sábado, 7 de novembro de 2009

Do Primeiro Debate da Nação ao Interesse Nacional

Do debate sobre o Programa do Governo, vale a pena destacar: entre os membros do Executivo, a boa intervenção da nova Ministra do Trabalho, Helena André e as palavras do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, que afirmou como ponto de partida e não de chegada, o Programa que o Primeiro-Ministro foi apresentar à Assembleia da República. Dos grupos parlamentares que se reconhecem como de esquerda, releva a intervenção de Francisco Assis do PS enquanto nos grupos parlamentares que se identificam com a direita, se evidencia a intervenção de Paulo Portas... Os destaques justificam-se pelo facto de, por um lado, Helena André ter transmitido, na forma e no conteúdo da sua intervenção, a atitude inovadora de uma governação que se pretende lúcida e capaz de encarar os problemas sociais do país com um sentido de responsabilidade que implica, simultaneamente, o esforço de articulação entre as possibilidades reais de uma economia fragilizada e as justas reivindicações cívico-políticas que, em diálogo, deverão deixar o estatuto de exigências para passar a plataformas de recurso das oportunidades que é urgente construir para responder à precariedade social que atinge a maior parte da população... e é recorrentemente neste sentido que se registam as palavras de Francisco Assis e as declarações de Luís Amado, manifestando a consciência da indispensável capacidade de diálogo que o Executivo tem que estar preparado para encetar de forma sistémica e consistente, sem ceder ao azedume que a pressão mediática pode desenvolver a partir de situações que, indirectamente, podem, como é o caso "Face Oculta", contribuir para o já antecipado "desgaste" governamental que é essencial saber contornar... porque o desgaste é um dos mais gravosos efeitos internos nos processos de continuidade governativa em contextos democráticos e, consequentemente, um dos pontos de incisão do trabalho da oposição que neles encontra um aliado privilegiado na medida em que, inclusivé, pouco esforço lhe requer... quanto a Paulo Portas, refira-se o facto da sua intervenção decorrer de uma análise racionalista do estado precário que uma maioria relativa sempre representa. Finalmente, uma observação sem destaque para as intervenções dos restantes partidos com representação parlamentar: enquanto o PSD foi profundamente desinteressante e banal e o BE repetidamente juvenil-arruaceiro e moralista-acusatório, a CDU foi mornamente previsível... ficou assim vazio à esquerda o lugar de protagonista que se requeria como força da oposição consistente e realista! Tudo isto porque o grande desafio é ainda inaceitável para parte significativa dos grupos partidários que privilegiam as suas expressões singulares de um poder efémero em detrimento do interesse nacional que se revê na leitura desdobrada do tradicional binómio "pobreza/riqueza" e a que, cada vez mais urgentemente, é preciso responder com o planeamento sustentado do aumento da produtividade nacional assente, por um lado, no combate à pobreza e à exclusão social e, por outro lado, na criação de emprego e de riqueza.
(Este post está também publicado AQUI)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss, o Incontornável...



Claude Lévi-Strauss, autor fundamental da Antropologia, morreu hoje, com 100 anos de idade. Com um pensamento inovador, capaz de descobrir padrões onde a sua existência não era evidente, denotou a importância das relações de parentesco na morfologia social enquanto descobria e demonstrava a universalidade dos mitos. Destacam-se, entre as suas obras, estudos maiores sobre a dimensão social do ser humano, tais como: "As Estruturas Fundamentais do Parentesco" (1949), "Tristes Trópicos" (1955), "O Pensamento Selvagem" (1962), "Antropologia Estrutural" (1958)", "O Cru e o Cozido" (1964), "Do Mel às Cinzas" (1966), "O Homem Nu" (1971) e "Antropologia Estrutural-2" (1973) mas, talvez acima de tudo, o pensamento contemporâneo fica a dever-lhe a construção e aplicação do estruturalismo como instrumento metodológico profícuo que acabou por produzir a emergência da Antropologia Estrutural. Em Portugal, onde a compreensão da extensão e significado das Ciências Sociais e, particularmente, da Antropologia, está ainda muito aquém do seria de esperar de uma sociedade que, no século XXI, afirma a valorização da Cultura, da Ciência e do Conhecimento, Lévi-Strauss teve um discípulo que com ele trabalhou no Collége de France e que publicou uma das mais importantes obras de investigação fundamental em Antropologia em Portugal. Refiro-me a Armindo dos Santos e, em particular, à sua obra "Heranças - Estrutura Agrária e Sistema de Parentesco numa Aldeia da Beira Baixa", publicada pelas edições Dom Quixote, na colecção Portugal de Perto (nº25), em 1992... e, a este propósito, com humildade mas, também com muito orgulho pelo quanto me deu a aprender, devo dizer que tive a honra de ter Armindo dos Santos como meu orientador e director de teses ao longo do meu trabalho de investigação, um trabalho que se tornou a minha própria forma de estar na vida... Protagonista de um pensamento incontornável, Claude Lévi-Strauss merece, cada vez mais, a nossa atenção à luz da eterna vontade de aprender e da revisitação crítica de que emerge a atitude científica com que se pensa e escreve a ciência sobre a nossa própria natureza e condição.

