domingo, 1 de fevereiro de 2009

Entre Belém e Davos... o mundo e as pessoas!


Chove em Lisboa... e o vento fustiga todas as existências expostas à intempérie, árvores, casas... pessoas! Os cidadãos sem-abrigo escondem-se do frio e da água sob memórias que lhes surgem, não havendo alternativa, como piores que todas as condições externas... a vulnerabilidade humana já anterior à sua actual condição social, reforçada pelo estatuto nela adquirido, agrava-se duplamente, sempre que a natureza os surpreende... pela evocação das memórias e os contraditórios argumentos com que a mente e o sentir os confronta... por toda a Europa e também em Portugal o risco de exclusão e desintegração social agrava-se e constatá-lo não é uma ideia ou um conjunto de palavras: é uma realidade!... como os milhões de desempregados que, em crescendo, vão tornar incontestável que o mercado, designadamente o mercado de trabalho, nos moldes em que está a ser gerido, não é humana e socialmente, sustentável. Por isso, se, em Davos, se discute ainda a liberalização do comércio mundial ao invés de se assumir que é necessário reestruturar os princípios económico-sociais das democracias contemporâneas e se, em Belém do Pará, além da água e do ambiente, se não equacionam novos modelos socio-económicos de gestão para os povos, continuamos no ponto zero da discussão... quando, dada a gravidade da crise que atinge as nossas sociedades, seria de esperar termos ido mais além na abordagem política do nosso tempo!...

Conservadores... sob o hábito de comentadores!


O alimentar e estimular de suspeições como forma de fazer política inscreve-se na lógica mais reaccionária de tentar o protagonismo na vida pública. É lamentável que, além do interesse comercial em fazer subir audiências e em vender jornais, os comentadores da nossa "praça" percam o seu tempo, investindo no reforço da difamação! Perdem com isso toda a credibilidade... agora e para o futuro! ... e lesam os grupos políticos em que se inscrevem por lhes imporem uma cumplicidade mais ou menos indirecta com a mediocridade e o assumir de pressupostos em tudo contrários a uma democracia transparente! Ficamos assim expostos à total irresponsabilidade dos que pretendem ser vozes públicas quando, das suas palavras, se retira apenas "a vontade da intriga e da má-fé" de quem não percebe (nem quer perceber!) nada da sociedade em que vive... é que, por muito que não queiram, a revolta e a mudança radical que ela, gratuitamente, pode suscitar a título de simples reacção, não conduz a qualquer forma de governabilidade que garanta o funcionamento democrático ou que contribua para melhorar a vida das pessoas... bem pelo contrário! ... obriga ao retrocesso e agrava o que tem contribuido para o impasse em que se arrasta, há demasiado tempo, a sociedade portuguesa! Não discernir o fundamento ou as consequências desta filosofia obsoleta de estar na sociedade e na política nada augura de bom para o futuro!... não é, portanto, com estas pessoas que o país pode contar para combater crises e atrasos estruturais ou, sequer, ajudar a pensar problemas!... quanto mais a resolvê-los - diria! Não... a renovação política não anda por aqui!... porque a lógica que assiste a estas posturas limita-se a reproduzir o que de pior se praticou ao longo da História, no contexto dos meios que cada tempo teve a possibilidade de utilizar.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Perspicácia e Informação...

Vale a pena ler em Causa Nossa alguns pormenores de lógica que justificaram o post que aqui coloquei ontem sob o título "Oposição ou Impasse da Demagogia"... aliás, vale também a pena atender aos interessantes resultados que o Margens de Erro divulgou hoje e que a Câmara Corporativa comenta...

A Pedra...


"A Pedra


O distraído nela tropeçou.


O bruto a usou como projétil.


O empreendedor, usando-a, construiu.


O camponês, cansado da lida, dela fez assento.


Para meninos, foi brinquedo.


Drummond a poetizou.


Já David matou Golias,


e Michelangelo extraiu-lhe a mais bela escultura...


E em todos esses casos, a diferença não esteve na pedra, mas no homem!


Não existe "pedra" no seu caminho que você não possa aproveitá-la para o seu próprio crescimento."


