequeno esforço é gratificante, principalmente pelo tempo que dedicamos ao pensar sobre o assunto, no contexto da nossa própria auto-avaliação. Desejo-vos uma boa experiência!

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Portugal no Índice Internacional de Percepção da Corrupção


Segundo a Transparency International, em 2009, Portugal ocupa o lugar nº35 de uma lista de 180 países que, anualmente, são ordenados segundo o Indice de Percepção da Corrupção... considerando o número de casos que tem vindo a público, relativamente a suspeitas e processos que investigam o fenómeno no nosso país, bem como o impacto mediático que têm motivado, o lugar 35 desta tabela pode sugerir aos mais incautos, expressões do género: "afinal, até não estamos assim tão mal"... uma breve consulta da lista publicada corrigirá qualquer tipo de esperança... basta ver com atenção o nome de cada um dos países que se nos seguem, para se tornar indubitável a linha de fronteira em que, de facto, nos situamos... confirme-se AQUI.

Discrição de alto nível...


A propósito do "Face Oculta" e no âmbito da divulgação da audiência do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, hoje, às 18h, em Belém, os portugueses ouviram o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, interpelado pelos jornalistas, dizer: "(...) que estou preocupado, estou... coisa diferente é fazer declarações à comunicação social (...)"... seria preciso dizer mais, para alimentar a especulação?... De facto, a delicadeza destes contextos dificilmente escapa à lógica do "ser preso por ter cão e ser preso por não ter"... será, talvez também por isso, aconselhável mais discernimento e sentido de responsabilidade na gestão da "coisa pública"... isto se, na verdade, ainda se considerar prioritária a estabilidade governativa para um país que precisa, urgentemente, de soluções socio-económicas decisivas para o quotidiano das pessoas, no curto e no médio prazo.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Uma História Cantada...



... por Chico Buarque... uma melodia para começar bem a semana :)

domingo, 15 de Novembro de 2009

Um desafio para 5 revelações


Um simpático desafio enviado pelo T.Mike do Vermelho Côr de Alface consiste em que os bloggers convidados a aceitar este repto, procedam da seguinte forma:


1 - Seguir as Regras;

2 - Colocar o selo no início da mensagem que indica quem está, quem esteve, ou estará na brincadeira;

3 - Completar as 5 frases seguintes:


Eu já tive... mais confiança na classe política;

Eu nunca... assisti a um jogo de futebol num estádio;

Eu sei... que é na Educação que radica a resistência à corrupção;

Eu quero... uma Democracia Melhor, com mais: Justiça, Liberdade, Educação e Meritocracia;

Eu sonho... com um Mundo Melhor para Todos.



sábado, 14 de Novembro de 2009

Da Manipulação Informativa à Ficção Literária como Catarse




Informação, contra-informação, suspeitas, factos, comentários e opiniões fazem o conhecimento? Não. E aproximam-nos da realidade?... apenas e só na medida em que forem epistemologicamente consideradas as afirmações e os seus contextos. Eis a razão porque, apenas se pudessemos dedicar todo o nosso tempo ao tratamento multidisciplinar das notícias e dos textos que chegam ao conhecimento público, configurando a opinião mediática que nos é apresentada como colectiva, poderiamos confiar, sem reservas, no que se diz e/ou no seu contraditório. Porém, hoje mais do que nunca, todos avocam a liberdade para usar o espaço público e todos evocam as suas fontes como fidedignas ainda que, em grande parte, sejam anónimas, pelo menos do ponto de vista do leitor-cidadão. A democracia surge assim, aparentemente, como um espaço aberto e não-restritivo de exercício da circulação informativa... sem que, proporcionalmente à sua importância, seja analisado ou discutido com seriedade, o problema central da sua legitimação: o poder económico em que assenta a propriedade dos media e as esferas políticas que nele desenvolvem a sua intervenção garantindo, exclusivamente, a gestão manipulada do teor do que vai emergindo, em função de interesses individuais ou de grupo. Não interessa nada o interesse nacional a não ser aquele que afecta os lobbies, formais ou informais, como não interessa o interesse colectivo de cidadãos e populações... essa é, afinal, a razão que justifica a dispersão da "causa pública" na política, que nos obriga a viver rodeados de uma poluição de intrigas inter-partidárias vestidas das mais diversas roupagens, com rostos de oportunidade que nos afastam do que sabemos ser essencial: combater a pobreza, o desemprego e a discriminação, criar riqueza, emprego, aumentar a produtividade, criar confiança nos consumidores e consolidar a confiança nas instituições democráticas. Porém, cada vez mais, em Portugal, Economia, Justiça, Trabalho, Segurança Social, Saúde, Educação e Cultura, parecem minimizar as causas, dispersando-se pelas consequências casuísticas de situações que nem deveriam existir se a sociedade formasse, na família, na escola, nos meios de comunicação social e no espaço público, pessoas capazes de resistir às tentações facilitistas de ascensão social pelo recurso a meios muito próximos do acesso ao dinheiro, mais ou menos, "ilícito" - conceito que, entre nós, radica na negligência de costumes e práticas relativamente a valores éticos de cidadania... continua, também por isso, a ser catártica a literatura, clássica e contemporânea, com a qual avaliamos e aferimos padrões do comportamento social, sem o condicionalismo da responsabilidade que sobre nós pesa quando pensamos o enquadramento em que se move o nosso quotidiano... Stieg Larsson, jornalista sueco, criou, em 2004, uma metáfora interessante das sociedades ocidentais contemporâneas, numa trilogia aliciante intitulada "Millenium", cuja personagem principal diz a certa altura: "Não há inocentes. Há apenas diferentes graus de responsabilidade"... depois de entregar o livro ao editor, numa daquelas ironias da vida que a doença resolve desencadear, Stieg Larsson morreu... ... fica a obra... fascinante para quem gosta de um bom romance de ficção por muito se interessar pela realidade.