domingo, 1 de novembro de 2009

Um País na Idade do Armário...

"Portugal é um país de amadores" (Jorge de Sena in O Reino da Estupidez)... hoje, no programa Câmara Clara (RTP 2), dedicado a Jorge de Sena, foram convidados de Paula Moura Pinheiro, Jorge Vaz de Carvalho e o sempre extraordinário Eugénio Lisboa, intelectual por quem nutro uma admiração sincera, resultante do sentimento de libertação que provoca o seu desassombramento, lúcido e claro, sobre os objectos a propósito dos quais se pronuncia... Jorge de Sena era um desmistificador... aprendi-o quando me apaixonei pelos seus Estudos Camonianos... e a citação de Jorge de Sena que aqui reproduzo, materializa sempre, no meu imaginário, o retrato do país que somos, radiografia do espaço e das dinâmicas que no tempo vamos percepcionando e em que vamos, mais ou menos a contragosto mas sempre de boa-fé, participando. "Portugal é um país de amadores" escreveu, em 1961, o pensador Jorge de Sena... ainda é!... um país de amadores nas escolhas, nos critérios, nas metodologias e nas perspectivas em que se satisfaz com uma espécie de obediência cega à lógica do previsível, do seguro e do conforme... um país de amadores por se manter quase escolástico, quase canónico, quase, por certo, apenas, cartesiano... um país de amadores por querer medir o futuro com a exacta medida de uma proporcionalidade garantida pelo passado e que, sem ousar, conserva o presente arrumadinho, sem margem para a desordem da criatividade de que irrompe a inovação, a partir da qual se instalam os ritmos da mudança... um país de amadores, por certo, porque nas suas representações se equivalem diversidades, diferenças e inseguranças e onde se pretende que, em vez de se correr, se marche para que se impeçam distinções inconvenientes ou comparações de competências e méritos que deixem de justificar opções assentes em laços de dependência corporativa... um país que se quer resumido às oportunidades do prevísivel e controlado, contrariando esse ímpeto que, em muita da literatura portuguesa, diz a verdade, o sonho e a utopia... um país que recusa a lisura com medo de ficar nú... um país que tem sempre juízos de valor para classificar os que falam, antes mesmo de os escutar... um país que grita sem razão num quarto fechado com medo do mundo, com medo de si e com medo de perder a ordem em que se auto-representa, num esforço de auto-reconhecimento e auto-valorização da adequação dos seus meios, esquecendo que o hábito lhe inquina o raciocínio... um país que tem a História e a Vida arrumadas em pequenas gavetas, ordenadas e rotuladas, é um país que se recusa a sair do armário... por isso, talvez por tudo isto e por tudo o mais o que lhe sabemos poder somar, Jorge de Sena tenha dito, com propriedade: "Portugal é um país de amadores"... o presente aí está para o comprovarmos e, se restarem dúvidas, aí estará, infelizmente!, o futuro, para o confirmar...

Leituras cruzadas...

