quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Leituras cruzadas...

Hoje limito-me a enunciar uma série de sugestões de leituras... deixo a todos o cruzamento das informações e opiniões que refiro para que cada um conclua dos esforços de honestidade, do seu contrário e de algumas interessantes e penosas variáveis recorrentes, com que se vai construindo o país que temos e a compreensão do mundo em que vivemos:
Notas sobre o Monstro de João Rodrigues, no Arrastão;
Mais Fantasias Neoliberais de JM Correia Pinto, no Politeia;
Ele Disse Isso? e Desculpem se me enganei... de Carlos Barbosa de Oliveira, no Crónicas do Rochedo;
Cavaco, o Inevitável de Rogério da Costa Pereira, no Pegada;
Pinto Monteiro quer explicações... de Osvaldo Castro, no A Carta a Garcia;
... Esta é uma história verdadeira... de F.Seixas da Costa, no Delito de Opinião;
Como afugentar ciganos... de Bruno Gonçalves, no Aventar;
Pura Estupidez de Pedro Correia, no Delito de Opinião;
Os Miseráveis do Século XIX... de Eduardo Marculino, no História Viva.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Recessão Económica - Episódios de uma Repetição Incansável

Não surpreendem as mais recentes afirmações de Joseph Sitglitz sobre o risco de recessão na Europa designadamente se tivermos em atenção os avisos que, no passado mês de Abril, o Prémio Nobel da Economia enunciara (ler também aqui) ... em rigor, nem de nova recensão se deveria falar porque o ritmo económico europeu anterior à crise de 2009 não chegou a ser alcançado e, menos ainda, ultrapassado. Os indicadores económicos apurados entre o pico mais baixo da crise e os actuais, denotavam apenas sinais de uma tendência de recuperação que, para efeitos de estímulo da procura através do incentivo à confiança dos consumidores, passou a ser anunciada pelos governantes com o apoio indefectível dos meios de comunicação social... oportunisticamente, as oposições aproveitaram a inconsistente imagem da realidade para passar a acusar as governações nacionais de má gestão das respectivas economias e, entre nós, multiplicaram-se as vozes que, quais velhos do Restelo, proclamavam imponentes do alto da sua ignorância e da intenção manipuladora, estar à vista a responsabilidade de Sócrates e do executivo na débil retoma que o mesmo ia anunciando. Haja seriedade e responsabilidade! Reduzir os factos a interpretações conjunturais e oportunisticas para o mero combate político-partidário é de uma imaturidade chocante quando os ritmos de empobrecimento grassam entre as populações que ouvem, cada vez com menos esperança, os discursos de que toda a gente conhece a "música" e cuja "letra" não interessa nada a quem, preocupado em sobreviver, não está disponível para "cantigas". Apesar da multiplicidade de alternativas que se podem colocar às opções governativas (vejam-se as propostas descabidas e desumanas que o PSD de Passos Coelho apregoa, reforçando sem reservas todas as causas da crise: maior liberalização de despedimentos, redução de apoios sociais, mais privatizações e desmantelamento do sector público, designadamente na saúde e na educação) e da responsabilidade que cada país e cada governo tem de assumir no esforço de minimização do impacto real das estratégias financeiras na vida das pessoas, o problema económico nacional é europeu e global dependendo a sua resolução, em grande parte, da reforma da arquitectura económica europeia que é preciso coragem para activar - já que assenta, indiscutivelmente, numa profunda alteração da sua filosofia de gestão até aqui sustentada por uma ideologia neoliberal que, apesar de comprovadamente fracassada, insiste em se perspectivar como de não-retorno, agravando a frequência da repetição dos sinais de agravamento de uma dinâmica económica que é, antes de mais, paga com a contínua degradação das condições de vida dos cidadãos.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Velho e a Flor - Canto de um Embaixador


Vinicius de Moraes foi, além de compositor, poeta e escritor, um diplomata que a ditadura militar não reconheceu (vale a pena ler a referência no Duas ou Três Coisas), injustiça que, recentemente, o Presidente Lula da Silva, corrigiu, deixando que o Brasil e o mundo saibam que o rosto da diplomacia que queremos se faz também e porque não dizê-lo?, essencialmente, de valores, de palavras e de uma profunda humanidade onde o encontro entre a cultura, a determinação e o diálogo coexistem como uma porta permanentemente aberta ao reconhecimento do que, para além de todas as diferenças, nos faz iguais. Da ternura desta compreensão da vida é testemunho maior o tema "O Velho e a Flor", cantado por Vinicius de Moraes e Toquinho. Conhecem?

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A25 - Bombeiros, INEM e Protecção Civil entre a Tragédia e o Socorro

Entre Viseu e Aveiro, na A25, perto de Sever do Vouga, no nó de Talhadas, viveu-se um inesperado cenário de tragédia, com um nevoeiro denso ao ponto de, segundo testemunhas no local envolvidas no grave acidente de hoje, as chamas do grande incêndio que deflagrou entre as viaturas sinistradas se não verem a pouca distância... muitas dezenas de feridos, 48 dos quais em estado grave e 5 mortos é, para já, o balanço deste episódio negro da nossa história rodoviária, ocorrido quase em simultâneo nos 2 sentidos da auto-estrada. "Dantesco" e "aterrador" foram alguns dos qualificativos utilizados na descrição do acidente que ocorreu ainda longe das localidades mais próximas. Contudo e apesar de todas as críticas que estão sempre prontas a aparecer a propósito de todos os incidentes, dizem os presentes no local que a chegada de socorro da Protecção Civil, dos Bombeiros e do INEM, foi rápida, competente e eficaz... e foi gratificante ouvir a serenidade profundamente triste mas, concentrada e competente, das palavras do Senhor Comandante da Protecção Civil na descrição dos esforços desenvolvidos para responder à calamidade em que não poupou elogios à articulação dos serviços do INEM, dos Bombeiros e da própria Protecção Civil. Para que conste, é justo e merecido assinalar que, em Portugal, há ainda serviço público, sentido de missão, competência e seriedade! Bem-hajam!

domingo, 22 de agosto de 2010

Educação, Escolarização e Desenvolvimento (2)