Petição Contra a Fome...


Vale a pena ler... e subscrever... porque, se nos não bastam as intenções e as palavras, não podemos, também, por outro lado, dar-nos ao luxo de não integrar esse esforço já com história mas, acima de tudo, com futuro, que a canção enunciava assim: "junta a tua à nossa voz":

PETIÇÃO CONTRA A FOME ... um documento a que Manuela Araújo e Rui Herbon, respectivamente, no Sustentabilidade é Acção e A Escada de Penrose, me permitiram aceder.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Perguntas incomodamente insidiosas...




Há coisas assim... incómodas!... emergem, súbitas, à nossa mente e instalam-se, venenosas, insidiosas, persistentes, inquisitivas... perguntas, interrogações, dúvidas... talvez por uma espécie de reflexo condicionado provocado pelas faces ocultas de tantas coisas, pelo hábito sistemático que se vai tornando costume, de tudo, em política, acabar por revelar um preço, à partida, insuspeito - pelo menos para os incautos e os de boa-fé... vejamos... cheguei a hesitar em formular esta sequência de perguntas para mim mesma, em a pensar em voz alta, mais ainda em a escrever e a partilhar... mas torna-se-me pesado o silêncio e a persistência em a ignorar... assim, de boa-fé, aqui fica: será que se pode estabelecer alguma relação entre a defesa da continuidade dos colonatos judaicos na Cisjordânia e a aprovação do plano de saúde para milhões de norte-americanos até agora privados de um direito fundamental? ... será que um direito fundamental num canto do planeta pode justificar o contribuir para a violação de direitos fundamentais num outro espaço planetário?... que raio de humanidade é esta que inquina a acção política deixando o livre-arbítrio condicionado a opções tão injustamente desumanas?... será que nos habituámos de tal modo a encontrar razões escusas em todos os procedimentos, ao ponto de inventarmos causalidades e correlações, misturando factos e hipóteses explicativas?... será que perdemos, de vez, a nossa ingenuidade?... ou estaremos agora na posse de um molho de chaves perante um sem-número de portas, à procura de supostas correspondências?...

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Leituras cruzadas...