Espanta-nos o mundo, como bem demonstra Carlos Barbosa de Oliveira no Crónicas do Rochedo... porque é incansável o nosso esforço na compreensão da humanidade de que somos feitos e que vai, felizmente!, muito além das mesquinhas realidades que vamos permitindo (leia-se o texto de José Manuel Dias no Cogir), dos paradoxos bizarros que alimentamos (de que são bons exemplos os textos de Ricardo Paes Mamede no Ladrões de Bicicletas e Eduardo Pitta no Da Literatura) e dos condicionalismos atávicos de que nem conta nos damos na vaidade dos dias (veja-se o texto de Vitor Oliveira Jorge no Trans-ferir). Vale-nos, a título de contra-argumento contra toda esta inutilidade de enredos em que nos prendem a liberdade enquanto expressão de uma determinada e feliz vontade de existir, os escritos que emancipam e esclarecem a nossa condição como o evidenciam Raimundo Narciso no PuxaPalavra, Eduardo Graça no Absorto, Rui Herbon no Absinto ou Francisco Seixas da Costa no Duas ou Três Coisas... Porque vale a pena contrariar, com a memória e a intervenção, a maré de mediocridades em que nos sentimos envolvidos, continuando a erguer a voz da alma, das causas... e da Esperança.
(Esta rubrica passa, a partir de hoje, a ser publicada também AQUI)

Interrogações...



... "Preguntitas a Dios" é um poema de Atahualpa Yupanqui... aqui cantado por Victor Jara e ilustrado em conformidade por Maurizio González F. com o sentir de quem olha, vê, pensa e interpela o mundo...

sábado, 31 de outubro de 2009

O Lago dos Cisnes segundo Zakharova e Nureyev



... Svetlana Zakharova (2004)...



... e Rudolf Nureyev (1966)...

... e um Tributo ao Bailado... no Masculino



... a Rudolf Nureyev...

Sons Femininos...



"Redoutable" de Véronique Sanson, ícone feminino da mudança na composição musical francesa dos anos 60 e 70.

Contra o Desemprego, Proteger os Cidadãos


Temos hoje, na Europa, 22 milhões de desempregados e, em Portugal, mais de 510.356 de cidadãos sem trabalho... numa economia e numa sociedade como a nossa, onde é indispensável promover, com resultados efectivos, o aumento da produção nacional para, na expressão de Ernâni Lopes, "criar riqueza", a prioridade política é, incontornavelmente, combater o desemprego. O fenómeno, demolidor da estrutura social pelo vertiginoso ritmo de empobrecimento da população, justifica a sua eleição como matéria de interesse nacional que o Governo reconhece, assumindo-o como seu principal objectivo e que, as entidades vocacionadas para a defesa dos direitos das pessoas, designadamente, os sindicatos, desenvolvam meios de pressão política no sentido de serem materializadas as condições indispensáveis ao apoio social aos cidadãos, cada vez mais fragilizados. Felizmente, reconheça-se... porque, por um lado, a questão se inscreve no quadro dos Direitos Humanos e dos Direitos Fundamentais e porque, por outro lado, quando atingidas por processos que aceleram a exclusão social, as pessoas perdem capacidade para resistir a uma realidade que, de forma evidente, transcende a sua esfera de intervenção. Por isso, numa atitude pró-activa de intervenção, a central sindical CGTP lançou uma Petição apela: a) ao alargamento da protecção no desemprego; b) à revogação do factor de sustentabilidade; c) à alteração das regras de actualização das pensões e das prestações. A Petição pode ser lida e assinada AQUI.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Face Oculta...