(Texto de autor não identificado enviado por Paula Brito)

O Divórcio - a Lei, a Mudança e a Ideologia



Um barco desliza no Tejo, avançando quase imperceptivelmente na manhã que funde a luz translúcida do céu e das águas... vejo-o da minha janela enquanto a imagem se me escreve na mente, reiterando o sentimento de que a a realidade segue o seu próprio curso para além de todo o ruído e apesar dos escolhos gratuitos que se vão imputando à democracia... diz a comunicação social de hoje que Alberto João Jardim acusa o Governo de "destruir" o país, enquanto na blogosfera surge a ideia de que Dias Loureiro é Presidente do Conselho Fiscal da Fundação Champalimaud... as notícias não são desenvolvidas ou melhor, surgem como simples apontamentos... o barco continua o seu percurso sobre o rio e penso... penso nos critérios de análise e de ajuizamento que, em Portugal, jornalistas e políticos utilizam para as suas afirmações e as suas "investigações"... concluo pela constatação do recurso demagógico e sensacionalista de uma sociedade que se satisfaz no escândalo fácil e na especulação oportunista... uma sociedade provinciana e mediática que ainda não assimilou o conhecimento e a consciência cívica disponível no nosso tempo... sintomático e evidente, o relacionar a Lei do Divórcio com o aumento da pobreza é uma especulação gratuita que reitera esta constatação... o divórcio é um direito fundamental dos cidadãos!... esquecer este "detalhe" que legitima o acesso das pessoas à libertação de um compromisso contratual é recorrer a um princípio demagógico contrário à cidadania, resultante de uma velha confusão relativa à separação de poderes entre o Estado e a Religião! Presumir, em pleno século XXI, que o casamento é uma realidade "ad aeternum" e recusar aos homens e às mulheres o direito a decidir o caminho da sua própria vida, reflecte a incapacidade de interpretar o mundo contemporâneo e o ignorar da importância da liberdade individual e do direito à mudança. A necessidade do reforço das competências sociais no sentido do divórcio ser encarado como um direito, permitindo que a sociedade não penalize com infundadas culpabilizações de senso comum os cidadãos divorciados, seria uma observação pertinente e justa sobre o impacto social da nova lei... condená-la é, apenas!, uma postura ideológica que muito deixa perceber sobre as representações sociais de quem a veicula! ... contra a cidadania, a liberdade e os direitos fundamentais!

Sons... de hoje!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Oposição ou Impasse da Demagogia?...

Em entrevista à RTP 2, António Borges proclama uma série de críticas à governação... com um raciocínio construido sobre a crítica do actual Governo, afirma uma série de princípios sem sustentabilidade, conhecidos de todos como slogans gratuitos... entre muitos outros lugares-comuns que o mundo constatou terem falhado, condena o envolvimento do Estado no apoio ao combate à crise e avança, divergindo por todos os caminhos, em apelos à completa liberdade do mercado(?), à capacidade dos empresários (?), ao fim do apoio ao consumo (?) e à redução minimalista do papel do próprio Estado... negando que o apoio ao consumo dinamiza a economia, afirmando que os empresários não precisam do Estado, que as PME's são a solução para a crise e que em Portugal circula a ideia de que, entre nós, ninguém vai à falência(?), o entrevistado denota uma total ausência de sensibilidade social e de estratégia político-económica... um pensamento ultrapassado pela realidade contemporânea e uma inutilidade de efeitos gravosos para as condições de vida dos portugueses... esperemos que se não instale o vazio criado, alimentado pela desconfiança, o medo e o desemprego capaz de, por simples expressão de descontentamento, dar crédito à demagogia... porque aí sim, sem sombra de dúvida, a crise iria instalar-se "a frio" sobre todos nós, de uma forma verdadeiramente insustentável... porque a tese defendida assenta no princípio de que é preciso que as pessoas vivam pior em nome de uma crise -que, estranhamente, o entrevistado insistiu em reduzir a culpas atribuíveis ao Governo!!...

De Belém a Davos... ideologia e intervenção!


De Belém a Davos vai a distância de um mundo... desse mundo relativamente ao qual queremos acreditar que um mundo diferente é possível!... de Belém a Davos vão todas as possibilidades que encontramos entre duas extremidades: uma recta feita de um número infindável de pontos!... Duas expressões ideológicas manifestas e assumidas publicamente, reflexo de interesses antagónicos e presentes -omnipresentes!- em todos os cantos do mundo!... Hoje, num tempo em que a dicotomia "Leste/Ocidente" se diluiu sob a égide de um alegado "fim das ideologias", Davos e Belém do Pará representam as vozes dos colectivos que se organizam para justificar os silêncios e as posturas... em Davos, a argumentação de Shimon Peres, levou Erdogan a abandonar a sala, contribuindo para, a título de preço por um pedacinho de propaganda de impacto internacional, incendiar as relações, já tão tensas!, entre países árabes e outros... em Belém alude-se a um novo socialismo... falta explicar aos protagonistas que não se pode utilizar Davos para palco de justificação da injustiça e da crueldade porque, em política, não vale tudo e que se exige a Belém algo mais do que um slogan... Porque é realmente possível um mundo diferente!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Assertivo e Directo...!

