terça-feira, 30 de junho de 2009

O meu país ao espelho... em vésperas de eleições!

O meu país olhou-se ao espelho... e viu a imagem mal composta de partes de si, dispersas, pelo chão e pelos ares... viu os sonhos e as memórias de um tempo melhor que acreditou inteiro, afastando-se para sempre do pesadelo de que saiu em Abril, vai já para mais de 35 anos... e viu a realidade aproximar-se, cada vez mais velozmente, de uma outra paisagem, despida de gente, árvores e alento... o meu país, ao espelho, sonha consigo... devagarinho, em voz baixa, ao som de uma esperança que se reinventa a si própria para não soçobrar... o meu país, ao espelho, chora... pela crença convicta de ter ganho a luta do medo e pela consciência de que os medos renascem a cada passo na capacidade camaleónica que a desesperança confere aos seres colocados perante um dilema que mal conhecem, sobre o qual preferem não se pronunciar... do meu país, esse país que se orgulhava da sua imagem ao espelho, resta apenas a consciência de ser reflexo - a sombra de um desejo que no mundo encontrou, no intervalo da vida, o único reino da existência que o passado semeou e que o presente ainda não emancipou... o meu país, ao espelho, é uma imagem de si, uma imagem que evita fugir do que de si fizeram, com e sem o seu acordo - ou, até mesmo, contra ele... ao meu país resta, portanto, olhar de frente o espelho... e perceber, no que se esconde, a verdade do que há a revelar e, no que se mostra, o que há a corrigir... o meu país tem mãos e voz e pensamento... não pode, por isso, resumir-se aos figurantes que alegam ser seus representantes e dele nada dizem senão o mal que nos outros reconhecem, apenas e só na exacta medida da sua mesquinha ambição de poder... o meu país, adormecido, olha-se ao espelho, estremunhado... um dia, o meu país acorda e já não quer olhar-se ao espelho no caleidoscópio das palavras gratuitas de uns e outros... um dia, o meu país acorda decidido a viver e, nesse dia, rasgará (ele sim, rasgará) as ilusões com que lhe vendem os sonhos e lhe escravizam a alma... nesse dia, o meu país, acordado, não vai dar atenção às razões que justificam o mau-estar e vai, isso sim, querer acabar com o mau-estar... é por isso que é preciso combater a fome, o desemprego e a hipocrisia... é por isso que é importante dar razão de ser à esperança, no meu país... porque o meu país, ao acordar zangado, pode enganar-se na forma como se levanta contra o que o castiga e acabar por dar "um tiro no pé"...

domingo, 28 de junho de 2009

Da Tibieza Democrática à Construção Social da Esperança

Compreender o mundo contemporâneo e perceber o estado diverso da humanidade no contexto de uma imagem que a globalização insiste em nos transmitir homogénea é, provavelmente, o maior desafio que se nos coloca, agora que uma crise internacional atingiu o âmago do que, nas últimas décadas, nos foi dado como imperturbável e consistente, justificando até a conversão das economias planificadas que, durante cerca de 60 anos, se auto-sustentaram... de facto, a construção social da esperança com que vamos alimentando os dias, torna as sociedades ávidas de mudança e, na ânsia de mudar assente numa pré-existente expectativa fundada no desejo de melhorar, as culturas ensaiam, através dos agentes políticos que desempenham um papel reflexo da sua determinação, modos de organização que, do fascínio pela homogeneidade de um mundo tecnologicamente perfeito e consumista, se encontra agora num processo de viragem de que são sinais reveladores o enraizamento nas identidades e a resistência aos padrões considerados até há pouco, consistentes... A emergência da mudança contemporânea arrasta consigo, no plano interno das nacionalidades, conversões políticas de carácter simplista que se reduzem, muitas - senão, demasiadas- vezes, à simples inversão da escolha de representação partidária em termos de legitimidade governativa... o facto denota, em última análise, uma certa tibieza e imaturidade das democracias, demasiado expostas a factores comercializados para efeitos de manipulação eleitoral... A construção social da esperança é, por isso, urgente e requer conhecimento, desassombramento, coragem e realismo... O mundo em que vivemos arrisca-se a colapsar se não atendermos à diversidade socio-cultural internacional... como, de certo modo, colapsou -ainda que conjunturalmente na história do longo prazo- no que à arquitectura financeira diz respeito. A economia internacional tem que ser reformulada radicalmente e só os contributos políticos em que, à nossa pequena -mas indispensável!- escala podemos concretizar os passos para essa mudança, podem concorrer para a alteração da correlação de forças entre o conservadorismo medroso e fanático que se oculta sob a capa do dinheiro fácil e da insistência na ideia de um mercado auto-suficiente e uma consciência cívica, humana, transparente e humilde sobre a fragilidade da nossa precária condição humana. A título de exemplo e antes de nos centrarmos na análise da política nacional, veja-se a complexidade social e política da Itália, do Irão ou da Guiné-Bissau - para já não falarmos no Tibete, na Índia, na China, na Palestina, na Colômbia, na Roménia e por aí adiante... realidades paradigmáticas e paradoxais que merecem o nosso mais atento e distanciado olhar... e é do fundo deste olhar que aqui partilho os excelentes contributos de JMCorreia Pinto no Politeia a propósito do Irão e da Itália, bem como os do Nuno Ramos de Almeida no 5 Dias também sobre o Irão e a Guiné-Bissau.