"Face Oculta" não é título de telenovela ou sequer de um "thriller"... é o nome de mais uma operação judiciária na guerra contra a corrupção, matéria que, pela frequência com que vem emergindo, merece à opinião pública, não apenas atenção mas, acima de tudo, reflexão. Antes de mais, a face oculta da "tentação" a que cedem os que ao poder acedem, denota a falta de competências pessoais para o exercício das funções a que ascendem. A negligência absoluta da noção de serviço em nome do bem-comum atesta a ausência de uma cultura cívica indissociável da inexistência de uma cultura política sustentada e a sistematicidade com que os políticos surgem associados ao crime económico é o pior dos precedentes para a garantia da continuidade democrática. A corrupção, nos estados democráticos, dissemina a valorização do autoritarismo. Perigosa politicamente para as democracias, a corrupção económica assenta numa actuação que facilita o desenvolvimento da própria economia paralela, da delinquência e de todo o tipo de criminalidade. Por isso, em sociedades organizadas com base nas relações de dependência interpessoal, as redes criminosas multiplicam a sua exponencialidade, podendo materializar-se em relações sociais como as que, em Itália, têm um rosto já não oculto mas, assumido à luz do diz. Das pequenas conivências aos favores mal-equacionados em termos de consequências, rapidamente se desenvolvem dinâmicas a que só o carácter e a cultura cívico-política interiorizada no quadro de valores dos cidadãos podem estabelecer limites de legitimidade... Sabendo-se, designadamente por analogia com o que acontece no que se refere ao grau de representatividade real dos dados estatísticos que, apenas cerca de um terço dos indicadores da realidade é, de facto, denotável pela metodologia aplicada, no caso, no que à corrupção respeita podemos imaginar a dimensão do fenómeno que, antes de mais, hipoteca a confiança das pessoas e descredibiliza ainda mais a Justiça e a Democracia.

Caim... na Culturgest...


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Tarrafal... nunca mais!




Faz agora 73 anos que foi inaugurado o Tarrafal, "Campo da Morte" português. A Ilha de Santiago, em Cabo Verde foi o local escolhido pelo Estado Novo para sujeitar os deportados ao conhecido regime de "morte lenta", caracterizado pelo recurso a espancamentos, trabalhos forçados, semanas a fio na "frigideira" (uma espécie de caixa de cimento, exposta permanentemente ao sol, com apenas 2 orifícios para permitir a respiração, internamente dividida em 2 celas com capacidade para 2 a 3 prisioneiros cada mas, onde chegaram a estar 12 homens no exíguo espaço de 9 metros quadrados), à péssima alimentação e à contaminação por doença (designadamente, paludismo) numa das mais inóspitas regiões do arquipélago... Campo de concentração ainda sem a sofisticação das câmaras de gaz celebrizadas pelos nazis, nele morreram 32 dos que aí foram desterrados, entre os quais se contam participantes nas greves de 18 de Janeiro de 1934, participantes na revolta dos marinheiros de 1936, anarquistas, sindicalistas, comunistas e antifascistas que, à chegada ao degredo, ouviam anunciar pela voz do Director do Campo: "Quem vem para o Tarrafal, vem para morrer!" O tempo de prisão dos 340 prisioneiros que passaram pelo Campo somou 2.000 anos, cinco meses e onze dias! O Tarrafal foi extinto em 1954, tendo sido utilizado na década de 60 para os que lutavam e apoiavam os movimentos de libertação dos agora PALOP's! Os corpos dos 32 mortos no Campo da Morte só vieram para Portugal depois do 25 de Abril de 1974!... Para que se não esqueça, A Nossa Candeia associa-se a todos os que trazem à memória o exemplo do que não podemos deixar que volte a acontecer... e ficam as imagens, indesmentíveis, das instalações do campo, do cemitério e da "frigideira"do Tarrafal!

(Este post tem publicação simultânea no A Regra do Jogo)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Escravaturas...



No dia em que ficámos a saber que mais cidadãos emigrantes, de nacionalidade portuguesa, foram escravizados, a partir de uma demanda de trabalho, fica-nos a ideia de que toda a atenção é pouca perante as novas/velhas estratégias de exploração dos seres humanos... por ora, fica o som de um exemplo de libertação e afirmação... India's Song por India Arie!...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Guerra da Água


A Guerra da Água atingiu proporções dramáticas: 80% da água potável disponível na Cisjordânia é consumida por Israel que impede o seu acesso aos Palestinianos... com a inverosímil, ridícula e nefasta justificação de que foram os israelitas a descobrir primeiro (?!?!?!) as fontes deste vital recurso natural... para além de pura provocação, esta atitude é uma evidência da adopção dessa prática genocida que consiste no retirar os meios elementares de subsistência a um povo inteiro. Inadmissível Crueldade que serve apenas para ceifar a vida da população palestina e que contribui decisivamente para a falta de respeito que a Humanidade nutre já por Israel que continua a investir nos caminhos da guerra, da fome e da guerra como forma de relacionamento com os povos vizinhos. A Amnistia Internacional veio a público denunciar a situação.