Interessante observação a ler no "Da Literatura".

Paz - entre a Água, a Terra e a Coragem!


Yasser Arafat e Yitzhak Rabin ousaram olhar-se nos olhos, estendendo, em simultâneo, as suas mãos, sedentas de paz... desse gesto cruzado e forte, nasceu o Estado da Palestina, fruto de uma decisão ditada pela coragem e a bondade de uma condescendência disposta a ultrapassar divergências e mágoas... dois povos sofridos podem entender-se melhor na construção da Paz se, para tal, as suas lideranças manifestarem vontade, determinação e capacidade... a Paz é um poder, a Terra é de todos e a Água um bem precioso... para todos! Pelo direito à vida e à dignidade... de todos... e para todos!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A Memória...


Visitei Auschwitz sózinha... Eram 7h da manhã, de uma manhã fria e cinzenta... o campo de concentração, agora musealizado, acabara de abrir... percorri-o rua a rua, bloco a bloco, forno a forno... e enquanto caminhava naquele espaço exíguo, com a consciência do sofrimento indizível e da morte de milhões de pessoas que ali foram conduzidas para o extermínio, tornava-se-me quase impossível imaginar fosse o que fosse e até pensar - por tão ridícula ser, face ao horror, qualquer lógica... As Vítimas do Holocausto são anualmente relembradas em todo o mundo no dia 27 de Janeiro... foi ontem! ... é hoje... o dia 27 de Janeiro é todos os dias!... porque todos os dias são dias de não esquecer a crueldade de que é capaz a espécie humana!... para que se não repita!... nunca mais!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Deontologia e Comunicação Social...

Vale a pena ler Valupi, no Aspirina B, neste perspicaz pedaço de prosa a propósito da deontologia profissional dos jornalistas...

O Interesse Nacional, o Direito e a Ideologia


O que é o "interesse nacional"? O conceito, vastissimo e sem delimitação significante, conduz sempre à consideração simultânea dos termos da lei e do "bom-senso"... porque é inegável a densidade da relação deste conceito com a ideologia... na verdade, quando, como acontece actualmente, os governos democráticos exercem o poder mais em função da agenda económica e social, no quadro da legitimidade que lhes é conferida por resultados eleitorais não questionados, sabemos que não é a vertente ideológica a sua principal fonte doutrinária, apesar da doutrina jurídico-política e económica ser o seu referencial... neste contexto, entende-se que os governos de gestão não podem decidir sobre questões relevantes para o país como é o caso da aprovação de Orçamentos de Estado, iniciar ou fechar relações diplomáticas e relações internacionais, decidir da participação nacional num conflito bélico mas podem decidir sobre assuntos da designada "gestão corrente", expressão que se aplica, por exemplo, à conclusão de processos em curso, "despachados" em tempo útil... se a legislação coincide ou não com o que cada cidadão interpreta como objecto de "interesse nacional", essa é outra questão!... se o Direito é criticável e pode ser melhorado, isso depende das sugestões feitas e da capacidade do seu exercício... mas, um projecto de âmbito local e de carácter sectorial não é, necessária e indiscutivelmente, um assunto de "interesse nacional"... entre ideologia, ética e legalidade o caminho não é estreito... por isso, nos tempos que correm, exige-se que falemos com rigor e saibamos distinguir "o trigo do joio"... para que nos não distraiam daquilo que efectivamente é, reconhecidamente, o interesse nacional: garantir a continuidade democrática e evitar a ruptura social sem retorno... e aqui, voltamos de novo à subreptícia e sempre presente questão da ideologia...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Esclarecendo suspeições...

Não sou jurista e como tal não poderia produzir as afirmações que aqui vale a pena ler... pelo carácter esclarecedor que o seu autor, num texto intitulado "Freeport: Mário Crespo também dá «barraca» - A ignorância dos jornalistas portugueses", permite aos leitores, dando a conhecer a legalidade de alguns procedimentos susceptíveis de, à luz do senso comum, causarem perplexidade e suspeição. Quanto se trata de assuntos que adquiriram, na opinião pública, a dimensão deste dossier, convém saber do que falamos...

Citações ... analógicas!

