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domingo, 8 de abril de 2012

José Tengarrinha, pela Construção da Unidade Democrática, Sempre!

A propósito da Homenagem a José Tengarrinha que irá decorrer no Restaurante Espaço Tejo (Junqueira-Lisboa), no próximo sábado, dia 14, por ocasião do seu 80º aniversário, divulgamos um texto escrito por 3 professoras universitárias (Ana Carita, Lurdes Silva e Manuela Esteves) que a grande organizadora do evento e Amiga, Helena Pato, nos disponibilizou. A ilustrar o testemunho da qualidade humana do Professor José Tengarrinha, temos ainda a honra de disponibilizar uma sua fotografia (única!), num almoço de trabalho do MDP/CDE! As inscrições para o almoço estão a terminar mas, vale sempre a pena tentar, via oitentatengarrinha@gmail.com ... e não perder este momento que promete ser um comovente e convicto momento de reencontro dos protagonistas da Democracia (com D grande!!) em Portugal.  

" PARABÉNS ZÉ TENGARRINHA!
Conhecemos o Zé Tengarrinha no MDP/CDE, logo a seguir ao 25 de ABRIL. A recordação que guardamos desses tempos, e que até hoje não se alterou, é a de uma relação feita de cordialidade, de respeito, é a de uma direcção política que estimulava a apresentação de pontos de vista que tranquilamente dialogavam, que educadamente se contrapunham. O discorrer dos argumentos, o ouvir com atenção o outro, o opor serenamente outro modo de pensar, parece-nos ser um traço do modo de proceder e de ser do Zé Tengarrinha. Nunca a exacerbação tomou o lugar da exposição paciente de factos, de razões para agir assim e não diferentemente, sem nunca perder de vista a necessária unidade.
A unidade, unir a esquerda, foi uma ideia muito forte vinda também desses tempos, talvez nem sempre posta em prática. Saber que a unidade tem fundamento na diversidade, que é necessário o esforço para unir justamente porque não pensamos todos o mesmo acerca das mesmas coisas, foi uma aprendizagem que então aí iniciámos.

São ideias e valores que ainda hoje partilhamos e que nos movem e mobilizam. Recordar que foi no MDP/CDE, no convívio com amigos como o Zé Tengarrinha, na vivência que esses homens e mulheres resistentes dos tempos de antes nos proporcionaram que também se fez a nossa formação política, é obrigar-nos a dizer hoje ao Zé Tengarrinha que ainda bem que o conhecemos. Foi um prazer, Professor."
Ana Carita
Lurdes Silva
Manuela Esteves

terça-feira, 2 de março de 2010

Daqui a Bombaim e Cabul...




Enquanto o país se desdobra em dificuldades económicas, com um desemprego elevadissimo, empresas falidas e medidas de austeridade indispensáveis ao esforço de compensação das contas públicas e os media persistem na busca incessante de matéria sensacionalista, o mundo dos cidadãos busca respostas para a complexidade dos dias... Felizmente, existe a literatura que é, sem dúvida, como aliás, sempre foi!, uma ajuda inestimável para se alcançar esse fim. A multiculturalidade e as relações internacionais trazem, actualmente, à informação e à opinião, uma torrente plural de dados que, cruzados, nos dão da realidade uma imagem que a não esgota... incorre-se assim, cada vez mais, em resultado de uma globalização que se pretendeu transparente, no risco de tornarmos mais opaca a verdade e de ficarmos cada vez mais alienados de representações que são construídas intencionalmente com objectivos obscuros que se podem resumir na percepção dos fenómenos de manipulação da opinião pública de que podemos escapar, quase paradoxalmente, através da ficção. Há pouco tempo citei aqui uma das frases importantes da obra de Aravind Adiga "O Tigre Branco" (ed. Presença), uma das obras que considero, nos dias que correm, ter o poder de nos devolver à realidade... Entretanto, hoje, lembrei-me de um outro livro fascinante pela autenticidade narrativa com que foi escrito e que transparece à leitura. Trata-se de: "O Menino de Cabul" de Khaled Hosseini, editado pela Relógio d'Água, já há uns anos (2005). O primeiro tem como cenário a Índia e o segundo o Afeganistão... e se ambos nos aproximam de realidades culturais diversas, ambos nos permitem, pelo distanciamento que os seus contextos imprimem à nossa leitura, uma aproximação valiosa ao mundo dos cidadãos de outros lugares que, na informação mediática que conhecemos, nos são dados como lugares onde valores e práticas nos parecem formas alheias à nossa visão do mundo... mas que, afinal, nos devolvem a imagem do que somos como indivíduos integrados em sociedades que nos moldam... muito mais iguais, muito mais compreensíveis, muito mais racionalmente próximos uns dos outros, filhos todos de uma mesma Humanidade que, por todo o lado, a lógica do poder determina e manipula, alheia, ela sim, à justiça, à equidade e à verdade, deixando-nos reféns de representações de um mundo ideal que permanece aí mesmo, no mundo das ideias, como mero referencial de acção e de luta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Leituras Cruzadas

