

Chama-se Custódia Gallego e interpreta, até 20 de Dezembro, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D.Maria II, a peça "Vulcão" escrita por Abel Neves e encenada por João Grosso. Quem não viu, devia ir ver... porque se trata de um trabalho que devolve ao teatro a profundissima dimensão humana que o dignifica como Arte Nobre da Representação e da Vida... e se o texto é muito bom, a relembrar grandes clássicos da abordagem relacional dos seres humanos no mundo complexo dos sentimentos, dos juízos e das práticas, a encenação é perfeita na rigorosa adequação de uma espécie de luva que cabe apenas na mão para que foi desenhada, com uma luminotecnia e uma sonoplastia exactas, capazes de reforçar e redobrar a força dramática de Custódia Gallego - uma actriz que é uma força da natureza como há muito se não via... num monólogo com cerca de 90m, uma mulher, sózinha em palco, a uma muito reduzida distância dos espectadores, rasga a noite e preenche o espaço, com uma voz, um rosto e um corpo que, na sua profunda e densissima solidão, anima personagens, acções e sentires de uma narrativa a que se assiste, sem dela se ver senão a personagem que encarna, Valdete. "Vulcão" é inesquecível, imperdível e, como tal, ficaremos, seguramente, mais pobres se perdermos a oportunidade de conhecer esta obra e esta representação. Está de parabéns a dramaturgia portuguesa e o mundo da arte em Portugal!... Deixo-vos um excerto do texto de Abel Neves, publicado no programa: "(...) A verdade é que todos nós praticamos a arte do monólogo, uns mais do que outros, mais em murmúrio uns do que os outros, uns mais capazes de se fazerem ouvir, muitos irremediavelmente perdidos no enigma deste mundo. (...) "Vulcão" não é mais do que uma história que nunca existiu, mas que a fascinante disponibilidade de corpo e espírito de uma actriz consegue trazer ao palco para que possamos, talvez, não só restaurar - e para melhor - as arruinadas vidas de muitos, como precaver-nos - em muitos casos também - contra os malefícios de algumas acções e que, afinal, até têm bom remédio. Não é que o teatro faça milagres, porque os não faz, mas ajuda a pensar outras vidas, possíveis e melhores, e a clarear horizontes. Nós, os que com o público andamos no teatro, ainda vamos acreditando nisso."... Eu também!