Enquanto se desenvolvem as investigações sobre as faces mais ou menos ocultas do poder que grassam pelo nosso pobre país enquanto a Europa se debate com problemas que, cedo ou tarde, terão continuidade em impasses para os quais o funcionamento institucional da UE não está devidamente preparado (vale a pena ler os textos de António Serzedelo no Vidas Alternativas), o mundo celebra uma das mais simbólicas quedas do mundo contemporâneo: a do Muro de Berlim que, há 20 anos e por 28 anos, dividiu, política e militarmente, o espaço europeu. A data, 9 de Novembro, regista, entre nós, interessantes comentários, díspares é certo mas, sintomáticos do enriquecimento que significa a pluralidade democrática (vejam-se os textos de João Pinto e Castro no Jugular, de Pedro Correia no Delito de Opinião, de Daniel Oliveira no Arrastão, Vitor Dias no O Tempo das Cerejas, João Pedro Dias no Câmara dos Comuns, Raimundo Narciso no PuxaPalavra, Carlos Barbosa de Oliveira no Crónicas do Rochedo e João Tunes no Água Lisa* ).
Entretanto, como bem se demonstra numa leitura rápida do noticiário seleccionado pelo SOS Racismo, continuamos a construir outros muros por todo o lado (leia-se a reportagem da BBC transcrita pelo Forum Palestina) até que esteja interiorizada politicamente a noção de que a Educação é que construirá a Cultura de Cidadania de que todos e as novas gerações em particular, precisamos (vale a pena reflectir sobre o texto de Paulo Querido no Certamente) para que o planeta sobreviva às dicotomias que a História já demonstrou contraproducentes e ineficazes para a gestão humanizada da organização económico-social... porque, com uma economia de mercado em plena crise (leia-se o texto de João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas) a reeditar a reflexão urgente sobre valores e ideologias mas, em relação à qual se não registam respostas desassombradas e corajosas, capazes de se inclinarem humildemente perante as lições da História, temos ainda, passe a expressão, "muita pedra para partir"... resta-nos desejar que o preço não custe a vida ao futuro!
(Nota: o texto de João Tunes foi inserido neste post posteriormente à data inicial da sua publicação)

Viva Berlim! (O Muro de Berlim - 3)

Celebram-se hoje, dia 9 de Novembro de 2009, os 20 anos da Queda do Muro de Berlim que resgatou à História, os 28 anos de incompreensível e inaceitável separação de um povo. Sem atender aos laços familiares, afectivos e culturais, a ocupação política do poder determinou, com base na ocupação residencial dos cidadãos, a sua segregação e a interdição da sua mobilidade e comunicação.

No dia 9 de Novembro de 1989, o Muro caiu e em 18 de Março de 1990 deu-se, a partir do resultado das eleições livres realizadas para o efeito, a Reunificação da Alemanha. Hoje, 20 anos depois, todos descobrem as limitações do "outro lado": desemprego, pobreza, exclusão, dificuldades de integração... mas, o reconhecimento é comum: valeu a pena!... porque a cidadania venceu o muro da violência política e agora, ocidentais e orientais, como um só povo, caminham juntos para o futuro!... Foi assim que os Berlinenses viveram o Concerto The Wall que, em 1990, juntou na sua cidade, sob a direcção de Roger Waters dos Pink Floyd, muitos, muitos amigos, cujo espectáculo performativo o YouTube nos permite conhecer em 12 partes de que aqui trazemos, pelo seu simbolismo, a 7ª e a 12ª!... na Potsdam Platz, o mesmo local onde, em 1945, 1948,1949, 1961 e 1989, os Berlinenses viveram momentos dramáticos que a Europa guarda na memória como símbolos da história do século XX. Viva Berlim!

domingo, 8 de Novembro de 2009

GORBY, o Espírito da Mudança (O Muro de Berlim - 2)



Mikail Gorbatchev, o comunista sem-medo, o democrata destemido, o político corajoso, o rosto, a voz e a acção da mudança, institucionalizou o fim da Guerra Fria... amado e respeitado, tornou-se a voz dos Berlinenses que gritavam, faz agora 20 anos, pelo fim do Muro e o Direito à Liberdade... "Gorby, Gorby, Gorby!" - eis o "grito de Ipiranga" que demoliu o Muro de Berlim... Mikail Gorbatchev que, na passada 6ªfeira, dia 6 de Outubro de 2009, disse à televisão francesa, com a humildade que só podem ostentar os que não precisam da vaidade do protagonismo e os que reconhecem a importância dos povos, ter sido a vontade dos cidadãos que derrubou esse Muro da Vergonha, cuja queda demonstrou, surpreendendo a História, que as Pessoas fazem e podem fazer o Mundo...