O Leituras Cruzadas de hoje tem um único tema: trata-se de um pseudo-caso que se constitui como uma vergonha, a corroborar a lógica mercantil de produção noticiosa com que Portugal se vê, frequentemente, agraciado. Refiro-me ao que ontem foi noticiado pelo Correio da Manhã e que, por ter integrado a equipa do Simplex, não posso deixar de comentar - designadamente pela gravidade que significa o levantar de suspeições relativas a eventuais pagamentos a pessoas que se limitaram a colaborar num projecto, colectivo e assumido, de exercício da cidadania, a saber, um blogue que acompanhou a campanha eleitoral como espaço de opinião.
Contudo, este Leituras Cruzadas justifica-se, acima de tudo, porque considero inadmissível:
1 - o julgamento em praça pública, feito de forma abusiva e generalizada, a cidadãos livres que utilizam a blogosfera para exercer a liberdade de expressão e opinião;
2 - o envolvimento abusivo de pessoas com responsabilidades públicas que, "a reboque" de informalidades que comprometem apenas os seus intervenientes directos, são evocados e associados a factos que, provavelmente, nem lhes mereceram atenção;
3 - a denúncia provocada pela vaidade e a vontade de atrair a atenção, à revelia da ética, do bom-senso e da justiça (que, aliás, me fizera abandonar outro blogue colectivo, a saber, A Regra do Jogo quando conversas privadas e acusações públicas se tornaram incontornavelmente persistentes e gravosas, numa escalada de violência insustentável para a erroneamente evocada ética republicana).
Não podiam, por tudo isto, deixar de se pronunciar os que, co-autores do Simplex, se sentiram, como eu, lesados por toda esta irresponsabilidade infame, resultante de uma inaceitável promiscuidade entre vaidade, ausência de ética e especulação mediática e que reagiram, escrevendo textos de que vale a pena destacar:
Da Ética - Luís Novaes Tito in A Barbearia do Senhor Luís
A Central e A Citação - Eduardo Pitta in Da Literatura
A Ética do Bufo - Rogério Costa Pereira in Jugular