sábado, 27 de junho de 2009

Leituras cruzadas...

Após a publicação do designado Manifesto dos 28, surgiu hoje, numa alargada reacção aos postulados economicistas desse texto já aqui comentado, o Manifesto dos 51 que muitos bloggers estão neste momento a divulgar (Paulo Querido no Certamente para cujo post aqui acabo de fazer link, Miguel Abrantes no Câmara Corporativa, Osvaldo Castro no Praça Stephens, João Pinto e Castro no bl-g-x-st, Carlos Santos no Valor das Ideias, de JRV no Activismo de Sofá e muitos outros)... o debate político está a aquecer e a economia começa a dominar as reflexões... esperemos que se não esgote rapidamente, dando lugar, como aconteceu com a campanha das Eleições Europeias, às acusações gratuitas e mútuas, à agressividade semi-divertida qual jogo infantil de mau-gosto e nenhuma utilidade... neste contexto, de aparente revitalização do diálogo político-social e económico, vale também a pena ler os post's de Paulo Ferreira no Câmara dos Comuns, de Tomás Vasques no Hoje há Conquilhas, de Filipe Tourais no País do Burro e de JM Correia Pinto no Politeia...

Não Desistir...



... Não Desistir!... Por um Mundo Melhor para Todos... Persistir!

A Construção Social da Esperança - 1





... a "talhe de foice" e com o pretexto inicial do Irão, esboço os traços iniciais de uma interacção sobre o pensar a Esperança, que, aqui mesmo, no A Nossa Candeia, uma reflexão de Francisco Oneto despertou... em jeito de brainstorming, em busca de um bote quase improvável no meio do oceano, caminhando sempre ao encontro do indispensável esforço de repensar o mundo... começo com uma memória: há cerca de 12/13 anos, numa aula de "Interacção Cultural em Sociedades Complexas" leccionada ao 5º ano da Licenciatura em Serviço Social, no contexto do estudo comparado de práticas e valores, os meus alunos de então e eu própria, assistimos a um documentário sobre "A Condição Feminina no Paquistão"... não vou, naturalmente, descrever as 3 horas de análise e reflexão a que procedemos mas, considero importante saber-se que, com mais facilidade do que seria suposto, jovens de ambos os sexos, aturdidos pela crueldade e a legitimidade da desigualdade de tratamento entre homens e mulheres à luz do pensamento político e religioso que uma parte significativa do mundo reconhece como válida, enunciaram um conjunto de observações assentes na comparação entre valores e práticas em contextos civilizacionais diferentes... assisti aí a uma espécie de "construção social da esperança" ao constatar que era inequívoco para todos que a igualdade, como a liberdade, é um processo aberto, em construção, em que -todos!- temos ainda, dos espaços envolventes da antiga Pérsia às planícies norte-americanas ou aos territórios europeus, muito a fazer... porque a complexidade subjacente aos fenómenos do relacionamento inter-pessoal e social e aos seus reflexos políticos é muito mais do que a simples constatação das aparências... porque a construção social da esperança tem muitas vezes os custos da própria vida... mas, existe... entre a lapidação e a manifestação, há, como as 2 fotografias aqui reproduzidas denotam, uma mudança digna de registo - apesar do resultado ser o mesmo: a morte de uma mulher!... A complexidade da realidade contemporânea de que a actual situação socio-política do Irão é expressão, evidencia a pertinência da problemática: entre Ahmedinejad, o ditador que negou o Holocausto e ameaçou o mundo com a proliferação do nuclear e Mussavi, ex-Primeiro-Ministro do sangrento regime de Khomeini, a população iraniana vive duplamente refém de uma tradição que domina os vastos territórios rurais do seu país e a vontade da mudança que as suas cidades reflectem... entre a pobreza e o medo que fica agora a descoberto (enquanto Obama e Medvedev conseguirem resistir à tentação de se pronunciar ou de intervir - atitude que merece o maior aplauso de todos nós por permitir aos iranianos o confronto com os seus próprios terrores sem a transferência causal da culpa dirigida aos bodes expiatórios do Ocidente), olho, atenta, para o Irão... onde se persiste numa luta pela construção social da esperança, sem a qual a mudança será, talvez, mais do que improvável...