Não é de resposta fácil a questão: o que fazer com a Educação? Os erros e equívocos acumulados ao longo dos anos em diversos sectores de intervenção dificultam em muito a resposta, a começar pela inexistência de uma estratégia técnica e científica da tutela, capaz de privilegiar a qualidade de ensino e garantir a promoção efectiva do aumento qualitativo das competências inerentes à problemática do ensino/aprendizagem... Porquê? Um dos motivos é, contrariamente ao que se presume quando se ouve falar em "actuação por objectivos", a ausência de um objectivo pedagógico-científico do sistema educativo. A verdade é que a política de um país também é o reflexo da sua sociedade e, consequentemente, a sua filosofia de educação e o seu sistema de ensino, ao invés de ultrapassarem os condicionalismos socio-políticos e culturais de senso-comum, reforçam essa limitação "a priori" da intervenção educativa, reduzindo-a ao estatuto de programa político operatório para o sector. Não se pode, por esta razão, pensar que a Educação, na sociedade de mercado, gerida de forma economicista e oportunista (não no sentido da criação das oportunidades mas, isso sim, no sentido da intervenção conforme às orçamentações ditadas economicista e ideologicamente), tenha o carácter pedagógico, altruísta e desinteressado que lhe caberia, conceptual e desejavelmente, para que a sociedade possa, de facto, progredir qualitativa e culturalmente, na senda da aquisição de competências múltiplas indispensáveis à inclusão e integração social de sucesso. E se este é o primeiro de todos os problemas da organização escolar e da definição do projecto educativo e formativo que se pretende para o país (e que poderiamos sintetizar na pergunta: que sociedade queremos para Portugal?), sucedem-se-lhe muitos outros que, para já, devemos destacar em duas vertentes. A primeira refere-se à problemática da formação de professores que decorre em quadros científicos quantitativos e desadequados ao desenvolvimento de um perfil pedagógico-científico altamente qualificado, resultante de um trabalho sistémico e estruturado metodológica e didacticamente, agravado pelo Processo de Bolonha cuja execução não permitiu um trabalho concertado de reflexão científica conforme às exigências das sua adequação nacional às populações e equipamentos de que dispomos. A segunda abordagem enquadradora desta proposta de reflexão remete para uma tripla consideração relativamente aos procedimentos organizacionais em matéria educativa: a relação entre a tutela e as escolas, a relação entre sindicatos, tutela e escolas e, finalmente mas de modo algum em último lugar, a relação entre a orgânica funcional dos estabelecimentos escolares e os docentes. No que se refere à relação entre a tutela e as escolas, é inaceitável que o papel do Ministério da Educação seja apenas o de um supervisor da execução das ordens político-orçamentais e das relações entre a política governamental e os sindicatos do sector; de igual modo, entre sindicatos, tutela e escolas é incongruente, face aos conteúdos pressupostos nesta relação, que os sindicatos reduzam o seu papel ao de contestatários da tutela e "ouvidores" dos docentes, sem qualquer expressão de pensamento científico-pedagógico capaz de credibilizar as respectivas estruturas (o que, diga-se, em abono da verdade, também decorre de uma incapacidade de renovação do pensamento sindical contemporâneo que continua, geracionalmente, a estar na mão de organizadores políticos que não actualizam a sua vertente científico-pedagógica); finalmente, mas, como já disse e repito, não em último e quiçá em primeiro lugar, a orgânica funcional das escolas denota que a solução para a melhoria do sistema de ensino não está na introdução de gestores e administradores escolares que apenas reforçam os projectos políticos economicistas e que o trabalho científico-pedagógico, curricular e extra-curricular dos docentes tem sido, sucessivamente, lesado. Uma palavra sobre esta última observação justifica-se a dois níveis: um, no que se refere à constante introdução burocrática de considerandos de que a avaliação e a resistência à sua aplicação é apenas um deles, reflexo da insegurança e da falta de confiança nos processos e protagonistas dos mesmos que, pelo que nos é dado ver!, não garantem aos professores a transparência de um modelo complexo e de elevada responsabilidade; outro, relativo à própria organização curricular, disciplinar, didáctica e pedagógica dos processos de ensino/aprendizagem, em que é digna de registo a ausência de visibilidade de algumas questões essenciais para o desenvolvimento qualificado da actividade educativa (reflexo da aceleração do processo de reconversão das entidades educativas em instituições cumpridoras de metas quantitativas com objectivos estatísticos tais como: redução e eliminação do insucesso escolar, relativização do abandono escolar e atribuição de diplomas de frequência de ciclos escolares)... dessas questões endógenas e fundamentais para a garantia de qualidade dos processos de ensino e de aprendizagem, actualmente votadas ao esquecimento ou à invisibilidade, destaco: a actualização de conhecimentos multidisciplinares dos docentes, o reforço da sua reflexão e debate científico quer em termos conceptuais, quer no que se refere à relação da escola com a comunidade e as famílias (registe-se que a aproximação cívica da escola à família e à sociedade tem vindo a ser diminuída - para o que muito contribuirá a política de encerramento de estabelecimentos de ensino e a deslocação dos alunos do meio residencial) e o reforço da respectiva autonomia enquanto agentes educativos. Fico por aqui sem a menor pretensão de esgotar o problema a que, a título de "achega" poderei talvez somar, ainda hoje ou amanhã, o último post desta eventual e sintética"trilogia" de considerações partilhadas...

sábado, 21 de agosto de 2010

Educação, Escolarização e Desenvolvimento (1)


Muito se tem escrito sobre Educação ou melhor, sobre o sistema de ensino e as suas condições logísticas... porque, de facto, sobre Educação e sobre a qualidade do ensino muito pouco se tem dito (rara excepção para a professora Maria do Carmo Vieira). Sobre o encerramento das escolas gostaria de deixar um pequeno preâmbulo: não é verdade que todas as escolas para onde vão ser transferidas as pequenas crianças que frequentam as 700 que vão encerrar sejam tão boas como se tem tentado fazer crer; não é verdade que as escolas por serem pequenas e terem poucas crianças sejam necessariamente deficitárias em competências educativas e sociais; não é verdade que seja melhor para as crianças ficarem longe da família e do seu espaço de socialização durante um longo período por dia; não é verdade que o anterior encerramento de cerca de 2.000 escolas tenha provado que as crianças têm melhores resultados ou que são mais felizes!... Não é verdade! Ponto! Daí que não seja, também!, verdadeiro, o argumento das razões pedagógicas como fundamento da medida que, a 3 semanas da abertura do ano lectivo, foi anunciada e que a qualidade de ensino seja, de facto, o cerne da questão e a principal preocupação do Ministério da Educação. Partindo destes considerandos, vale a pena registar outras tantas dimensões "a jusante" do problema: a) o desenraizamento social das crianças é um problema socio-cognitivo a que deve atender o desenvolvimento infantil, bem como o reconhecimendo da importância da sua dimensão cultural - que se não mede ou esgota no número de contactos interpessoais ou na quantidade de recursos materiais; b) a dimensão, afectiva, da segurança e da confiança são essenciais para o sucesso educativo, sendo reconhecido o facto de serem crianças desenraizadas as que mais facilmente crescem disfuncionalmente; c) o incontornável impacto socio-territorial desta medida, incentivará o êxodo rural, aumentará a densidade populacional das cidades e, atendendo às dinâmicas de desemprego e empobrecimento das populações, contribuirá para o aumento da pobreza e da violência social; d) a criação de melhores condições pedagógicas nos locais onde vão encerrar as escolas com o melhoramento de ATL's, actividades extra-curriculares e equipas interdisciplinares em articulação com as juntas de freguesia, as sociedades recreativas, as famílias e o apoio ao incentivo de projectos financiados para a criação de emprego contribuiria para diminuir o desemprego, contrariar a desertificação e contribuir para a criação de cidadãos com mais competências para integrarem, de forma útil, saudável e qualificada, a sociedade em que vivem. A terminar o primeiro post sobre o tema deixo um testemunho dos problemas que esta medida está já a provocar (in AL-TEJO) e, a título de introdução do post seguinte, um outro testemunho (in Quanto Tempo Tem o Tempo?).

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Pássaro de Madeira...


"L'oiseau de Bois" é o nome deste magnífico tema do tunisino Anouar Brahem, aqui ilustrado pelas magníficas paisagens do deserto em que se espraia o sentir de Agosto...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Leituras cruzadas...

Não pude deixar de me surpreender... é verdade que temos consciência do quanto a sociedade globalizada massifica a informação sem que isso signifique conhecimento mas, a verdade é que não podemos deixar de parar para pensar perante o que nos demonstra o vídeo a que o Relógio de Corda nos permite aceder no seu Quanto Tempo Tem o Tempo?... assim como não podemos deixar de reflectir sobre o significado das intenções da política patrimonial divulgadas por António Carlos Valera no Irrealidade Prodigiosa ou sobre o encerramento de mais de 700 escolas no país - de que o Alentejo é exemplo como região do interior desertificado e que, ao invés de promover a dinamização das suas estruturas, as vê eliminar a um ritmo bem evidenciado na lista de encerramentos que o A Cinco Tons divulga... Como se não bastassem os casos, no país temos apenas como maior partido da oposição uma caricatura perigosa de projecto político que Osvaldo Castro bem caracteriza no A Carta a Garcia e uma atenção cívica e institucional à prevenção de calamidades como bem demonstra Fernando Cardoso no Ayyapa Express ... enquanto isso a União Europeia continua com uma recuperação económica muito mais difícil do que se propagandeia como bem explica JMCorreia Pinto no Politeia e cujo projecto político social está, cada vez mais, posto em causa como bem assinalam José Simões no Der Terrorist, Paulo Pedroso no Banco Corrido e José João Cardoso no Aventar... por isso, vale a pena reler o texto sobre a trágica farsa em que vivemos e que nos é proposto por Eduardo Marculino no História Viva mas, também, a propósito do que há por fazer e dos contributos que todos deveriam querer protagonizar, as palavras de T.Mike no Vermelho Cor de Alface. Finalmente, para que a arte nos dê o seu olhar sobre o mundo, fica a sugestão da escolha de Camões no Poet'Anarquista.

Sons Femininos...