sábado, 14 de novembro de 2009

Da Manipulação Informativa à Ficção Literária como Catarse




Informação, contra-informação, suspeitas, factos, comentários e opiniões fazem o conhecimento? Não. E aproximam-nos da realidade?... apenas e só na medida em que forem epistemologicamente consideradas as afirmações e os seus contextos. Eis a razão porque, apenas se pudessemos dedicar todo o nosso tempo ao tratamento multidisciplinar das notícias e dos textos que chegam ao conhecimento público, configurando a opinião mediática que nos é apresentada como colectiva, poderiamos confiar, sem reservas, no que se diz e/ou no seu contraditório. Porém, hoje mais do que nunca, todos avocam a liberdade para usar o espaço público e todos evocam as suas fontes como fidedignas ainda que, em grande parte, sejam anónimas, pelo menos do ponto de vista do leitor-cidadão. A democracia surge assim, aparentemente, como um espaço aberto e não-restritivo de exercício da circulação informativa... sem que, proporcionalmente à sua importância, seja analisado ou discutido com seriedade, o problema central da sua legitimação: o poder económico em que assenta a propriedade dos media e as esferas políticas que nele desenvolvem a sua intervenção garantindo, exclusivamente, a gestão manipulada do teor do que vai emergindo, em função de interesses individuais ou de grupo. Não interessa nada o interesse nacional a não ser aquele que afecta os lobbies, formais ou informais, como não interessa o interesse colectivo de cidadãos e populações... essa é, afinal, a razão que justifica a dispersão da "causa pública" na política, que nos obriga a viver rodeados de uma poluição de intrigas inter-partidárias vestidas das mais diversas roupagens, com rostos de oportunidade que nos afastam do que sabemos ser essencial: combater a pobreza, o desemprego e a discriminação, criar riqueza, emprego, aumentar a produtividade, criar confiança nos consumidores e consolidar a confiança nas instituições democráticas. Porém, cada vez mais, em Portugal, Economia, Justiça, Trabalho, Segurança Social, Saúde, Educação e Cultura, parecem minimizar as causas, dispersando-se pelas consequências casuísticas de situações que nem deveriam existir se a sociedade formasse, na família, na escola, nos meios de comunicação social e no espaço público, pessoas capazes de resistir às tentações facilitistas de ascensão social pelo recurso a meios muito próximos do acesso ao dinheiro, mais ou menos, "ilícito" - conceito que, entre nós, radica na negligência de costumes e práticas relativamente a valores éticos de cidadania... continua, também por isso, a ser catártica a literatura, clássica e contemporânea, com a qual avaliamos e aferimos padrões do comportamento social, sem o condicionalismo da responsabilidade que sobre nós pesa quando pensamos o enquadramento em que se move o nosso quotidiano... Stieg Larsson, jornalista sueco, criou, em 2004, uma metáfora interessante das sociedades ocidentais contemporâneas, numa trilogia aliciante intitulada "Millenium", cuja personagem principal diz a certa altura: "Não há inocentes. Há apenas diferentes graus de responsabilidade"... depois de entregar o livro ao editor, numa daquelas ironias da vida que a doença resolve desencadear, Stieg Larsson morreu... ... fica a obra... fascinante para quem gosta de um bom romance de ficção por muito se interessar pela realidade.

domingo, 1 de novembro de 2009

Um País na Idade do Armário...

"Portugal é um país de amadores" (Jorge de Sena in O Reino da Estupidez)... hoje, no programa Câmara Clara (RTP 2), dedicado a Jorge de Sena, foram convidados de Paula Moura Pinheiro, Jorge Vaz de Carvalho e o sempre extraordinário Eugénio Lisboa, intelectual por quem nutro uma admiração sincera, resultante do sentimento de libertação que provoca o seu desassombramento, lúcido e claro, sobre os objectos a propósito dos quais se pronuncia... Jorge de Sena era um desmistificador... aprendi-o quando me apaixonei pelos seus Estudos Camonianos... e a citação de Jorge de Sena que aqui reproduzo, materializa sempre, no meu imaginário, o retrato do país que somos, radiografia do espaço e das dinâmicas que no tempo vamos percepcionando e em que vamos, mais ou menos a contragosto mas sempre de boa-fé, participando. "Portugal é um país de amadores" escreveu, em 1961, o pensador Jorge de Sena... ainda é!... um país de amadores nas escolhas, nos critérios, nas metodologias e nas perspectivas em que se satisfaz com uma espécie de obediência cega à lógica do previsível, do seguro e do conforme... um país de amadores por se manter quase escolástico, quase canónico, quase, por certo, apenas, cartesiano... um país de amadores por querer medir o futuro com a exacta medida de uma proporcionalidade garantida pelo passado e que, sem ousar, conserva o presente arrumadinho, sem margem para a desordem da criatividade de que irrompe a inovação, a partir da qual se instalam os ritmos da mudança... um país de amadores, por certo, porque nas suas representações se equivalem diversidades, diferenças e inseguranças e onde se pretende que, em vez de se correr, se marche para que se impeçam distinções inconvenientes ou comparações de competências e méritos que deixem de justificar opções assentes em laços de dependência corporativa... um país que se quer resumido às oportunidades do prevísivel e controlado, contrariando esse ímpeto que, em muita da literatura portuguesa, diz a verdade, o sonho e a utopia... um país que recusa a lisura com medo de ficar nú... um país que tem sempre juízos de valor para classificar os que falam, antes mesmo de os escutar... um país que grita sem razão num quarto fechado com medo do mundo, com medo de si e com medo de perder a ordem em que se auto-representa, num esforço de auto-reconhecimento e auto-valorização da adequação dos seus meios, esquecendo que o hábito lhe inquina o raciocínio... um país que tem a História e a Vida arrumadas em pequenas gavetas, ordenadas e rotuladas, é um país que se recusa a sair do armário... por isso, talvez por tudo isto e por tudo o mais o que lhe sabemos poder somar, Jorge de Sena tenha dito, com propriedade: "Portugal é um país de amadores"... o presente aí está para o comprovarmos e, se restarem dúvidas, aí estará, infelizmente!, o futuro, para o confirmar...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Leituras Cruzadas...