Michael Jackson e a realidade improvável...



Michael Jackson foi, independentemente da adesão afectivo-musical que cada um possa ter relativamente aos géneros musicais que protagonizou, um criativo... um "performer"... um "animal de palco"... um marco!... um marco que, coincidentemente, desaparece quando a sociedade do aparentemente "tudo é possível" entrou numa das suas maiores crises identitárias... como Michael Jackson?... talvez... Michael Jackson, uma vítima do racismo?... talvez!... da vontade de vencer?... por certo... da obstinação em provar que toda a mudança é possível e que tudo é igual entre si, apesar de todas as diferenças?... provavelmente...



... o andar, dançando, sobre o mundo, estranho, improvável... Moonwalk... o passo de dança que mal pisava o chão, simboliza para o futuro a arte de Michael Jackson e uma representação do mundo que se nos depara agora, já, como mais uma ficção cujas potencialidades explorámos ao ponto de quase a confundirmos com a realidade... até ao limite das experiências com o ser-se humano... até a incontornável morte obrigar à derradeira descida à terra.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Veto Governamental - ou da Honra e da Vergonha na sociedade portuguesa...

O veto do Governo de José Sócrates à compra da TVI pela Portugal Telecom foi um acto de lisura... independentemente das reacções que determinam a obstinada e cega atribuição de uma culpabilização factual ou fictícia que a sabedoria popular reconhece pela expressão "preso por ter cão e preso por não ter", a atitude do Governo denota a capacidade de enfrentar uma oposição especulativa e provocadora... quando acabou de ser divulgado o aumento do número de casos de "crimes de honra" na Europa e num tempo em que a "geração Berlusconi" se defronta com o preço do seu auto-deslumbramento perante um mercado em que valores e ideias se trocam por marketing e publicidade, promovendo padrões de uma espécie de "tráfico" da imagem, alienante, anti-democrática, corrosiva e capaz de fazer "render" as intenções renovadoras aos paradigmas de uma tradição em que corrupção e concepções de seres humanos como "objectos sexuais" se reeditam como paradigmas de uma universalidade provinciana de mau-gosto, é, indiscutivelmente, significativo.

Medina Carreira como ponto de partida...

Desculpem... não, não se trata de discutir os pressupostos ou a estratégia de indução político-partidária da argumentação de Medina Carreira... trata-se de todos mas, mesmo todos, termos a coragem de encarar a argumentação que nos apresenta - como o acabou de fazer, hoje, dia 26 de Junho, no Jornal da Noite da SicNotícias - como um ponto de partida válido para pensar a Economia em Portugal... porque a "fuga à realidade" não é, seguramente!, o caminho útil ou sequer, minimamente recomendável, para o país e para a vida dos cidadãos... aliás, "ser de esquerda", hoje, é, antes de mais, encarar, debater e pensar a realidade... para criar soluções indispensáveis à acção... de facto, sem sombra de dúvidas, sem aparelho produtivo todos os caminhos são atalhos para um beco de que, há muito, pretendemos "fugir"... e uma esquerda séria e responsável não foge... enfrenta e luta, com a coragem de não se "refugiar" na demagogia. Ocorre-me o título, feliz, de Sartre: "Os dados estão lançados"!... trata-se agora de conhecer, dominar e vencer o jogo... que, assuma-se!, não é "a feijões"... é, isso sim, um jogo em que se decide, de facto, a sobrevivência!... da sociedade e da democracia!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Iguais a si próprios...