... "Aires Zingaros" de Pablo Sarasate na interpretação magistral de Sarah Chang sob a direcção perfeita de Plácido Domingo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ciganos, cidadãos da União Europeia

Foi no Politeia de JMCorreia-Pinto que encontrei o link para o poema de Federico Garcia Lorca sobre La Guardia Civil Española retirado do Romancero Gitano e que aqui partilho num momento em que a discriminação, o racismo e a xenofobia se agravam na União Europeia com Sarkozy a expulsar de França um número significativo de ciganos (ler Aqui). O problema prolonga-se e repete-se de há muito (ler Aqui, Aqui e Aqui) e denota, acima de tudo, o grau de dificuldade do modelo social em que vivemos se adequar culturalmente às etnias - apenas e só porque as políticas sociais de integração e inclusão implicam muito mais investimento do que aquele que os Governos estão dispostos a fazer... o cenário é por isso gravoso dados os ritmos de mobilidade e empobrecimento contemporâneos que se fazem sentir sempre, com mais evidência, nos grupos sociais desfavorecidos e tendencialmente discriminados em que se incluem, em consequência do nosso ocidental etnocentrismo, as populações nómadas...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Apedrejamento de Jovens no Afeganistão...



Eram dois jovens, um rapaz e uma rapariga com, respectivamente, 28 e 20 anos de idade... foram apedrejados até à morte, num mercado público do Afeganistação, perante a população que assistiu à execução de mais este crime hediondo perante o qual somos incapazes de elaborar qualquer justificação que não seja cúmplice desta crueldade sem limites e sem perdão... os jovens eram acusados de "adultério"! A Amnistia Internacional já condenou publicamente mais este atentado contra os Direitos Humanos (ler Aqui e Aqui). A situação, insustentável porque repetida, requer uma intervenção cívica junto das populações que devem saber que a comunidade internacional condena de modo inequívoco estas práticas sanguinárias, não as reconhecendo como forma de fazer justiça mas, antes como forma de coacção política e psicológica sobre as populações.

Sonoridades... intemporais...


... "Introduzione e Tarantella, op.43" de Pablo de Sarasate na interpretação de Krylov & Canino... para uma tarde de Agosto.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Paquistão - Lentidão e Urgência da Intervenção Política Internacional






O que está a ocorrer com a ajuda e o apoio à hecatombe com que se defronta um povo inteiro? É impressão minha ou é um facto que o mundo está mais reticente que nunca na ajuda humanitária de que o Paquistão, desesperadamente, precisa? Com 20 milhões de pessoas afectadas pelas cheias, brutais!, que devastaram o país, mataram e feriram milhares de famílias e desalojaram milhões de pessoas, estará o Paquistão a ser vítima da desconfiança e antipatia que as suspeições sobre a influência talibã no território, despertam por todo o mundo? A questão, inadiável, é premente designadamente depois da repetição do apelo do lacónico Ban-Ki-Moon, actual Secretário-Geral das Nações Unidas, que assumiu a lentidão e insuficiência do processo de ajuda humanitária à população paquistanesa (ler Aqui). Os números da tragédia (ler Aqui) emergem diariamente sob as formas de terror de que se reveste a fome, a sede e a ameaça premente de pandemias que agrava a pobreza dos paquistaneses e alimenta as sementes do medo, da violência e da vulnerabilidade a todo o tipo de chantagem política. Contudo, mais preocupada com a gestão ocidental da difícil retoma económica e com a tensa e paradoxal delicadeza das relações diplomáticas (ler Aqui), a comunidade internacional parece estar a minimizar, na prática e a custos elevadissimos que o futuro se encarregará de demonstrar, os Direitos Humanos na sua vertente mais básica relativa à sobrevivência de, pelo menos!, 6 milhões de pessoas e à segurança quer dos cerca de 20 milhões atingidos directamente, quer das populações de toda uma vasta e explosiva região asiática. Conhecida e reconhecida que é a importância que, neste plano, ainda têm as intervenções protagonizadas politicamente, é urgente ouvir as vozes dos Presidentes Lula da Silva, Barack Obama, Medvedeev e Durão Barroso no apelo à materialização efectiva da concertação de esforços para salvar e apoiar milhões e milhões de cidadãos a viver, de facto!, verdadeiras situações de risco que se aproximam, perigosamente, do abismo.

domingo, 15 de agosto de 2010

Da Indústria Farmacêutica à Multiresistência Bacteriana?!



Nos últimos dias foi divulgada a existência de uma nova bactéria caracterizada por uma assinalável capacidade multiresistente à generalidade dos antibióticos conhecidos. Designada por NDM-1 e já localizada na Austrália, na Europa (designadamente na Inglaterra e na Holanda), nos EUA e no Canadá, a sua origem tem sido atribuída à mobilidade de cidadãos que terão sido objecto de intervenções plásticas em países como a Índia, o Paquistão e o Bangladesh onde a bactéria se terá desenvolvido, designadamente mas não só!, em meio hospitalar (ler Aqui)... Porém, apesar dos resultados apresentados na revista Lancet serem susceptíveis de explicações recorrentes que têm vindo a ser discutidas (como é a hipótese da venda livre de antibióticos na Índia ter facilitado a emergência desta multiresistência), a questão não está a ser pacífica e disso é testemunho a reacção parlamentar e governamental indiana que veio denunciar interesses da indústria farmacêutica multinacional nesta matéria (ler Aqui a notícia em versão inglesa onde se refere o envolvimento das 2 multinacionais, Wellcome Trust e Wyeth, no desenvolvimento do estudo apoiado pelo Reino Unido e a União Europeia e agora divulgado na Lancet - registe-se que não encontrei estas referências em português apesar de, ontem, ter ouvido, por acaso e apenas uma vez!, as declarações do Ministro indiano ?!)... A reacção, muito contundente!, decorre do impacto que a notícia pode ter na economia indiana onde o turismo médico é significativo mas, a verdade é que o Ministro do Turismo da Índia, em declarações aos jornalistas, evocou uma dimensão do problema que não é comum chegar à praça pública e que, presumivelmente, só um sentimento de revolta contra um impacto negativo significativo poderia fazer eclodir: a experimentação ilegal que a indústria farmacêutica continua a impôr às populações pobres e carenciadas, sujeitando-as à condição de "cobaias"... A realidade que até agora nos chegava através da literatura, do cinema (lembram-se de extraordinário filme que é "O Fiel Jardineiro"?) ou de alguma (rara!!!) peça de bom jornalismo de investigação, começa a revelar a sua efectiva, preocupante e dramática dimensão.

sábado, 14 de agosto de 2010

Sons com Sentido... de Plácido Domingo - Entre Granada e o Mundo

Hoje revisitei Plácido Domingo e pensei que, em fim-de-semana de Agosto, seria uma boa ideia partilhar alguns dos seus temas da minha preferência... começo por "Granada":

... depois, porque continuo sem resistir à sua sentida e calorosa interpretação de "Malagueña Salerosa", aqui fica:
...
Seria, porém, inaceitável que esta evocação e esta homenagem não terminassem com dois temas mágicos, cantados para a nossa humana eternidade:

"Nessun Dorma" da ópera Turandot de Giacomo Puccini:

e
"E Lucevan les Stelle" da opera Tosca também de autoria do excelso compositor do amor, Giacomo Puccini:

Nota posterior à publicação inicial deste post: no âmbito da revisitação que me levou à obra de Plácido Domingo, acabei por descobrir a notícia que pode ler Aqui.

Um País a Arder entre Diagnósticos e Opções Terapêuticas



Foram 86 mil hectares os que, em Portugal, arderam no ano passado. Este ano, até agora, já arderam 74 mil (ler Aqui)... incompatíveis com a sobrevivência da floresta e do mundo rural, os incêndios vão consumindo o território sem que a política de reflorestação e de preservação da floresta assuma um papel determinante no seu ordenamento. São os Bombeiros quem, no Verão, com as populações, desenvolve uma luta sem tréguas a que os políticos assistem numa espécie de supervisão de controle de danos... Entretanto, a comunicação social informa que o nosso país "dá uso zero" aos fundos comunitários para a floresta e que o Proder (Programa Operacional de Desenvolvimento Regional em que se deveria vir a investir desde há muito de modo a estarem garantidas as condições indispensáveis para a coesão nacional, territorial e social) tem uma taxa de execução tão baixa que o Governo está a pensar alterar as regras de acesso a este programa com o objectivo de agilizar as candidaturas, tendo já solicitado a Bruxelas um aumento dos apoios financeiros nesta área... Tudo isto peca por tardio... muito tardio!... e agora resta-nos esperar que, de facto, se inicie uma política séria de revitalização da floresta e do espaço rural uma vez que o interior está, cada vez mais, desertificado não só pelas razões estruturais conhecidas (decadência da agricultura, êxodo rural, desertificação física e ambiental) mas, também, por razões socio-políticas recentes entre as quais se destaca a persistência no encerramento em unidades de saúde (ler Aqui e, a título de exemplos, Aqui e Aqui), escolas (ler Aqui, Aqui e Aqui) e serviços -sendo que algumas destas estruturas foram criadas há poucas décadas com o objectivo de concretizar, através da descentralização, o combate este flagelo... se a tudo isto somarmos o desemprego (ler Aqui) e o encerramento de fábricas e postos de trabalho, percebemos que o panorama é deprimente e gravoso - de tal modo que se exige uma intervenção política radicalmente diferente da que se concentra, quase exclusivamente, nas metrópoles, nas questões financeiras e nos compromissos políticos com o exterior... não se propõe, naturalmente!, que a viragem no enfoque da estratégia de desenvolvimento implique o incumprimento destas vertentes de acção mas, é indiscutivelmente urgente ter a capacidade de as compatibilizar com o que consolida a real sustentabilidade do país.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Leituras Cruzadas