"(...) Creio que na cabeça de salomão o não querer e o não saber se confundem numa grande interrogação sobre o mundo em que o puseram a viver, aliás, penso que nessa interrogação nos encontramos todos, nós e os elefantes.(...)" (pg.120)

"(...) Uma pena. Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades.(...)" (pg.147)

José Saramago in A Viagem do Elefante, 6ªed., ed. Caminho

domingo, 25 de janeiro de 2009

Tentações - entre a honestidade e o escândalo

"(...) Ora, dois homens que tenham de caminhar juntos durante duas ou três horas seguidas, mesmo imaginando que seja grande o desejo de comunicação, acabarão fatalmente, mais cedo ou mais tarde, por cair em contrafeitos silêncios, quem sabe mesmo se odiar-se. Algum desses homens poderia não ser capaz de resistir à tentação de atirar o outro por uma ribanceira abaixo. Razão têm, portanto, as pessoas que dizem que três foi a conta que deus fez, a conta da paz, a conta da concórdia. Em três, ao menos, um qualquer poderá estar calado durante alguns minutos sem que se note demasiado. O pior é se um deles que tenha andado a pensar em eliminar outro para lhe ficar com o farnel, por exemplo, convida o terceiro a colaborar na repreensiva acção, e este responde, pesaroso, Não posso, já estou comprometido em ajudar a matar-te a ti.(...)" (José Saramago in A Viagem do Elefante).

Assim, por precaução recomendada pela sabedoria e o bom-senso, de igual modo, quando duas partes trazem a público assuntos que põem em causa a integridade das pessoas, é avisado falar com outros intervenientes... de preferência, vários... para que o juízo e o resultado do falatório se aproxime mais da verdade, da transparência e da justeza do que da injustiça, do ruído e do espectáculo.

O Poder da Esperança



Foi por sugestão de Paula Brito (cuja colaboração com A Nossa Candeia nunca é demais agradecer) que fui em busca deste trabalho... e encontrei uma versão legendada... Vale a pena... para aumentar o Poder da Esperança!

Dies irae...


"Dies irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.

Apetece chorar, mas ninguém chora.

Um fantasma levanta

A mão do medo sobre a nossa hora.


Apetece gritar, mas ninguém grita.

Apetece fugir, mas ninguém foge.

Um fantasma limita

Todo o futuro a este dia de hoje.


Apetece morrer, mas ninguém morre.

Apetece matar, mas ninguém mata.

Um fantasma percorre

Os motins onde a alma se arrebata.


Oh! maldição do tempo em que vivemos,

Sepultura de grades cinzeladas,

Que deixam ver a vida que não temos

E as angústias paradas!"

Miguel Torga


(Poema e Fotografia enviados por: Paula Brito)

É Urgente Construir a Cidadania!


Ainda é cedo para falar mas, é digno de registo o regresso à escola das crianças em Gaza! Meninas e meninos que merecem e precisam de uma educação especialmente direccionada para a recuperação do stress pós-traumático que só a vida, em paz, lhes poderá devolver... meninas e meninos para quem uma educação promotora da cidadania e dos valores da paz e da coexistência pacífica, é essencial... porque não serão excessivos todos os meios a investir na recuperação do medo e da dôr... e, se os traumas não são, enquanto tal, ultrapassáveis, aprender a geri-los e a compreendê-los é fundamental para o desenvolvimento de adultos saudáveis, capazes de defender a sua soberania sem o recurso à violência! Uma educação valorizadora da inteligência emocional, direccionada para a educação cívica e cientificamente sólida seria o ideal para todas as crianças do mundo - incluindo as portuguesas, é claro!... mas, se, por um lado, sabemos que os critérios políticos e profissionais tendem a desvalorizar estas vertentes qualitativas dos processos de ensino-aprendizagem, por outro lado, como dizia há pouco mais de um ano, um qualificado professor universitário muçulmano: "(...)como podem as pessoas pensar em cidadania, se a sua cultura não traz este valor integrado? Antes de mais, é preciso explicar e transmitir a importância e a mais-valia deste conceito!(...)"... aqui está um extraordinário contributo que a ONU, a Unicef, a Unesco e todas as ONG's e ajudas internacionais podem dar a Gaza, para além do indispensável e enorme apoio à reconstrução de um país recém-nascido mas já demolido... Pedagogia da cidadania, uma urgência em todas as escolas do mundo!

Rumar contra a Maré!



É a identidade que nos permite resistir... a convicção serena do que somos na consciência da razão que transportamos sobre o sentir, para gerir o "estar" e o "ir sendo", ao longo da construção do "ser"... resistir para existir!... discernindo no tempo os caminhos prudentes e ousados a percorrer!