É verdade... tentei evitar colocar este vídeo dos "Contemporâneos" de modo a não reduzir a política partidária nacional ao, apesar de tudo, sempre saudável, humor!... porém, depois da entrevista de MFL à SIC, não é fácil evitar a tentação e, sorrindo com gosto, cedo!... De facto, é extremamente curioso assistir e analisar as potencialidades da "indústria da imagem" por um lado, e, por outro, a leitura subliminar do que lhe está subjacente. Manuela Ferreira Leite surgiu sem efeitos dissimuladores excessivos em termos de maquilhagem, contente consigo própria (com razão, designadamente pelas baixas expectativas que a sua liderança trouxe ao maior partido da oposição até às recentes eleições europeias), assertiva e sistémica na verbalidade... como se não via há muito, diria - talvez desde que terminou o seu mandato como Ministra das Finanças!... Contudo... alegria de Pirro!, tudo devido ao efeito do deslumbramento provocado pelo resultado das Europeias, eleições cuja natureza se reduziu à emissão de um sinal sobre os caminhos da governação ou, talvez mais objectivamente, um sinal sobre o descalabro social das condições de vida das famílias e a re-emergência da pobreza... Manuela Ferreira Leite nada disse de novo. Sistematizou o que tem vindo a dizer, em frases soltas e intervenções pontuais, só que, desta vez, com maior contundência e fluência, influenciada pelo regozijo provocado pela imagem de revitalização que o resultado de 7 de Junho induziu na actual direcção das hostes sociais-democratas... punho esquerdo fechado sobre a mesa, num inequívoco gesto de agressividade contida em termos de manifestação expressiva, Manuela Ferreira Leite alegou que: a) não é preciso autorização para abrir "uma sapataria ou um café" (argumento assaz bizarro para uma economista que, pelos vistos, tão arredada tem andado desde sempre da realidade, que nunca ouviu falar em licenças ou alvarás?!!?); b) designou a derrocada internacional do sistema financeiro e os seus reflexos nas economias nacionais (referindo-se, designadamente, à economia portuguesa) como um "abalozinho de terra"; c) afirmou alto e bom som que, a ser PM, não aumentaria impostos nem reduziria os custos da política de acção social (sem explicar como é que aumenta as receitas nacionais com estes dois "a priori"); d) insistiu em falar no apoio às PME's sem que diga com que critérios (pois, como diz o próprio ex-Ministro Mira Amaral, "nunca haverá dinheiro suficiente para apoiar todas as PME's") e deixando sem resposta a apresentação de uma programa económico sustentável para o país; e) nem sequer tem a coragem de abordar um problema que, desde que se tornou "moda" condenar os investimentos públicos se tornou "inexistente", a saber, como justificar o não recurso ao significativo volume dos fundos comunitários exclusivamente aplicáveis a investimentos específicos, como é, por exemplo, o caso do TGV... Em jeito de balanço, é caso para se reflectir sobre se a oposição e a crítica a determinada praxis política, legitima, por si só, o seu oposto... Penso que não... de facto, penso que não!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A montanha pariu um rato!!!