Ouço Mendelssohn enquanto escrevo e vou escolhendo olhares que nos devolvem uma imagem honesta do país que somos... O primeiro destaque de hoje, pela qualidade e o rigor de "primeira água", vai para o texto de Osvaldo Castro: Contra o Despautério Eleitoralista, Urge ter Sentido de Estado e Respeito Institucional... depois, porque se torna cada vez mais difícil não falar do papel da comunicação social, vale a pena ler sobre esta matéria, os textos: Engoliram um Conviccimetro? de Carlos Barbosa de Oliveira e Não há Idade para a Ingenuidade de Pedro Correia - o primeiro por lembrar regras essenciais da profissão e o segundo por denotar as suas melhores motivações que, de acordo com a deontologia e a ética, devem respeitar e procurar a verdade na realidade dos factos, sem necessidade de os inquinar para que a subjectividade interpretativa se lhes sobreponha... e, exactamente a este propósito, porque o país é também mas não só o que dele se vai dizendo, vale a pena ler os textos Possesso com a Relação do País com os Incêndios de Paulo Querido, Esta é a Mais Sentida e Real Instabilidade de Lopes Guerreiro, Para Quando o Encerramento de Pequenas Aldeias? de João Ricardo Vasconcelos e Um Funeral com Palmas e uma Biografia com Saltos de João Tunes. Finalmente, porque o mundo se estende para além dos nossos horizontes mais próximos, sugiro a leitura de outros 2 textos: Não Sou Capaz de Dar Título a Este Post de Ana Cristina Leonardo (com um sério apelo à subscrição da Petição online aí acessível) e, ainda, pela excelente autobiografia que divulga: Morreu o Angolano Ruy Duarte de Carvalho de Joana Lopes. Finalmente, após actualização deste post em 15/08, acrescento, pelo interesse e actualidade da problemática, a sugestão de leitura de O Que Caracteriza o Trabalho Escravo Hoje, no Brasil? publicado por Eduardo Marculino no História Viva.

Ruy Duarte de Carvalho, Antropólogo Essencial...


"Vou lá Visitar Pastores - Exploração Epistolar de um Percurso Angolano (1992-1997)" é o nome de um verdadeiramente notável trabalho de Antropologia, realizado por Ruy Duarte de Carvalho, Português de Santarém por nascimento, Angolano por opção de nacionalidade e residente na Namíbia... Morreu hoje. O Homem que escreveu, além da poesia e da ficção, um dos mais extraordinários discursos antropológicos sobre as populações do Sul de Angola, em jeito epistolar, como quem retira do olhar simples do viajante, a essência racional que subjaz à diversidade étnica... "Vou lá Visitar Pastores..." é um livro essencial de que cito passagens retiradas "à toa", com o objectivo de motivar a sua inesquecível leitura: "(...) Traz botas para andar e o tabaco que fumas, caso contrário terás de contentar-te com a ração de Jucas que eu te der. Muni-me do bastante para repartir à vontade e chega também para ti, se fôr preciso. (...) Uma viagem depende de tais coisas e não tolera falhas. Deixa connosco. Traz a atenção e o coração abertos. A Angola que eu sei espera só por ti. (...) Se aquilo que tenho vindo a dizer-te for de molde a prender a tua atenção e a estimular a tua própria «imaginação sociológica», terás facilmente aprendido a substância de um longo processo em que a mobilidade territorial, histórica, cultural, política e económica jogou o único papel estruturante em presença. (...) Para ti, os utensílios que tens à frente «é tudo igual» e o leite que chega até ali também o é, mas, hás-de constatar que não se enchem as cabaças todas uma após a outra, pegando na seguinte quando a anterior estiver cheia. O leite de umas kindas entra numa e o de outras noutra, por aí fora, e são usados funis diferentes com cada uma delas. Quer dizer, nem o leite nem os instrumentos do leite são utilizados indiscriminadamente. O que determina esta complexidade é a proveniência do leite, são as vacas donde esse leite saiu. (...) Compliquei muito? Sim, instaurei vários enigmas para uma mentalidade ocidental como a nossa, só preparada para aferir a colocação social dos produtos de consumo a partir das capacidades aquisitivas que lhes darão acesso. Aqui entram em jogo outras capacidades e qualidades sociologicamente configuráveis. Levarás todo o curso da tua viagem a tentar dar conta disto.(...)" ( pg.16, pg.95 e pgs. 170/171 in ed. Círculo de Leitores, 2000)... Ruy Duarte de Carvalho, o Homem e o Antropólogo que, no Convento da Arrábida, dizia assim, numa intervenção pronunciada para altas individualidades dos países africanos lusófonos no contexto de um Seminário Internacional restrito e dedicado ao estudo e análise dos "sistemas de educação formal e informal em África": "(...) porque, meus caros, desculpem que lhes diga: primeiro é preciso dar de comer às pessoas e só depois vale a pena estarmos a preocupar com questões como a dos sistemas educativos... porque a verdade meus amigos, a verdade é que a situação é de tal modo que, todos os dias de manhã, ao levantar, um cidadão tem que se sentar na cama para se preparar para enfrentar a realidade... os miúdos a pedir...(...)"... Anos mais tarde, voltei a encontrá-lo em Beja onde, apesar de falar sobre identidade e desenvolvimento regional, a sua alma calava porque a verdade fala mais alto dentro de quem a escuta e muitos há que, não a conhecendo, não estão sequer em condições de a reconhecer... Ruy Duarte de Carvalho é um Homem Inesquecível nomeadamente porque viveu como um Antropólogo do Essencial... e, também por isso, independentemente do presente, será a História a fazer-lhe Justiça -nomeadamente quando Angola e a África tiverem resolvido os seus problemas fundamentais e puderem, finalmente!, dar a importância devida às Ciências Sociais em que se vai guardando a sua memória e a sua essência identitária. Obrigado Ruy!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Democracia e Prática Partidária - o caso de Narciso Miranda


As Democracias caracterizam-se pela defesa efectiva dos Direitos Humanos que, integrando os Direitos Fundamentais dos Cidadãos no respeito pelos princípios da liberdade, da igualdade, da não-discriminação e da solidariedade, implicam arquitecturas jurídicas capazes de defender e proteger estes valores equitativamente, bem como práticas políticas, institucionais, sociais e culturais que os promovam e aperfeiçoem. Para além disso e de todas as singularidades que podemos discernir à medida que reflectimos sobre a questão, os Estados de Direito democráticos valorizam e salvaguardam o pluralismo partidário e as liberdades de expressão e de opinião do pensamento crítico, do diálogo e da valorização da diversidade conforme à etica laica - que deve nortear as relações sociais indispensáveis à coexistência pacífica. É por isso lamentável que os partidos políticos funcionem como agremiações de interesses, penalizando o princípio da liberdade individual que reduz a natureza democrática da associação política e que denotem, apesar da sua teórica condenação da centralidade do poder, a penalização e/ou expulsão de cidadãos que optam por defender projectos de intervenção que podem não coincidir com as decisões colectivas... de facto, as decisões colectivas deveriam ser as de maioria de razão e esta, num contexto livre e democrática, não carece de perseguição e condenação dos indivíduos que, conjunturalmente, optam por caminhos próprios - nomeadamente porque os partidos deveriam privilegiar a sua natureza de projectos ideológicos e não a sua organização formal institucional. Para defesa da natureza democrática dos regimes políticos, os indivíduos devem ter a liberdade de se identificar ideologicamente com os programas partidários sem que isso implique a abdicação da sua liberdade individual e da expressão do seu pensamento crítico... o contrário é, apenas!, demonstrativo da fragilidade intrínseca dos aparelhos partidários que, na defesa e prática do recurso à penalização, à perseguição e à indiferença pelo pensamento e acção dos militantes, evidenciam as suas intenções manipulatórias de gestão do controle de poder, descredibilizando o apregoado pensamento plural... vem esta nota, naturalmente!, a propósito das notícias sobre a expulsão do PS de uma ou duas centenas de militantes em que se inclui Narciso Miranda e que, não sendo uma iniciativa nova em Portugal, é efectivamente lamentável, por extemporânea e destituída de substancialidade - tanto mais que esses cidadãos se limitaram a apoiar candidatos diversos dos que as estruturas federativas propunham, não rejeitando e até pelo contrário afirmando a sua identificação ideológica com o Partido Socialista... refira-se aliás que esta atitude, cega e contraproducente, manifesta a negação partidária do reconhecimento de que, como todas as organizações, os partidos estão sujeitos à emergência de corporativismos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Bombeiros - Soldados da Paz