O Muro de Berlim - 1




Berlim foi, entre 1961 e 1989, exemplo do que já foi designado por "esquizofrenia geopolítica" da Guerra Fria e o seu Muro, tristemente célebre, o rosto, a carne e o sangue dessa loucura... No contexto da estratégia dos Aliados que permitiu a derrota dos exércitos de Hitler, Berlim foi conquistada em Maio de 1945 pelo Exército Vermelho e dividida, para efeitos de controle e gestão política, em 4 sectores: russo, americano, inglês e francês. Contudo, herdeira maior da II Guerra Mundial, a Guerra Fria radicalizou posturas de divisão do mundo para o exercício hegemónico do poder e, em 1948, Berlim passou a estar dividida apenas em 2 sectores: soviético e ocidental. Foi então que Stalin decidiu, como expressão da sua rejeição do Plano Marshall que institucionalizou a aliança política da Europa com os EUA que, até hoje, conhecemos, impôr aos Berlinenses um bloqueio total, tornando-os reféns de um jogo político-ideológico de expressão militar que se prolongaria até final dos anos 80 do século XX. A reacção ocidental, protagonizada pelos EUA através da manutenção de uma "ponte aérea" que distribuiu persistentemente, durante 11 meses, alimentos à população cercada, levou à desistência do plano stalinista em 12 de Maio de 1949 e Berlim passou os 12 anos seguintes num clima de tensões, restrições e conflitos que, pelo medo, criou condições para a criação de 66,5 kms de gradeamento, 302 torres de observação, 127 redes electrificadas e 255 pistas para ferozes cães de guarda preparados para perseguir os que tentassem ultrapassar o espaço interdito. Estava criado o Muro de Berlim e inaugurado um mundo paralelo, coexistente e antagónico, feito de duas realidades que se não podiam tocar, reduzidas ao imaginário sobre a realidade de uns e de outros... um muro que criou ódios, medos, expectativas e suscitou altruísmos, revoltas e curiosidade. O muro da força, da violência e do terror contra a sociedade civil perduraria, com a conivência de todos, até 1989.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Do Primeiro Debate da Nação ao Interesse Nacional

Do debate sobre o Programa do Governo, vale a pena destacar: entre os membros do Executivo, a boa intervenção da nova Ministra do Trabalho, Helena André e as palavras do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, que afirmou como ponto de partida e não de chegada, o Programa que o Primeiro-Ministro foi apresentar à Assembleia da República. Dos grupos parlamentares que se reconhecem como de esquerda, releva a intervenção de Francisco Assis do PS enquanto nos grupos parlamentares que se identificam com a direita, se evidencia a intervenção de Paulo Portas... Os destaques justificam-se pelo facto de, por um lado, Helena André ter transmitido, na forma e no conteúdo da sua intervenção, a atitude inovadora de uma governação que se pretende lúcida e capaz de encarar os problemas sociais do país com um sentido de responsabilidade que implica, simultaneamente, o esforço de articulação entre as possibilidades reais de uma economia fragilizada e as justas reivindicações cívico-políticas que, em diálogo, deverão deixar o estatuto de exigências para passar a plataformas de recurso das oportunidades que é urgente construir para responder à precariedade social que atinge a maior parte da população... e é recorrentemente neste sentido que se registam as palavras de Francisco Assis e as declarações de Luís Amado, manifestando a consciência da indispensável capacidade de diálogo que o Executivo tem que estar preparado para encetar de forma sistémica e consistente, sem ceder ao azedume que a pressão mediática pode desenvolver a partir de situações que, indirectamente, podem, como é o caso "Face Oculta", contribuir para o já antecipado "desgaste" governamental que é essencial saber contornar... porque o desgaste é um dos mais gravosos efeitos internos nos processos de continuidade governativa em contextos democráticos e, consequentemente, um dos pontos de incisão do trabalho da oposição que neles encontra um aliado privilegiado na medida em que, inclusivé, pouco esforço lhe requer... quanto a Paulo Portas, refira-se o facto da sua intervenção decorrer de uma análise racionalista do estado precário que uma maioria relativa sempre representa. Finalmente, uma observação sem destaque para as intervenções dos restantes partidos com representação parlamentar: enquanto o PSD foi profundamente desinteressante e banal e o BE repetidamente juvenil-arruaceiro e moralista-acusatório, a CDU foi mornamente previsível... ficou assim vazio à esquerda o lugar de protagonista que se requeria como força da oposição consistente e realista! Tudo isto porque o grande desafio é ainda inaceitável para parte significativa dos grupos partidários que privilegiam as suas expressões singulares de um poder efémero em detrimento do interesse nacional que se revê na leitura desdobrada do tradicional binómio "pobreza/riqueza" e a que, cada vez mais urgentemente, é preciso responder com o planeamento sustentado do aumento da produtividade nacional assente, por um lado, no combate à pobreza e à exclusão social e, por outro lado, na criação de emprego e de riqueza.
(Este post está também publicado AQUI)

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Efeitos Cívicos da Corrupção

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss, o Incontornável...