Surpreende-me a facilidade com que se assumem banalidades como se de ocorrências extraordinárias se tratasse... surpreende-me mais ainda que a Ciência, nomeadamente as Ciências Sociais em que se deve incluir a Economia ou, pelo menos, a análise técnica e responsável elaborada por especialistas ("experts" como soe dizer-se num país onde se confunde cultura com conhecimento de um idioma, à data, dominante ao nível das relações internacionais), se não incomode de ser divulgada mediaticamente sem o respeito pela sua própria natureza e pela sua significação... vem esta breve reflexão a propósito do designado "Manifesto dos 28 Economistas"... porque, afinal, se não erro no documento em questão!, trata-se apenas!!!, de uma espécie de relatório ou seja, de sistematização de dados conhecidos que podem ser úteis se pensarmos em recorrer a um documento-diagnóstico do país mas que, objectivamente, pouco acrescenta ao que temos vindo a reconhecer, sucessiva e parcialmente, em diversas áreas do investimento público, ao longo das últimas décadas... porém, se, por um lado, como costuma dizer-se "a montanha pariu um rato", por outro lado, é preocupante que não sejam enunciados caminhos alternativos, opções viáveis e devidamente demonstradas para a Economia portuguesa e para o futuro do país... continuamos num país onde "fazer ciência" é "coisa" de inventores e outros amigos de "minhoquices" ou, simplesmente mas, pior um pouco, reféns dessa concepção medieval do conhecimento que se esgotava no célebre "Magister dixit"... no século XXI... é obra!... e uma evidência sobre as razões para um não reforço da esperança de que o país precisa.

Prémio Biscoito Infinito...




O Prémio Biscoito Infinito serve-se com chá e um infinito número de ideias, raciocínios e juízos, capazes de devolver ou reforçar a esperança... e foi atribuído ao A Nossa Candeia pelo O País do Burro... Obrigado, Filipe! Inscrito na Academia do Prémio Lemniscata o Prémio vai agora para as seguintes nomeações:

domingo, 21 de junho de 2009

"Não podemos ignorar..."


Eram 6 jovens e discutiam questões relativas à educação a propósito de temas lançados por Ana Zanatti, moderadora do programa "7 Palmos de Testa" que a RTP 2 transmite ao domingo à noite... já fizera "zapping" sobre o programa num dos últimos domingos mas, hoje, ouvi uma pergunta que me fez parar: a pergunta referia-se ao que consideravam necessário para que um Professor seja reconhecido como Um Bom Professor... para além das comuns referências à disciplina, às regras e à exigência, foi gratificante ouvir aquilo que penso desde sempre e que nada, ao longo destes anos de reformas e contestações, anulou... pelo contrário. O comentário de 2 destes jovens foi eloquente e inequívoco: o mais importante é os Professores gostarem do que estão a fazer, ou seja, ensinar!... um destes jovens afirmou aliás, repetidamente!, que se não tratava apenas de gostar mas, mais do que isso, de estar apaixonado pelo que se ensina, de amar os livros, o saber e a sua transmissão... o outro, quis elucidar o que pretendiam dizer com um exemplo e contou que, quando leu "Os Maias" de Eça de Queiróz no âmbito do antigo programa de 12º ano, a turma foi conduzida aos trajectos dos passeios de João da Ega, em Sintra e aí, sob o entusiasmo de uma professora que conseguia cativar o interesse dos alunos pelos personagens, o tempo histórico e a narrativa, todos compreenderam o alcance da obra em causa e aprenderam...uma das jovens quis reiterar o efeito do modo de ser e de estar dos professores e retorquiu que , também ela fizera uma visita de estudo a Sintra mas, ao contrário do que o colega contara, de nada valera porque o Professor falava de um tal modo, com um nível linguístico não dominado pelos alunos, que da dita viagem disseram os jovens ter sido um acontecimento inútil para o efeito, transformando-se numa coisa aborrecida... Foi então que me veio à memória uma história ocorrida comigo, quando dei aulas de Filosofia ao Ensino Secundário, muito antes de ter prosseguido com a minha formação académica pós-licenciatura que me conduziu a pós-graduações, Mestrados e Doutoramento... penso que a história data do ano lectivo 1989/1990, com uma turma 10º ano com quem estava a trabalhar sobre "Pensamento mítico", " mitos" e "ritos", matéria que eu adorava leccionar por me permitir ver os alunos confrontados com um tema sobre o qual nada tinham, antes desse momento, pensado. Para além de algumas sessões de apresentação de leituras comentadas com interpretação de lendas da mitologia grega, em que os alunos projectavam os problemas socio-culturais contemporâneos (lembro-me de 2 jovens, ambos filhos de militares, que escolheram o Mito de Atalanta cuja interpretação deu origem a uma extraordinária sessão sobre a igualdade de direitos e de género)... mas, mais interessante, foi saber e constatar, num domingo de manhã, após ter ouvido tocar a campainha, que um grupo de 8 alunos tratara de arranjar as bicicletas para, nada mais, nada menos, ir visitar o património arqueológico do concelho de Évora (nomeadamente, antas e cromeleques) para melhor perceberem como é que uma pessoa podia pensar naqueles termos... Na semana seguinte, os jovens aprendizes de filósofos, explicaram aos colegas, a relação entre sociedade, religião e economia... talvez por isso, sempre que se evoca a educação, pouco há a relevar... porque hoje, os alunos são conduzidos a escolher os cursos em função do mercado de emprego enquanto, por outro lado, os professores optam pelo exercício docente, para prevenir o desemprego que continua a crescer, à vista desarmada, por todo o lado. Portanto, como daqui se pode deduzir, a reforma das políticas governativas para a Educação continua a não se esgotar na tecnologia ou, sequer, na avaliação dos professores, nas suas carreiras e vencimentos... como dizia a canção: "Não podemos ignorar..."...