Têm como lema "Vida por Vida" - um lema exemplar desse altruísmo cívico que sustenta a sua existência como Bombeiros Voluntários! Porém, voluntários ou profissionais, os Bombeiros que, durante todo o ano, conduzem ambulâncias, assistem acidentes, acorrem aos incêndios ou às inundações são, de facto, os Heróis do Verão... enquanto os dias e as noites correm ardentes e enormes, os Bombeiros lutam até à exaustão contra o fogo e não dão tempo ao medo de os alcançar... Os incêndios, ateados cruelmente por lógicas que se podem imaginar mas que nada justifica, grassam e devastam o território, sem compaixão pelas vidas destruídas e os bens arruinados... Os Bombeiros vivem e dão a vida por todos nós... precisam de mais apoio - um apoio que, inquestionavelmente, merecem... além de sempre, sempre!, a nossa maior admiração. Os Bombeiros chamam-se justamente porque o são: Soldados da Paz.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Da Justiça Americana à Justiça Portuguesa...

Fui rever o filme de John Grisham "Runaway Jury", traduzido para português como "O Júri", onde as notáveis interpretações de Gene Hackman, John Cusack, Dustin Hoffman e Rachel Weisz desenvolvem um thriller que assenta num julgamento em que uma mulher processa um fabricante de armas, na sequência de um massacre... durante o processo de audiência dos Jurados (recrutados na sociedade civil), um dos cidadãos tenta encontrar uma estratégia de escapar à selecção e é então que o personagem que protagoniza o Juiz faz uma afirmação que justifica este apontamento e que é mais ou menos a seguinte: "Atenção, senhor... tenha em atenção que foram precisos muitos, muitos anos, para criar este sistema de Justiça, de modo a evitar que um Juiz possa condenar um réu simplesmente por não gostar dele!"... em Portugal, a figura do Júri, com selecção cívica de Jurados, também é possível com duas grandes e significativas ressalvas: 1 - é rarissimo que um julgamento apele ao sistema de Júri; 2 - os Jurados têm em Portugal, apenas um papel consultivo, ao contrário do que acontece nos EUA onde o seu poder de decisão é soberano!... além disso, os Jurados americanos são seleccionados no respeito pelos princípios da não-discriminação e da igualdade de género!... claro que não há sistemas perfeitos (como aliás, o filme denota apesar do seu grande final) mas, pensar ou repensar a Justiça significa equacionar todas as alternativas que possam melhorar o sistema judicial em favor dos cidadãos, procurando sempre, nessa perspectiva, reduzir o factor subjectivo pela prevenção contra o poder individual e/ou corporativo. Depois deste comentário, resta-me deixar um excerto deste excelente filme e perdoem-me a selecção em língua espanhola mas, trata-se de um trabalho que identifica algumas das características que assinalei e que se inscrevem no objectivo desta referência:

Contra as Violências - Antídotos Lusófonos (2)

O olhar límpido de Alberto Caeiro, esse pastor de Fernando Pessoa, que Mário Viegas disse tão bem:

... e a música feita de sons e das palavras tão belas de Carlos de Oliveira, que a voz de Luís Cília cantou:

Contra as Violências - Antídotos Lusófonos (1)

A poesia de Cecília Meireles ilustrada pelo imaginário e a interpretação de jovens adolescentes:


... e a música do poeta Chico Buarque que, velhinha, não perde o sentido e a doçura com que deveriamos construir os dias:

Ainda sobre as Violências...



Ontem, num espaço público, uma jovem mãe queixava-se a uma mulher mais velha que o seu filho, em idade escolar, fora ameaçado, via sms, por um colega, de "levar um tiro"... e dizia:"Já viu isto?... agora resolvem tudo assim... com aquela idade, o que lhe havia de dar para dizer!?"... volto, por isso, de novo, à questão das violências... no plural, sim! No plural porque os seus rostos são diversos e, como tal, a sua compreensão como fenómeno não se esgota no seu entendimento singular enquanto resposta agressiva a um estímulo, interno ou externo, que pode contribuir para permitir a análise dos fenómenos de violência social infantil, juvenil, doméstica, de grupo ou de género e até de violência política...


A título de preâmbulo, lembremos a natureza guerreira e masculina das culturas e sociedades que, nos respectivos processos históricos, permitem compreender as ideologias e sistemas de crenças, valores e juízos que subjazem, não só aos comportamentos mas, logo à partida, aos respectivos aparelhos políticos, religiosos, educativos e judiciais - dimensão relevante para a percepção e análise dos

fenómenos de guerra e luta pelo poder de que podemos evocar como exemplos mais e menos recentes mas, paradigmáticos: Israel, Afeganistão, Iraque ou ex-Jugoslávia e em que se podem integrar, ainda que como diferentes graus de expressão, as guerrilhas indonésias contra Timor, as FARC, os movimentos na Guiné-Bissau, a actuação das ditaduras africanas ou a tensão entre as Coreias... Contudo, a propósito dos rostos sociais da violência que têm marcado a percepção e análise do fenómeno designadamente no espaço europeu e, naturalmente!, em Portugal, quero apenas fazer algumas observações que consubstanciam a incidência da relação entre estes fenómenos e a cultura em que assenta o apelo à intervenção política e à educação... porém, cumpre-me ainda apresentar uma ressalva prévia que se resume à seguinte observação: não se pode considerar que, de forma absoluta, a violência exclua os afectos porque, quer se trate de violência física ou psicológica, o que está em causa é o conjunto de auto-representações e de representações relacionais dos indivíduos e das respectivas capacidades de expressão ... de forma breve, anoto: 1- a sociedade dos afectos é relativamente recente, tendo sido acentuada com o final da IIª GGM e algumas das suas decorrências, nomeadamente, a proclamação dos Direitos Humanos, da Criança e o desenvolvimento das Ciências Sociais e Médicas; 2- a violência e a austeridade, em particular a que seria denotável em contextos familiares e sociais anteriores ao referido em 1, não implicava a anulação dos afectos, se pensarmos que estes e as suas formas de expressão decorrem de auto-representações configuradas socio-culturalmente; 3- a realidade da continuidade dos comportamentos e da discrepância do seu ritmo de alterações relativamente ao das mudanças socio-políticas prolonga até aos dias de hoje a realidade referida no ponto anterior; 4- o que está em causa é a questão das representações sociais de afectos e violências que configura o quadro mental contemporâneo no âmbito do conhecimento público sobre o desenvolvimento dos indivíduos e a problemática da coexistência social numa sociedade e numa cultura valorizadora dos direitos; 5- a dinâmica socio-cultural da mudança que o referido anteriormente implica, torna emergente a problemática da coexistência de micro-realidades distintas em que é necessário intervir adequadamente; 6- há uma pedagogia cívica configurada politicamente que urge desenvolver garantindo a articulação concertada da Educação, da Justiça, da comunicação social e do apoio médico especializado contextualizado interdisciplinarmente e que implica mais trabalho no terreno do que a simples divulgação de slogans e dados estatísticos uma vez que só a mudança efectiva das práticas socio-culturais pode criar o exemplo que cidadãos e crianças podem assimilar e reproduzir.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