Claude Lévi-Strauss, autor fundamental da Antropologia, morreu hoje, com 100 anos de idade. Com um pensamento inovador, capaz de descobrir padrões onde a sua existência não era evidente, denotou a importância das relações de parentesco na morfologia social enquanto descobria e demonstrava a universalidade dos mitos. Destacam-se, entre as suas obras, estudos maiores sobre a dimensão social do ser humano, tais como: "As Estruturas Fundamentais do Parentesco" (1949), "Tristes Trópicos" (1955), "O Pensamento Selvagem" (1962), "Antropologia Estrutural" (1958)", "O Cru e o Cozido" (1964), "Do Mel às Cinzas" (1966), "O Homem Nu" (1971) e "Antropologia Estrutural-2" (1973) mas, talvez acima de tudo, o pensamento contemporâneo fica a dever-lhe a construção e aplicação do estruturalismo como instrumento metodológico profícuo que acabou por produzir a emergência da Antropologia Estrutural. Em Portugal, onde a compreensão da extensão e significado das Ciências Sociais e, particularmente, da Antropologia, está ainda muito aquém do seria de esperar de uma sociedade que, no século XXI, afirma a valorização da Cultura, da Ciência e do Conhecimento, Lévi-Strauss teve um discípulo que com ele trabalhou no Collége de France e que publicou uma das mais importantes obras de investigação fundamental em Antropologia em Portugal. Refiro-me a Armindo dos Santos e, em particular, à sua obra "Heranças - Estrutura Agrária e Sistema de Parentesco numa Aldeia da Beira Baixa", publicada pelas edições Dom Quixote, na colecção Portugal de Perto (nº25), em 1992... e, a este propósito, com humildade mas, também com muito orgulho pelo quanto me deu a aprender, devo dizer que tive a honra de ter Armindo dos Santos como meu orientador e director de teses ao longo do meu trabalho de investigação, um trabalho que se tornou a minha própria forma de estar na vida... Protagonista de um pensamento incontornável, Claude Lévi-Strauss merece, cada vez mais, a nossa atenção à luz da eterna vontade de aprender e da revisitação crítica de que emerge a atitude científica com que se pensa e escreve a ciência sobre a nossa própria natureza e condição.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Um País na Idade do Armário...

"Portugal é um país de amadores" (Jorge de Sena in O Reino da Estupidez)... hoje, no programa Câmara Clara (RTP 2), dedicado a Jorge de Sena, foram convidados de Paula Moura Pinheiro, Jorge Vaz de Carvalho e o sempre extraordinário Eugénio Lisboa, intelectual por quem nutro uma admiração sincera, resultante do sentimento de libertação que provoca o seu desassombramento, lúcido e claro, sobre os objectos a propósito dos quais se pronuncia... Jorge de Sena era um desmistificador... aprendi-o quando me apaixonei pelos seus Estudos Camonianos... e a citação de Jorge de Sena que aqui reproduzo, materializa sempre, no meu imaginário, o retrato do país que somos, radiografia do espaço e das dinâmicas que no tempo vamos percepcionando e em que vamos, mais ou menos a contragosto mas sempre de boa-fé, participando. "Portugal é um país de amadores" escreveu, em 1961, o pensador Jorge de Sena... ainda é!... um país de amadores nas escolhas, nos critérios, nas metodologias e nas perspectivas em que se satisfaz com uma espécie de obediência cega à lógica do previsível, do seguro e do conforme... um país de amadores por se manter quase escolástico, quase canónico, quase, por certo, apenas, cartesiano... um país de amadores por querer medir o futuro com a exacta medida de uma proporcionalidade garantida pelo passado e que, sem ousar, conserva o presente arrumadinho, sem margem para a desordem da criatividade de que irrompe a inovação, a partir da qual se instalam os ritmos da mudança... um país de amadores, por certo, porque nas suas representações se equivalem diversidades, diferenças e inseguranças e onde se pretende que, em vez de se correr, se marche para que se impeçam distinções inconvenientes ou comparações de competências e méritos que deixem de justificar opções assentes em laços de dependência corporativa... um país que se quer resumido às oportunidades do prevísivel e controlado, contrariando esse ímpeto que, em muita da literatura portuguesa, diz a verdade, o sonho e a utopia... um país que recusa a lisura com medo de ficar nú... um país que tem sempre juízos de valor para classificar os que falam, antes mesmo de os escutar... um país que grita sem razão num quarto fechado com medo do mundo, com medo de si e com medo de perder a ordem em que se auto-representa, num esforço de auto-reconhecimento e auto-valorização da adequação dos seus meios, esquecendo que o hábito lhe inquina o raciocínio... um país que tem a História e a Vida arrumadas em pequenas gavetas, ordenadas e rotuladas, é um país que se recusa a sair do armário... por isso, talvez por tudo isto e por tudo o mais o que lhe sabemos poder somar, Jorge de Sena tenha dito, com propriedade: "Portugal é um país de amadores"... o presente aí está para o comprovarmos e, se restarem dúvidas, aí estará, infelizmente!, o futuro, para o confirmar...