(Este post tem publicação simultânea no Forum Palestina e no A Regra do Jogo)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Tragédias Contemporâneas: o Mundo Laboral entre o Desemprego e o Mau-Emprego...

O desemprego é hoje o maior desafio do mundo ocidental que integra o número de países ditos desenvolvidos. Na verdade, a constatação do fenómeno decorre, não da sua imprevisibilidade (na medida em que o desenvolvimento tecnológico o implica e anuncia com significativa antecipação) mas, isso sim, na incapacidade (objectiva por razões de negligência e cálculo de redução de custos que se presumem no não investimento da prevenção) de encontrar respostas diversas, inovadoras e alternativas no quadro da oferta dos empregos, trabalhos e tarefas que sabemos irem reflectir a dispensa de mão-de-obra por motivos vários mas, repito-o!, previsíveis. O problema do desemprego não pode ser resolvido sem a coragem política coordenada e integrada de apoio à criação de empresas e à contratualização em áreas inovadoras relativamente ao mercado tradicional... não, não se trata apenas de alimentar as cadeias das novas, tecnologias da informação, tecnologias de vanguarda, "de ponta", etc... trata-se, isso sim, de investir fortemente no apoio à revitalização e à criatividade no sector das indústrias transformadoras, designadamente de pequena e média dimensão, de modo a reconfigurar os aparelhos produtivos que viabilizam a sustentabilidade do desenvolvimento à escala nacional, por toda a Europa... da agricultura aos serviços, precisamos urgentemente de perceber que interesses, competências e oportunidades nos oferecem as existências e qualificações de que dispomos para reinventar uma rede económica diversificada que se não esgote nos modelos e práticas tradicionais... hoje, conforme o provam os suicídios na maior empresa de telecomunicações francesa (leia-se o excelente artigo publicado pelo Alternatives Économiques), o trabalho sob tensão, contrariando vocações e formações, competências e consciências, conduz a uma tal baixa auto-estima, a uma tal redução das expectativas sociais e a níveis de qualidade de vida tão pouco gratificantes que se pode já tirar conclusões que não podemos continuar a ignorar (leia-se o artigo de Beja Santos no Vidas Alternativas). Referimo-nos à degradação das condições de trabalho (com causas muito próximas do abuso da flexibilidade e mobilidade utilizadas em ritmos que contrariam toda a organização bio-psico-social tal como a conhecemos e vamos culturalmente), associada às cada vez menos visíveis solidariedades colectivas (que nos alertam para o desfasamento entre interesses de trabalhadores e culturas organizacionais sindicais)... sem querer comparar o desespero do desemprego com a fraude psico-social e cultural que representa o mercado de trabalho de hoje, é importante que se tenha uma visão objectiva de conjunto destas realidades que apelam, inexoravelmente, à revisão ideológica do mundo laboral nas sociedades contemporâneas... aliás, foi esta a grande lição da crise que só não é assumida politica e colectivamente pelo receio da quebra dos lucros imediatos dos que ainda se constituem como pilares económico-financeiros... contudo, mesmo para estes, a situação é progressivamente incontrolável, dada a crescente instabilidade dos mercados cujos equilíbrios são cada vez mais precários... a Humanidade não pode ser forçada a mudar a sua própria natureza cuja capacidade de resistência e adaptação tem, apesar das aparências, limites, em nome dos rendimentos dos detentores do poder económico actual cuja cultura não está à altura do exercício desse poder... porque se estivesse, a economia estaria ao serviço das pessoas e da qualidade de vida para todos!
(Este post tem publicação simultânea no A Regra do Jogo)

A alma dos dias...



... soa à "Serenade" de Franz Schubert e lembra a beleza do silêncio de algumas paisagens nórdicas...

domingo, 25 de outubro de 2009

Leituras cruzadas...

