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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Património - As Viagens e a Atracção do Grande Sul

As linhas e as formas que contam
as Viagens e a atracção do Grande Sul

-"Pelas terras mais longínquas onde andei em inúmeras comissões de serviço e nos lugares mais oblíquos do mundo, encontrei sempre um forte português", contou-me um dia no Cairo um velho coronel inglês do antigo Exército da Índias.
Com efeito, olhando para um mapa mundi podemos vislumbrar uma verdadeira world wide net que une uma imensidão de portos, ilhas e cidades onde se erguem fortificações cuja morfologia atesta uma origem comum. Essa gigantesca pista de monumentos é um ciclópico fio de Ariadne talhado em pedra que nos permite sair de Portugal, dar a volta ao mundo e regressar sem nos perdermos.
De Lisboa a Manaus, passando por Alcacer-Ceguer e Socotorá, podemos passar por Timor ou Macau. Partindo de Gale, no Srilanka, é possível subir até Calecute, Goa, Ormuz e Mascate, seguindo depois até Gondar, por Mombaça e Zanzibar. De Tânger até S. Jorge da Mina, esse fio leva-nos por Arzila, Safim, Mazagão, Mogador e Uadane, passando pela Torre do Rio do Ouro e por Arguim.
Património inesgotável, essas fortalezas, "mais do que enclaves imperialistas, foram lugares de secular convívio entre povos diferentes e focos de intensa aculturação", afirma o arquitecto Rafael Moreira que prossegue: "O fazer fortaleza, que as crónicas obsessivamente repetem, era uma prova de força por vezes gratuita e violenta mas também uma demonstração de ciência e de fixação na terra. Só isto fez com que o império colonial português não fosse uma simples cadeia de entrepostos como o dos fenícios ou dos genoveses, uma talassocracia a mais, e sim uma construção duradoura que mudou a face do mundo."
Se alguns destes monumentos estão hoje abandonados e se vão desmoronando na espuma dos oceanos, outros são considerados monumentos nacionais pelos povos dos países onde estão implantados. Muitos desses fortes e castelos são hoje palácios dos governantes, museus ou centros culturais.
Todos diferentes mas, com evidentes "traços de família", cada um marca uma etapa da Grande Viagem de deslumbramento pelos espaços exóticos e do encontro com a diferença do outro lado do mundo. Em volta das suas muralhas, baluartes e torreões pairam as pequenas estórias que fazem a grande História e que nos propomos contar.

Fernanda Durão.

As Gigantescas Gravuras da Terceira

“Nos altos matos da Ilha Terceira existem sinais de edifícios que já houveram e outras coisas que deixam em perplexidade…onde os nossos nonagenários confessam sempre os conheceram, já com admiração de seus pais que os tinham por obra de remotos séculos”.
(Francisco Ferreira Drummond, historiador, da Ilha Terceira)

Afirmada por Francisco Ferreira Drummond (1796-1858) nos “Anais da Ilha Terceira”, a certeza de que esta Ilha açoriana já tinha sido habitada antes da ocupação portuguesa do séc. XV, é um dos pilares desta investigação.
Fruto da pesquisa de um grupo de sócios da Sociedade de Geografia de Lisboa, foram recentemente descobertos na Ilha Terceira antiquíssimos sistemas de irrigação, bem como GIGANTESCAS figuras “desenhadas” no manto verde da Ilha.

Visíveis no programa Google Earth, estas gravuras de pessoas e animais são comparáveis, pela sua dimensão, às da Planície de Nazca e às do Sul de Inglaterra, ambas consideradas pela UNESCO como Património da Humanidade.
A perfeição do design, assim como o arcaísmo dos motivos e adereços das personagens, apontam no sentido da Antiguidade Clássica, revelando que esta Ilha foi habitada na Idade do Bronze e mantinha relações com as mais antigas culturas mediterrânicas.
Sendo a maioria da área da Ilha Terceira uma região agrícola e pastoril, talvez esse facto esteja na base da preservação de grande parte das gravuras. Contudo, de um momento para o outro pode chegar a “febre das auto-estradas” ou haver um surto de construção.
A criação de um parque nacional que englobasse – senão todos, pelo menos a maioria destes achados – seria o primeiro passo a dar, no sentido da preservação deste riquíssimo património.
Enquanto as gravuras não forem estudadas, catalogadas e preservadas, estão à mercê de qualquer roda de tractor ou da escavadora de um construtor civil. Toda a História que elas ainda guardam pode ser varrida da face da terra e com ela irá, talvez para sempre a explicação do passado desta Ilha, que muito antes de ser Terceira, já era ÚNICA.

Colabore connosco na preservação deste Tesouro Nacional, ajudando a encontrar patrocínios para o seu estudo e preservação.

Para saber mais leia: “Os Anais da Ilha Terceira”, Francisco Ferreira Drummond;
Edição da Sec. Regional de Educação e Cultura dos Açores; “A Terceira Atlântida”, Fernanda Durão, Editora Zéfiro.

Leela Brooker