Leituras cruzadas...

Espanta-nos o mundo, como bem demonstra Carlos Barbosa de Oliveira no Crónicas do Rochedo... porque é incansável o nosso esforço na compreensão da humanidade de que somos feitos e que vai, felizmente!, muito além das mesquinhas realidades que vamos permitindo (leia-se o texto de José Manuel Dias no Cogir), dos paradoxos bizarros que alimentamos (de que são bons exemplos os textos de Ricardo Paes Mamede no Ladrões de Bicicletas e Eduardo Pitta no Da Literatura) e dos condicionalismos atávicos de que nem conta nos damos na vaidade dos dias (veja-se o texto de Vitor Oliveira Jorge no Trans-ferir). Vale-nos, a título de contra-argumento contra toda esta inutilidade de enredos em que nos prendem a liberdade enquanto expressão de uma determinada e feliz vontade de existir, os escritos que emancipam e esclarecem a nossa condição como o evidenciam Raimundo Narciso no PuxaPalavra, Eduardo Graça no Absorto, Rui Herbon no Absinto ou Francisco Seixas da Costa no Duas ou Três Coisas... Porque vale a pena contrariar, com a memória e a intervenção, a maré de mediocridades em que nos sentimos envolvidos, continuando a erguer a voz da alma, das causas... e da Esperança.
(Esta rubrica passa, a partir de hoje, a ser publicada também AQUI)

Interrogações...



... "Preguntitas a Dios" é um poema de Atahualpa Yupanqui... aqui cantado por Victor Jara e ilustrado em conformidade por Maurizio González F. com o sentir de quem olha, vê, pensa e interpela o mundo...

sábado, 31 de Outubro de 2009

O Lago dos Cisnes segundo Zakharova e Nureyev



... Svetlana Zakharova (2004)...



... e Rudolf Nureyev (1966)...

... e um Tributo ao Bailado... no Masculino



... a Rudolf Nureyev...

Sons Femininos...



"Redoutable" de Véronique Sanson, ícone feminino da mudança na composição musical francesa dos anos 60 e 70.

Contra o Desemprego, Proteger os Cidadãos


Temos hoje, na Europa, 22 milhões de desempregados e, em Portugal, mais de 510.356 de cidadãos sem trabalho... numa economia e numa sociedade como a nossa, onde é indispensável promover, com resultados efectivos, o aumento da produção nacional para, na expressão de Ernâni Lopes, "criar riqueza", a prioridade política é, incontornavelmente, combater o desemprego. O fenómeno, demolidor da estrutura social pelo vertiginoso ritmo de empobrecimento da população, justifica a sua eleição como matéria de interesse nacional que o Governo reconhece, assumindo-o como seu principal objectivo e que, as entidades vocacionadas para a defesa dos direitos das pessoas, designadamente, os sindicatos, desenvolvam meios de pressão política no sentido de serem materializadas as condições indispensáveis ao apoio social aos cidadãos, cada vez mais fragilizados. Felizmente, reconheça-se... porque, por um lado, a questão se inscreve no quadro dos Direitos Humanos e dos Direitos Fundamentais e porque, por outro lado, quando atingidas por processos que aceleram a exclusão social, as pessoas perdem capacidade para resistir a uma realidade que, de forma evidente, transcende a sua esfera de intervenção. Por isso, numa atitude pró-activa de intervenção, a central sindical CGTP lançou uma Petição apela: a) ao alargamento da protecção no desemprego; b) à revogação do factor de sustentabilidade; c) à alteração das regras de actualização das pensões e das prestações. A Petição pode ser lida e assinada AQUI.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

A Face Oculta...