Um apontamento sobre o que subsiste na cultura e na sociedade portuguesas independentemente da aparência da mudança, pode ser aferido na leitura de um recente texto de Valupi no Aspirina B que nos reactualiza a dimensão complexa do Portugal que somos e de que nos dão exemplos: Tomás Vasques no Hoje há Conquilhas, Sofia Loureiro dos Santos no Defender o Quadrado ou João Carvalho e José Gomes André no Delito de Opinião. Considerando o que vai pelo mundo, onde se trocam ilusões por realidades (vale a pena ler os textos de Filipe Tourais no País do Burro e de Carlos Santos no O Valor das Ideias) e se tende a confundir árvores com florestas, concorrendo para aumentar demagogias em nome da sua pretensa resolução (de que são excelentes exemplos os textos de João Tunes no Água Lisa e o de T.Mike no Vermelho Côr de Alface), vale a pena registar testemunhos que nos trazem reflexos vários de outras realidades a considerar e de que nos dão conta: Rui Caetano no Urbanidades da Madeira, António Serzedelo no Vidas Alternativas, Eduardo Maia Costa no Sine Die e... com um destaque muito especial, os 9 redactores do Caminhos da Memória.

Sons Femininos ... de 1969



Um ícone da mudança... fica aqui, por ora, o tema "Maybe" que pode justificar, por razões de gravação, um pouco mais de volume... ao vosso critério! Revi e não resisti a partilhar... cá está: Janis Joplin!

sábado, 24 de outubro de 2009

A Bíblia e o Corão - entre a "Letra" do Texto e as Sociedades Laicas

Nota Prévia: A poucos dias da acesa polémica suscitada por "Caim" de José Saramago, hoje saiu mais um livro potencialmente polémico que também ainda não li: "A Fúria Divina" de J.Rodrigues dos Santos. Ressalve-se, antes de mais, que o texto que aqui vos apresento não tem qualquer intento comparativo entre autores, seja ao nível da qualidade literária ou sequer do posicionamento ideológico e reitere-se que não li nem um nem outro. O que me ocorre dizer está a jusante das obras enquanto tal e refere-se apenas à exposição de uma perspectiva sobre o facto de estarmos perante dois livros que interpelam dois dos mais célebres "Livros Sagrados", a saber, Bíblia e Corão. Posto isto, aqui fica o registo desta reflexão:
Quando os livros, nomeadamente, os ditos "Sagrados", são apresentados como códigos de valores, exemplos de práticas e modelos de comportamentos, o seu sentido literal é, inequivocamente, em termos lógicos, fundamental. Penso que é para esta dimensão do problema
que os livros "Caim" de José Saramago e "Fúria Divina" de José Rodrigues dos Santos, chamam a nossa atenção... a propósito de narrativas diferentes e de ficções distintas e independentemente dos contextos diversos em que, Bíblia e Corão, se foram construindo. Contudo, esta tem sido, uma perspectiva ausente dos debates proporcionados sobre o tema. Estranhamente, diria! De qualquer modo, num mundo que precisa de, continuamente, se pensar a si próprio, faz sentido que a sociedade possa conhecer e discutir estas tão sérias problemáticas para as sociedades contemporâneas, designadamente, porque não podemos ignorar que, para além dos discursos institucionais e ecléticos sobre a dimensão simbólica dos Textos Sagrados, a sua leitura, interpretação e representação, por parte dos respectivos crentes, tende a aproximar-se do sentido mais literal das referências escritas e reproduzidas nomeadamente por via oral - inclusivé por razões que se adequam à defesa da fé e, mais ainda, do dogmatismo.
A questão é, aliás, crucial e reconhecida como tal. Vejamos: é ou não desta problemática que emerge o sentido da promoção e defesa de valores e princípios como são os que se referem às sociedades laicas à liberdade religiosa, à diversidade social e à multiculturalidade?... mais: é ou não do reconhecimento deste problema que decorre a justificação do esforço pelo desenvolvimento do Diálogo Inter-Religioso em que se têm envolvido os mais prestigiados líderes das diferentes religiões do planeta? ... é ou não aqui que reside parte significativa do fundamento do Diálogo Inter-Cultural?... afinal de contas, é da PAZ ou melhor, da construção social das condições culturais necessárias e suficientes para a sua consolidação e do respeito pelos Direitos Humanos, que se trata... e aqui, convém não esquecer!, é fundamental - senão mesmo determinante!- a médio e longo prazo, o papel da Educação e da Escola.
(Este texto será também publicado no A Regra do Jogo)