Prenúncio...



Hoje, 21 de Junho, data de solstício, "Summertime" na versão Keith Jarrett (Tokio, 1987)... expressão de um prenúncio de acalmia quando o trabalho soçobra o tempo e os afazeres de toda a ordem nos alheiam, contra-vontade, de tudo o que temos vontade de dizer... volto mais logo.

sábado, 20 de junho de 2009

Prémios Lemniscata...


A Nossa Candeia foi agraciada com a atribuição do Prémio Lemniscata pelo blogue O Valor das Ideias, de Carlos Santos, que tinha sido, pouco antes, ele próprio, justamente agraciado pelo blogue Vento Sueste com a atribuição deste Prémio, cuja caracterização pode ser lida aqui. Partilhar esta distinção com os Leitores, Seguidores, Comentadores é agora o que se pretende assinalar com este post que visa, acima de tudo, agradecer a todos a generosidade, o enriquecimento e a atenção com que têm vindo a concorrer para fundamentar esta nomeação distintiva. No cumprimento das regras deste concurso, cabe-me agora, destacar 7 blogues para o título anunciado... assim, A Nossa Candeia, sem prejuízo de outros blogues por que tem especial apreço, nomeia para o Prémio Lemniscata, os seguintes blogues:
Um grande abraço a todos e... votos de que continuemos, sempre, mais e mais, a escrever e publicar Post's Felizes como uma inequívoca e incansável "achega" ao pensar dos dias e ao construir do tempo!

Leituras cruzadas...

Um olhar subtil encontra, em pequenos pormenores, sinais indicativos de mudanças e continuidades que, no contexto internacional e nacional ou, se preferirem, global e local, despertam a reflexão sobre o significado e as resistências de alteração dos paradigmas com que os tempos que correm, se defrontam (Tomás Vasques em Amanhã há Conquilhas). Entre o desconhecimento real dos procedimentos legítimos inerentes à vivência institucional que procura a manutenção da estabilidade da arquitectura social, de que tem vindo a ser exemplo a contestação à actividade fiscalizadora do Banco de Portugal (Carlos Santos em O Valor das Ideias) e o provincianismo que ignora a motivação de apoios políticos que revelam mais sobre a pobre e inquinada defesa, por exemplo da escolha de Durão Barroso para a Presidência da Comissão Europeia (Carlos Santos em O Valor das Ideias) que cauciona a prática de uma lógica liberal para o desenvolvimento europeu, à revelia do que seria suposto ter sido compreendido a partir da crise (João Pinto e Castro no Blogoexisto), o país vai continuando a ficar refém das suas mais estruturalmente gravosas realidades, hipotecando o futuro às mãos de uma especulação mediática e demagógica, seja no campo dos investimentos económico-financeiros (Filipe Tourais no País do Burro e Paulo Ferreira na Câmara dos Comuns), seja ao nível da qualidade da culturapartidária e da deontologia, no reino da "política, pura e dura" (JMCorreia Pinto no Politeia)... entretanto, na expectativa de não agravar o que de ameaçador se encontra já publicitado (ainda que não explicado e, menos ainda, compreendido), as percepções internas sobre o desempenho iraniano no último acto podem conferir-nos um outro olhar sobre uma realidade (Pedro Ferreira no Cinco Dias) que, entre Europa, Ásia e África, se desenha como vastissima "zona tampão" em que as negociações da paz e da coexistência se encontram no limite dum "braço-de-ferro" que persiste em se manter, como moeda de troca das relações internacionais que, à primeira vista e de há muitas décadas a esta parte, tem na postura norte-americana (João Galamba no Jugular), um interlocutor consciente e sério.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mensagem Urgente!