História Viva - um trabalho notável na blogosfera

Cumpro hoje uma homenagem devida ao blogue História Viva, um espaço que se distingue, no mundo da bogosfera, pela qualidade e a originalidade. O seu editor, Eduardo Marculino, cumpre, no Brasil, uma função notável na gestão da publicação de textos científicos que, inscritos na área das Ciências Sociais, incide sobre temas da História Contemporânea numa perspectiva multidisciplinar cujo alcance se prolonga às Ciências Sociais que integram história, política, antropologia, sociologia, literatura, economia e muitos outros olhares que, de facto, transcendem em muito o que, em Portugal, continua a ser percepcionado como conhecimento disciplinar, estanque, escolástico e, como tal, de cientificidade problematizável. Por isso, hoje cumpro o que, de há muito, sinto como um dever: divulgar, por esta via e com particular destaque para Portugal e toda a comunidade lusófona, uma forma efectiva, útil, eficaz de trabalhar e promover a Cultura com o espírito de missão cívica e pedagógica que a Democracia merece. Torna-se difícil e até injusto seleccionar alguns post's deste blogue que recolhe e publica textos e trabalhos temáticos de diferentes autores, procurando manter a comunidade actualizada sobre a construção cultural da realidade, divulgando biografias e promovendo, sempre, o conhecimento... contudo, arrisco, a título de exemplo e apenas com o objectivo de elucidar a natureza do História Viva, propôr-vos algumas leituras editadas recentemente:
De entre outros, muitos!, trabalhos a destacar que só uma leitura cuidada e progressica deste blogue, vale a pena referir a iniciativa Semana Histórica de que fica também o registo de alguns trabalhos:
Resta-me formular a todos, votos de Boas Leituras!
Nota: alguns dos textos para que aqui se encontra o respectivo link, foram, pelo interesse que suscitam, acrescentados posteriormente à data de publicação inical deste post.

Do Aquecimento Global à Negligência Política


A realidade é esta, independentemente das leituras que nos sejam induzidas por multinacionais, ciências ambientais ou ONG's... e as imagens não deixam mentir: das inundações que, no Paquistão, afectam já 15 milhões de pessoas (ler Aqui) à China e ao próprio Norte da Europa, Agosto está a ser calamitoso se a tudo isto somarmos os incêndios que devastam a Rússia (ler Aqui) e outros espaços em que se conta o nosso país - onde, na última semana, deflagaram mais de 2000 incêndios (ler Aqui)... A verdade é que, neste caos em que se confrontam Natureza e Cultura, torna-se mais que evidente a vulnerabilidade perigosa da condição humana, capaz de se distrair com problemas economicistas no contexto da alta-finança e de deixar "arder" e "afogar" as populações que, desalojadas, doentes e traumatizadas, continuarão indefesas perante duas frentes de acção que ameaçam o planeta e a Humandade: catástrofes naturais e irresponsabilidades humanas com mão criminosa... prevenção de cheias nos rios e barragens, tratamento de florestas e reflorestação, manutenção e aperfeiçoamento de vias de circulação, desenvolvimento de planos de emergência de evacuação e assistência - eis alguns dos elementos que cada país e cada Governo teria - se a política cumprisse o objectivo de gestão da Polis que a fundamenta - a obrigação de assumir como prioridade... não é assim!... e, por isso, as pessoas continuam a ser sacrificadas e expostas ao que não podem deixar de considerar "fatalidade" e "injustiça", reforçando dimensões do pensar e do agir humano que em nada contribuem para promover a "sociedade do conhecimento" que por aí se apregoa mas que os factos desmentem, pura e simplesmente porque se negligencia a previsibilidade que as Ciências permitem e se responde a cada incidente e/ou acidente sem atender a uma consistente intervenção sistémica... por tudo isto é, cada vez mais, urgente, pensar, responder e agir em conformidade perante a questão: estaremos perante uma limitação das capacidades humanas ou, de novo, apenas e só, perante a dinâmica do lucro e do uso que do dinheiro é feito pelas escolhas determinadas pelas redes do poder?

domingo, 8 de agosto de 2010

Um Apontamento sobre Literatura - o caso Bolaño...


A Literatura é um mundo onde a qualidade da universalidade e eternidade da escrita coexiste com a mediocridade, o esforço desmedido mais ou menos gratuito e a produção de muito texto que se pensa como literário e que, sem passar disso, não chega a ser obra... a obra literária é, como a obra de arte, complexa e rara, simbiose de múltiplos factores articulados de forma perfeita, pela combinação exacta do talento, da inspiração e da técnica... contudo, porque as sociedades contemporâneas são mercados, o espaço que as obras nele encontram é, por vezes, menor do que o que o poder das técnicas de venda concretiza... vem este apontamento a propósito de um excelente post sobre o romance "2666" de Roberto Bolaño, publicado por Rentes de Carvalho no seu TEMPO CONTADO que merece ser lido... para que conste!

(aproveito para agradecer ao Clube das Repúblicas Mortas a referência ao blogue de J.Rentes de Carvalho)

Divina Liberdade...


... de Manu Chao, "Libertad"...

sábado, 7 de agosto de 2010

António Dias Lourenço, o Resistente


António Dias Lourenço, português, comunista, dirigente político e do jornal Avante, morreu hoje, aos 95 anos... penso na coragem desassombrada com que fugiu dos calabouços de Peniche, atirando-se ao mar, em Dezembro, para concretizar com êxito uma fuga que engendrou sózinho, certo de que mais vale arriscar a vida que perder a liberdade às mãos de quem nada merece, na cegueira de desumanidade que presidia à necessidade de controle doentio e autoritário que caracterizou o poder fascista... fico em silêncio... e deixo a mente percorrer os horizontes da vontade de fazer um mundo melhor para todos... Obrigado por teres nascido português, António!... e por nos teres deixado um exemplo de coragem que muitos - se para tal tivessem consciência, cultura e humildade! - teriam pena de nem sequer conseguir imaginar, tal a subserviência vã e vil em que (sobre)vivem e se exibem... (ler a breve síntese biográfica publicada no JN Aqui e o elucidativo post de Joana Lopes no Brumas da Memória Aqui).

Violência Contra as Mulheres - os casos de Portugal e da Europa

Inspirada no blogue de Osvaldo Castro A Carta a Garcia, ocorreu-me que seria interessante evocar aqui o problema da violência, através da fabulosa analogia que a trilogia literária de Stieg Larsson evoca e retrata, mostrando como, através da vida de uma personagem, constatamos a forma multifacetada dos percursos da violência que, estruturalmente, percorrem a vida nas sociedades contemporâneas ditas desenvolvidas, ainda e sempre de forma particular, no que às mulheres diz respeito. O problema da violência doméstica que começa a ter visibilidade (inclusivé na sociedade portuguesa onde só no 1º semestre do ano em curso fez já 14 vítimas mortais - vale a pena ler AQUI), é parte de um problema mais grave onde se oculta a história da construção cultural de uma civilização assente na lógica do exercício violento do poder e que hoje se designa já por "violência de género". O problema requer, de facto e antes de mais, uma intervencão assistencial imediata às vítimas que vão da violência familiar à vulnerabilidade face às redes de tráfico de seres humanos mas, implica também, indiscutivelmente, uma compreensão transversal das relações interpessoais e sociais configuradas culturalmente que, para serem coerentes e se poderem assumir como parte integrante da pretendida coesão social das sociedades democráticas, devem ser vividas de modo a permitir a construção de representações mentais do mundo humano onde a violência física e psicológica não seja encarada com naturalidade ou negligência mas, isso sim, como patologia, desvio e crime. É neste contexto que a trilogia de Stieg Larsson é exemplar... pela forma crua, interessante e complexa de exposição de um problema que toca a todos, através de uma narrativa policial contemporânea de excelente qualidade de que podemos ter uma amostra nos vídeos que se seguem e que correspondem a excertos de cada um dos 3 volumes desta obra - sobre a qual importa reflectir, para além da sua dimensão de entretenimento que tanto prazer proporciona aos leitores e que tão bem se adequa ao período estival.
Millenium - 1 - OS Homens Que Odeiam as Mulheres:

Millenium 2 - A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo:

Millenium 3 - A Rainha no Palácio das Correntes de Ar:

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Hiroshima - Não ao Nuclear


Foi há 65 anos que as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, destruiram as 2 cidades, iniciando a chamada "era atómica". Herança deste momento tenebroso é a luta travada por ONG's, cientistas, cidadãos e alguns Governos (entre os quais, felizmente!, se conta Portugal) que, em todo o mundo, resistem ao desenvolvimento da energia nuclear que, para além dos pretensos baixos custos energéticos, possui um potencial de destruição massiva que é preciso evitar a todo o custo uma vez que o acesso ao seu uso para fins bélicos e terroristas é uma possibilidade real que nos cabe a todos procurar evitar. Do catastrófico efeito causado pelas bombas lançadas há 65 anos são testemunhas vivas 235.000 pessoas que sofreram e sofrem diariamente os seus efeitos (ler Aqui e Aqui). Hoje, Hiroshima relembrou a tragédia (que contou pela primeira vez com a presença de uma representação dos Estados Unidos da América, responsável pelo desastre) com o objectivo de obrigar o mundo a não esquecer a catástrofe que se mantém como ameaça iminente no horizonte do desenvolvimento global.