"Face Oculta" não é título de telenovela ou sequer de um "thriller"... é o nome de mais uma operação judiciária na guerra contra a corrupção, matéria que, pela frequência com que vem emergindo, merece à opinião pública, não apenas atenção mas, acima de tudo, reflexão. Antes de mais, a face oculta da "tentação" a que cedem os que ao poder acedem, denota a falta de competências pessoais para o exercício das funções a que ascendem. A negligência absoluta da noção de serviço em nome do bem-comum atesta a ausência de uma cultura cívica indissociável da inexistência de uma cultura política sustentada e a sistematicidade com que os políticos surgem associados ao crime económico é o pior dos precedentes para a garantia da continuidade democrática. A corrupção, nos estados democráticos, dissemina a valorização do autoritarismo. Perigosa politicamente para as democracias, a corrupção económica assenta numa actuação que facilita o desenvolvimento da própria economia paralela, da delinquência e de todo o tipo de criminalidade. Por isso, em sociedades organizadas com base nas relações de dependência interpessoal, as redes criminosas multiplicam a sua exponencialidade, podendo materializar-se em relações sociais como as que, em Itália, têm um rosto já não oculto mas, assumido à luz do diz. Das pequenas conivências aos favores mal-equacionados em termos de consequências, rapidamente se desenvolvem dinâmicas a que só o carácter e a cultura cívico-política interiorizada no quadro de valores dos cidadãos podem estabelecer limites de legitimidade... Sabendo-se, designadamente por analogia com o que acontece no que se refere ao grau de representatividade real dos dados estatísticos que, apenas cerca de um terço dos indicadores da realidade é, de facto, denotável pela metodologia aplicada, no caso, no que à corrupção respeita podemos imaginar a dimensão do fenómeno que, antes de mais, hipoteca a confiança das pessoas e descredibiliza ainda mais a Justiça e a Democracia.

Caim... na Culturgest...


quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Tarrafal... nunca mais!




Faz agora 73 anos que foi inaugurado o Tarrafal, "Campo da Morte" português. A Ilha de Santiago, em Cabo Verde foi o local escolhido pelo Estado Novo para sujeitar os deportados ao conhecido regime de "morte lenta", caracterizado pelo recurso a espancamentos, trabalhos forçados, semanas a fio na "frigideira" (uma espécie de caixa de cimento, exposta permanentemente ao sol, com apenas 2 orifícios para permitir a respiração, internamente dividida em 2 celas com capacidade para 2 a 3 prisioneiros cada mas, onde chegaram a estar 12 homens no exíguo espaço de 9 metros quadrados), à péssima alimentação e à contaminação por doença (designadamente, paludismo) numa das mais inóspitas regiões do arquipélago... Campo de concentração ainda sem a sofisticação das câmaras de gaz celebrizadas pelos nazis, nele morreram 32 dos que aí foram desterrados, entre os quais se contam participantes nas greves de 18 de Janeiro de 1934, participantes na revolta dos marinheiros de 1936, anarquistas, sindicalistas, comunistas e antifascistas que, à chegada ao degredo, ouviam anunciar pela voz do Director do Campo: "Quem vem para o Tarrafal, vem para morrer!" O tempo de prisão dos 340 prisioneiros que passaram pelo Campo somou 2.000 anos, cinco meses e onze dias! O Tarrafal foi extinto em 1954, tendo sido utilizado na década de 60 para os que lutavam e apoiavam os movimentos de libertação dos agora PALOP's! Os corpos dos 32 mortos no Campo da Morte só vieram para Portugal depois do 25 de Abril de 1974!... Para que se não esqueça, A Nossa Candeia associa-se a todos os que trazem à memória o exemplo do que não podemos deixar que volte a acontecer... e ficam as imagens, indesmentíveis, das instalações do campo, do cemitério e da "frigideira"do Tarrafal!

(Este post tem publicação simultânea no A Regra do Jogo)

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Escravaturas...



No dia em que ficámos a saber que mais cidadãos emigrantes, de nacionalidade portuguesa, foram escravizados, a partir de uma demanda de trabalho, fica-nos a ideia de que toda a atenção é pouca perante as novas/velhas estratégias de exploração dos seres humanos... por ora, fica o som de um exemplo de libertação e afirmação... India's Song por India Arie!...