Aos Amigos, Seguidores, Leitores, Comentadores, com Admiração, Estima e Consideração, o meu agradecimento por todas as interacções gratificantes... Bem-Hajam! Um grande abraço (desordenado na enumeração) ao Francisco Oneto, ao Sokinus, ao Carlos Santos, ao Valupi, ao João Abel de Freitas, ao Miguel Abrantes, ao Luís Novaes Tito, à Jeune Dame de Jazz, ao José Manuel Dias, ao João Tunes, ao JMCorreia Pinto, ao José do Carmo Francisco, à Albertina Silva, ao Pedro Correia, ao Filipe Tourais, ao João Galamba, ao Paulo Querido... e a todos os que agora posso, eventualmente, estar a omitir mas, que acrescentarei ao longo do fim-de-semana.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O mundo ao contrário?!...




A Humanidade não pode esperar! - eis o grito de guerra/grito de paz que deveria nortear as reivindicações de todos os cidadãos do mundo para ser definido como eixo central das relações internacionais e da política externa... porque é urgente encontrar soluções para um mundo cujas notícias mais lembram a efabulação de um "mundo ao contrário" de todos os valores e práticas que, nos palcos da mediatização, se assumem como desejáveis para as sociedades contemporâneas... da guerra sem fim à vista no Afeganistão à violência continuada sobre o Tibete; da guerrilha sem tréguas no Paquistão à violência primária na Guiné onde a paz é já só uma sombra ténue no ritmo dos dias marcado pelo narcotráfico; do reforço ostensivo do armamento nuclear na Coreia do Norte aos tumultos provocados pelo resultado eleitoral no Irão ou, dos recentes discursos que insistem em, de uma ou de outra forma, não ultrapassar os impasses entre Israel e a Palestina, os caminhos que conduzem ao futuro encontram no presente as referências contra as quais se deverão construir...

Do Sentir...



De um ao outro lado, dois continentes, um sentir... no corpo, na voz e na alma de um flamenco que interiorizou a palavra, a dança, o poema e a música numa forma de dizer o sangue e a intensidade do sentir humano perante as grandes paisagens tórridas de um espaço onde a vida se afirma preciosa na sua insignificância... de dia, perante a natureza... de noite, perante o universo... é assim que Chavela Vargas, a Diva, canta "Piensa en mi" e, é também assim, que Maria Antonieta Ochoa e Jose Manners dançam "Canción de Amor" de Paco de Lucia.

domingo, 14 de junho de 2009

Mergulho entre a Arte e a Literatura - ou Dos Naufrágios Redentores da Identidade


Como as cerejas... as conversas, as imagens e as ideias surgem, encadeadas com o sentido de quem as associa, domínio mágico de significados e intenções onde se guardam as faces profundas da autenticidade desusada... a propósito da Trilogia "Trois Couleurs" de K. Kielowski, recordei o extrordinário livro de Rabidranath Tagore "O Naufrágio"... Tagore, o poeta, o escritor e o homem que amou as praias de Karwar, no sul da Índia, que percorri consternada por aí se encontrar hoje uma instalação nuclear de grande dimensão... e na senda desta epistemologia interior que percorre os múltiplos itinerários e cenários da realidade, encontrei-me devolvida a um livro fabuloso sobre a construção da identidade dos povos, a partir de uma história, chamada "Vida e Morte dos Santiagos" que Mário Ventura escreveu um dia e que hoje foi referido no Aspirina B, relembrando-me que eu própria o evocara já aqui, no passado mês de Dezembro...