Da Precariedade Laboral à Sobrevivência Social da Democracia



Portugal é o 2º país da Zona Euro com mais elevada taxa de precariedade e o 3º se considerarmos a totalidade da União Europeia, segundo os dados do Eurostat (ler Aqui). Apesar de relativizados pelas autoridades portuguesa, os dados revelados merecem a nossa reflexão designadamente porque o problema que subjaz a esta realidade é, como em toda a Europa, o do desemprego (ler Aqui), cuja análise objectiva e distanciada se resume à constatação da incapacidade de criação de postos de trabalho nas sociedades contemporâneas consideradas desenvolvidas mas, cujo futuro se encontra, por esta razão, seriamente ameaçado. As consequências da coexistência de elevadas taxas de desemprego, precariedade laboral, envelhecimento populacional e alterações de consumo configuram, neste momento, os eixos sobre os quais se desenha o futuro europeu das populações dos países que integram a União Europeia, onde os conflitos tendem já a reflectir-se em sérias dificuldades económicas para famílias e cidadãos e a agravar-se sobremaneira, quando associadas à questão das migrações e do acentuar político dos limites das competências do Estado Social . Neste contexto, é fácil prever o endurecimento das medidas políticas justificadas pela necessidade de gerar receitas capazes de anular os custos do apoio social que vai sendo, progressivamente, diminuído. Com este panorama não é difícil compreender que estão em efectivo desenvolvimento dinâmicas socio-políticas alimentadas pelo descontentamento, que irão condicionar e sustentar reacções politicas significativas, de sinal contrário às que assentam na defesa dos direitos das pessoas e realtivamente às quais não podemos garantir a continuidade do investimento eleitoral na democracia. Por tudo isto, aflige a inércia política decorrente de um mistificador aguardar por eventuais investidores que, apesar das mudanças ocorridas no mercado de trabalho terem modificado a "olhos vistos" a sua natureza operativa e organizacional, continuarão a sacrificar a lógicas ultrapassadas o problema da contratação de recursos humanos, recusando a inflexão do investimento na criatividade multifacetada a que a sociedade pode aderir (não era esse um dos argumentos da polivalência e da flexibilidade?), apenas porque não reconhece nessa inflexão lucros imediatos acrescidos... e aflige tanto mais que, se a análise científica socio-económica do problema é já conhecida e se, consequentemente, dela podemos deduzir ilacções e construir cenários de previsibilidade, não se compreende a razão da União Europeia não estar já a trabalhar conjuntamente o problema da criatividade e da sustentabilidade do Mercado - ao invés de nos deixarem reféns de uma espécie de "fatalidade", resultante da nossa adesão e dependência tecnológicas criadas por hábitos de consumo induzidos pela oferta e a mediatização, de forma transversal e incontornável na vivência urbana dos quotidianos!?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Da Lei e das Regras no Estado de Direito

Os portugueses precisam de encontrar bodes expiatórios para canalizar as razões do descontentamento social... só assim pode ser entendida a insistência num episódio que, ignorando o cumprimento das regras da Justiça e do Direito, continua a ser alimentado pelos que consideram ser o dedo acusatório da suspeição e da desconfiança a forma de corrigir o que, no país, pode ser melhorado política e institucionalmente.
Para quem recusa perceber que a convicção gratuita se pode aproximar da insistência obsessiva que, em muitos locais do mundo, é suficiente para condenar à morte, vale a pena lembrar alguns depoimentos tecnicamente prestigiados e insuspeitos de Maria José Morgado, António Garcia Pereira, Marinho Pinto, Pedro Soares de Albergaria e Proença de Carvalho:

As denúncias gratuitas que permitiram à Inquisição e ao Estado Novo perseguir impunemente os cidadãos não se afastam muito do clima persecutório para onde estão a tentar conduzir a Justiça e o bom-nome das instituições em que assenta o Estado de Direito... e quem, num regime democrático que permite o diálogo sobre a mudança das suas regras, troca o rigor da Lei e da Prova pelo boato, a opinião e a impressão não comprovada, das duas, uma: ou não compreende o precedente que deixa em aberto ou visa intencionalmente desacreditar esse regime democrático e o respectivo Estado de Direito.

Persistências... na Resposta e no Entendimento


(via Banco Corrido)
Nota: este post começou por ter como título: "Afinal..." mas, foi aperfeiçoado - para evitar equívocos interpretativos pois, como diz a sabedoria popular: "nunca fiando!".

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Do Procurador Geral da República, Pinto Monteiro


Incomoda-me ver que as organizações se unem por motivos pouco claros, em detrimento da transparência democrática, preferindo incorrer em erros do que perder uma oportunidade para defender os que se não posicionam publicamente como seus seguidores. Por isso, os comentários do BE e do PCP sobre a pequena e corajosa entrevista de Pinto Monteiro, publicada ontem no DN, decepcionam quem olha, vê e interpreta sem preconceitos, o incidente que continua a grassar no meio político-jurídico e judicial português, a propósito de um despacho de arquivamento, cujos autores decidiram transformar em peça documental insidiosa. A verdade é que conseguiram que o PSD, o CDS, o BE e o PCP se unissem numa crítica desprovida de razão ao Procurador Geral da República, Pinto Monteiro... e se a posição do PSD, concorrendo para o desenvolvimento de uma forma de intervir pela negativa em que se pretende mandar sem eleições, não surpreende (registe-se que, mais uma vez, as declarações de Paulo Rangel foram descabidas e serviram apenas de "lebre" para a corrida contra o PGR "à falta de melhor" - passe a expressão! - uma vez que o Governo está agora livre das acusações que o tentaram ligar a processos escusos), as afirmações do BE e do PCP são, em tudo!, contrárias ao que se presume e pretende do espírito democrático... Porquê?... porque de um Procurador-Geral da República se não deve esperar apenas o silêncio protocolar tradicional do "politicamente correcto" mas, acima de tudo e no caso de acreditarmos de facto na liberdade de expressão, a capacidade de desvelar formas que concorrem para climas de suspeição que põem em causa a transparência do exercício dos poderes. Ora, na verdade, não tendo o PGR causado interferências na investigação ou no seu juízo, não pode, de acordo com a legitimidade da expressão democrática, deixar de se pronunciar face à estranheza suscitada pelo teor de um despacho que é, de facto, bizarro no que se refere à própria conceptualização da sua produção. Como bem disse, ontem, o Director da Revista Visão (talvez a única voz pública a interpretar correctamente a entrevista de Pinto Monteiro!), o importante, nessa entrevista, foi ler da parte de alguém com efectivo conhecimento e responsabilidade na matéria que, de facto (coisa que, aliás!, a lógica nos permite compreender pelo reconhecimento do papel da subjectividade inerente a todo o juízo), os processos judiciais podem ser politicamente orientados... e este é o "busílis" da questão - não só em termos substantivos como enquanto justificação do mau-estar da oposição relativamente ao problema que quiseram julgar como "verdade" e face ao qual entram em fase de negação perante a hipótese de terem sido manipulados!!!... pois!... é lamentável!... porém, a solução não é condenar, por isso, Pinto Monteiro mas, isso sim, perceber até que ponto se pode aperfeiçoar o sistema de modo a reduzir a margem de ocorrência de tais manipulações!... Além do mais, a postura de "virgens ofendidas" perante o uso da expressão "Rainha de Inglaterra" no que se refere aos poderes do PGR é, simplesmente, ridícula, porque todos sabemos que, se por um lado, as hierarquias existem para o controle processual, por outro lado, sabemos em que medida se constitui como risco, ficar dependente da estrutura hierárquica em casos que implicam a adulteração do espírito de serviço público que lhes está subjacente... ou não? No caso, a hierarquia funcionou, tomando em consideração (ou por seu efeito ?!) algumas forças que lhe são externas e que procedem em paralelo, a saber, o Sindicato dos Magistrados que resolveu confrontar-se com o Ministério Público, explorando a mediatização a que tem acesso - razão que, provavelmente, explica a oposição de Jorge Miranda à existência de Sindicatos desta natureza?!... Bom seria para a democracia portuguesa que todos parassem para pensar sobre a filosofia do sistema democrático vigente onde o papel dos sujeitos e do protagonismo individual é matéria complexa de tal modo que, o que hoje verificamos na ordem jurídica nacional, enquanto limitação de poderes do PGR se deve ao esforço de não centralizar nesta figura do Estado uma espécie de poder absoluto - reserva que se justifica por se não poder garantir, "a priori", a invulnerabilidade de todos os indivíduos que foram ou venham a ser nomeados para o exercício do cargo - característica que, está à vista!, não oferece dúvidas no caso de Pinto Monteiro que recorre ao exercício democrático para partilhar com os portugueses os problemas internos de um sistema que não é, obviamente!, perfeito e nos deixa expostos aos enredos criados com finalidades que transcendem a prática objectivamente possível da Justiça. Espero, por tudo isto e acima de tudo porque acredito na transparência democrática, que o Procurador Geral da República se não demita como clama a demagogia irresponsável que contra si própria fala, confundindo árvores com florestas na ânsia de provar uma qualquer impressiva convicção sem correspondência factual...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Leituras... para Mário Bettencourt Resendes