a) Nota Prévia - a propósito de "Leituras": Aquele Abraço ao Jugular pelo seu Aniversário! Votos de uma Vida Feliz e Longa!
b) Leituras Cruzadas:
Enquanto o país empobrece, apesar dos indicadores contrários e dos sinais que a própria Comissão Europeia vai emitindo ao reconhecer a existência de 79 milhões de cidadãos em situação de risco agravado e propondo 2010 como Ano Europeu Contra a Pobreza, vamos assistindo à imobilidade cívica dos media e dos sociológos que continuam sem vir a público explicar que os indicadores económicos não coincidem com a dinâmica da realidade social e que a redução do número de registos de situações carenciadas não implica a estagnação social do fenómeno mas, apenas, a diminuição de casos estruturais evidenciáveis nas estatísticas que mais não são do que referências que se perspectivam a si próprias como relativas e indiciadoras... entretanto, ao invés de procurarem ideias consensuais que possam funcionar como plataformas de viabilização para a estabilidade governativa, os partidos continuam fechados sobre si mesmos (apesar dos esforços de alguns de que foi exemplo a iniciativa que o Vidas Alternativas tem a gentileza de referir) , numa auto-representação isolacionista e auto-fágica que pode servir a muitos interesses mas não serve, efectiva e eficazmente, a população. Como constata Francisco Clamote no Terra dos Espantos, ficam políticos e meios de comunicação a fantasiar sobre as dificuldades que podem provocar uns aos outros ou em manobras de auto-promoção, diletantes e eufemisticas (leia-se o texto de Carlos Santos no Valor das Ideias), contestando apenas o que, nem sequer é contestável (vale a pena ler a referência ilustrativa no caso exposto por Raimundo Narciso no PuxaPalavra) ou relativizando o que valeria a pena esclarecer, nomeadamente pelo montante em que foi burlado o Estado português (leia-se o texto de Eduardo Graça no Absorto).
Entretanto, mesmo as boas notícias ficam na gaveta talvez para se não valorizar o bom trabalho que ainda vamos fazendo, apesar das contingências (leiam-se os textos de Luís Novaes Tito no A Regra do Jogo e de Pedro Azevedo Peres no Forum Palestina) e as que mais nos deviam envergonhar (de que podemos ler no SOS Racismo um índice sintomático) ficam esquecidas como se de fait-divers se tratasse... Crise da democracia, dos media, da sociedade, da cultura política?!... enquanto se procuram respostas vamos lendo para continuar a aprender, pensando e lavando a alma... por exemplo, a excelente sugestão de Rui Pena Pires no Canhoto ou a poesia de Rui Herbon no Absinto...