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

A Guerra da Água


A Guerra da Água atingiu proporções dramáticas: 80% da água potável disponível na Cisjordânia é consumida por Israel que impede o seu acesso aos Palestinianos... com a inverosímil, ridícula e nefasta justificação de que foram os israelitas a descobrir primeiro (?!?!?!) as fontes deste vital recurso natural... para além de pura provocação, esta atitude é uma evidência da adopção dessa prática genocida que consiste no retirar os meios elementares de subsistência a um povo inteiro. Inadmissível Crueldade que serve apenas para ceifar a vida da população palestina e que contribui decisivamente para a falta de respeito que a Humanidade nutre já por Israel que continua a investir nos caminhos da guerra, da fome e da guerra como forma de relacionamento com os povos vizinhos. A Amnistia Internacional veio a público denunciar a situação.

(Este post tem publicação simultânea no Forum Palestina e no A Regra do Jogo)

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Tragédias Contemporâneas: o Mundo Laboral entre o Desemprego e o Mau-Emprego...

O desemprego é hoje o maior desafio do mundo ocidental que integra o número de países ditos desenvolvidos. Na verdade, a constatação do fenómeno decorre, não da sua imprevisibilidade (na medida em que o desenvolvimento tecnológico o implica e anuncia com significativa antecipação) mas, isso sim, na incapacidade (objectiva por razões de negligência e cálculo de redução de custos que se presumem no não investimento da prevenção) de encontrar respostas diversas, inovadoras e alternativas no quadro da oferta dos empregos, trabalhos e tarefas que sabemos irem reflectir a dispensa de mão-de-obra por motivos vários mas, repito-o!, previsíveis. O problema do desemprego não pode ser resolvido sem a coragem política coordenada e integrada de apoio à criação de empresas e à contratualização em áreas inovadoras relativamente ao mercado tradicional... não, não se trata apenas de alimentar as cadeias das novas, tecnologias da informação, tecnologias de vanguarda, "de ponta", etc... trata-se, isso sim, de investir fortemente no apoio à revitalização e à criatividade no sector das indústrias transformadoras, designadamente de pequena e média dimensão, de modo a reconfigurar os aparelhos produtivos que viabilizam a sustentabilidade do desenvolvimento à escala nacional, por toda a Europa... da agricultura aos serviços, precisamos urgentemente de perceber que interesses, competências e oportunidades nos oferecem as existências e qualificações de que dispomos para reinventar uma rede económica diversificada que se não esgote nos modelos e práticas tradicionais... hoje, conforme o provam os suicídios na maior empresa de telecomunicações francesa (leia-se o excelente artigo publicado pelo Alternatives Économiques), o trabalho sob tensão, contrariando vocações e formações, competências e consciências, conduz a uma tal baixa auto-estima, a uma tal redução das expectativas sociais e a níveis de qualidade de vida tão pouco gratificantes que se pode já tirar conclusões que não podemos continuar a ignorar (leia-se o artigo de Beja Santos no Vidas Alternativas). Referimo-nos à degradação das condições de trabalho (com causas muito próximas do abuso da flexibilidade e mobilidade utilizadas em ritmos que contrariam toda a organização bio-psico-social tal como a conhecemos e vamos culturalmente), associada às cada vez menos visíveis solidariedades colectivas (que nos alertam para o desfasamento entre interesses de trabalhadores e culturas organizacionais sindicais)... sem querer comparar o desespero do desemprego com a fraude psico-social e cultural que representa o mercado de trabalho de hoje, é importante que se tenha uma visão objectiva de conjunto destas realidades que apelam, inexoravelmente, à revisão ideológica do mundo laboral nas sociedades contemporâneas... aliás, foi esta a grande lição da crise que só não é assumida politica e colectivamente pelo receio da quebra dos lucros imediatos dos que ainda se constituem como pilares económico-financeiros... contudo, mesmo para estes, a situação é progressivamente incontrolável, dada a crescente instabilidade dos mercados cujos equilíbrios são cada vez mais precários... a Humanidade não pode ser forçada a mudar a sua própria natureza cuja capacidade de resistência e adaptação tem, apesar das aparências, limites, em nome dos rendimentos dos detentores do poder económico actual cuja cultura não está à altura do exercício desse poder... porque se estivesse, a economia estaria ao serviço das pessoas e da qualidade de vida para todos!
(Este post tem publicação simultânea no A Regra do Jogo)