Os amigos e os jornalistas que me desculpem mas, o sorriso de Mário Bettencourt Resendes persiste na minha memória, terno, compreensivo e largo como o entendimento do universo. Li que pediu para seguir viagem envolto na bandeira do DN e fico feliz por isso: um Homem sente que realizou o sentido da sua vida numa missão que todos reconhecemos Grande e Cumprida. Por isso, deixem que lhe dedique algumas Leituras Cruzadas para o caminho que é longo como a eternidade e que, também um dia, nós iremos percorrer. Para que sorria emocionado - porque as emoções são o que de mais belo registamos no viver - começo por lhe aconselhar, no Delito de Opinião, o texto de Pedro Correia e a meiga imagem de Bandeira...
... depois, sobre o Estado da Nação que tanto ocupou a sua vida, proponho-lhe, para o retrato político-social dos dias, a leitura dos textos de:
Óscar Mascarenhas (via Câmara Corporativa onde também sugiro a entrevista para que nos remete João Magalhães),
Francisco Seixas da Costa no Duas ou Três Coisas,
Paulo Pedroso no Banco Corrido,
Raul Iturra no Aventar,
e Weber no Mainstreet...
Quase a terminar mas, porque a viagem é longa!, uns apontamentos simbolicamente lusófonos sobre cultura... para que continuemos a sorrir pelo que fomos e pelo que somos:
Rogério Pereira no Conversa Avinagrada,
Eduardo Marculino no História Viva (relembrando uma curiosidade: Portugal entregou o Uruguai a Espanha em troca de Olivença),
Dario Silva no Aventar,
e José Saramago no Outros Cadernos de Saramago...
... ah!... já agora, o destaque para uma excelente entrevista que, para além do da sua morte, se pode ler no sempre seu DN...
Obrigado , Mário... Boa viagem e...
Até Sempre!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Jornalismo está de Luto...


Morreu Mário Bettencourt Resendes, ex-Director do Diário de Notícias, referência incontornável do jornalismo em Portugal e comentador político. O jornalismo português sofre por isso, hoje, uma perda no que à seriedade analítica, à responsabilidade noticiosa e ao exercício de valores deontológicos, respeita. Corajoso e realista na profissão e na atitude cívica com que suportou a doença, exercendo as suas competências até ao fim, Mário Bettencourt Resendes garantia a leitores e espectadores um equilíbrio respeitador das diferenças, capaz de, independentemente das suas opiniões e tendências políticas, fazer jus à esquerda e à direita sempre que reconhecia o uso oportunista da especulação mediática gratuita. Ficamos mais pobres... e resta-nos esperar, como sabemos que ele o desejaria, que a geração de "corredores noticiosos" sedentos de animosidade e técnicas de venda, parem para pensar nos bons exemplos que as gerações anteriores deixam com as suas vidas e os seus trabalhos.

domingo, 1 de agosto de 2010

O Direito Fundamental à Saúde e ao Desenvolvimento...


O direito aos cuidados de saúde continua a ser alvo de atentados contrários à filosofia e aos objectivos do Serviço Nacional de Saúde que se não justificam a não ser por motivos economicistas... desta vez, no distrito de Évora, depois de Arraiolos, é o concelho de Alandroal que justamente protesta contra esta decisão que, esperemos!, venha a ser revogada na reunião em que, amanhã, autarquia e autoridades na matéria, reequacionarão o problema. O concelho de Alandroal não teve até ao 25 de Abril de 1974, cuidados médicos capazes de assegurar o mínimo de apoio concertado e eficaz à população concelhia. Dependente da acção benemérita do Dr.Xavier Rodrigues, figura inesquecível pelo perfil humanitário que caracterizou a sua vida e que o levava a pagar, a expensas próprias, o aluguer do único e depois de um dos dois táxis do concelho durante décadas e até aos anos 70, em socorro nocturno de quem, pelos campos, conseguia fazer chegar a tempo o seu apelo, o Alandroal contou, até à criação do SNS, apenas com os serviços elementares de enfermagem da Misericórdia, prestados por duas pessoas, a saber, uma das suas religiosas, a Irmã Ana e o sr. Cardoso. Com o Serviço Nacional de Saúde, o concelho teve acesso a cuidados médicos diários, descentralizados pelas aldeias onde se improvisaram postos de atendimento nas Casas do Povo e posteriormente nas sedes das Juntas de Freguesia e em que se integraram campanhas de sensibilização alimentar que permitiram às famílias perceber a importância de consumos como o leite (que aí chegou para distribuição gratuita com o apoio da FAO), a fruta e os legumes e que muito contribuiram para, progressivamente, reduzir as taxas de mortalidade infantil do concelho. Neste contexto, chegaram às populações campanhas intensivas de vacinação, saúde escolar, planeamento familiar e acompanhamento sanitário das pequenas explorações familiares pecuárias. Reestruturação após reestruturação, o concelho de Alandroal conseguiu finalmente!, a partir de 2005, ter um Centro de Saúde com instalações condignas criadas para o efeito... como justificar agora, cinco anos depois, em pleno século XXI, esta redução de um direito fundamental como é o direito à saúde que, para grande parte do país que somos, representa o início do acesso dos mais pobres a condições de vida dignas?

Obrigado, Presidente Lula! Chegou a hora...


Lula da Silva, o Presidente mais carismático da actualidade, volta a ser notícia e a dar do Brasil a imagem de um país atento ao mundo... Os brasileiros não podem esquecer o legado que Lula da Silva lhes deixa e de que o mundo precisa, devendo continuar a exigir uma presença internacional indefectível na defesa dos Direitos Humanos, em duas frentes: interna e externa. Hoje, Lula da Silva deu, uma vez mais, à cidadania global e ao cinzentismo esquálido dos poderes, o rosto, a voz e o gesto pela Liberdade, a Igualdade e a Paz, oferecendo asilo político a Sakineh Mohammadi Ashtiani que o Irão condenara à morte à apedrejamento (vale a pena ler AQUI)... em mais um dia em que o Governo de Israel e o Hamas voltam a atacar os seus povos, reiterando o sofrimento da Palestina onde as mulheres começam a ser vítimas do fundamentalismo conservador, esta é, sem dúvida, a expressão mais eficaz dos valores democráticos, materializada no exemplo que todos, incluindo as Nações Unidas, deveriam ter em conta. Obrigado, Presidente!... Apoiar a sua eleição como Presidente das Nações Unidas é agora, mais do que nunca, um dever cívico que cabe aos Governos, ONG's e cidadãos de boa-fé de todo o mundo... para que a ONU sobreviva e readquira o estatuto de dignidade e respeito de que os povos precisam e de que a política internacional carece.