sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sons Femininos...


... hoje, na voz inconfundível de Simone, o tema: "Pão e Poesia" :)

Leituras Cruzadas

Dos 36 anos do 25 de Abril de 1974 que celebrámos no passado domingo, vale a pena destacar os escritos de A.Pedro Correia no Aventar, de Manuela Araújo no Sustentabilidade é Acção e de Miguel Abrantes no Câmara Corporativa... num tempo em que a informação e a demagogia se cruzam, entre razões e fé, no permanente esforço de construção de resposta para as complexidades e perplexidades humanas, vale a pena, reflectir no contributo crítico com que João Tunes no Água Lisa nos faz pensar e na cáustica problematização que MFerrer nos proporciona no Homem ao Mar... porque, na verdade, é cada vez mais urgente a valorização do pensar pela nossa própria cabeça (leiam-se os textos de Ricardo Vasconcelos no Activismo de Sofá, de Mário Teixeira no Aventar, de P.Krugman citado por Miguel Abrantes no Câmara Corporativa e de Osvaldo Castro no Carta a Garcia) para, com a excelência do bom humor (veja-se a delícia publicada no Mainstreet) e da boa reflexão (leia-se o apontamento de António Carlos Valera no Irrealidade Prodigiosa), nos serem menos pesados os dias deste tentador Verão que, ansioso, tem andado a assaltar a Primavera.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Das obras públicas ao subsídio de desemprego...

Na sequência do anúncio da revisão dos projectos de obras públicas, o Ministro da tutela, António Mendonça, reiterou o avanço das obras do aeroporto de Lisboa e da linha de TGV, cujo impacto socio-económico, no contexto da sociedade globalizada e caracterizada pela mobilidade de recursos, efectivamente, se justifica - até porque seria altamente contraproducente para a lógica dos mercados internacionais um retrocesso em compromissos internacionais desta natureza. Contudo, independentemente de tudo quanto há a fazer e a corrigir, vale a pena destacar o esclarecimento que hoje foi feito pelo Secretário de Estado do Emprego sobre a redução dos prestações sociais não-contributivas, nomeadamente, do subsídio de desemprego que tanta polémica tem, justamente, suscitado na sociedade portuguesa que tal redução se não aplica aos cidadãos que recebem menos de 700 euros!... É caso para dizer, do mal o menos!... não serão por isso, os que são, de facto mais pobres que serão mais penalizados!

Emergência e Crise - Actuar em Conformidade


Apesar da estratégia das agências de rating ser altamente duvidosa, o facto é que a designada "turbulência dos mercados" afecta de forma importante as economias nacionais. É por isso que o anúncio feito hoje pelo Ministro das Finanças, à saída do Conselho de Ministros, sobre a disponibilidade do Governo para a reavaliação de todas as obras públicas cujos trabalhos ainda se não iniciaram e cujos projectos estavam em cima da mesa, denota a sensatez e razoabilidade de uma concertação político-social indispensável à procura de um reequilíbrio das contas públicas e ao reconhecimento da eficácia justa da governação. São aliás resultados destes, indiscutivelmente ajustados à situação económica nacaional, que se esperam do encontro entre o Governo e o maior partido da oposição... apesar de, naturalmente!, ser desejável, que, nesta concertação, todos mas, mesmo todos!, os partidos políticos portugueses se empenhem - questão que cada um deve equacionar, optando pelo interesse nacional e/ou pelos interesses próprios.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Urgências (3) - Profissionais nas Urgências e Dignidade do SNS



Apesar da precariedade laboral que também atinge os profissionais de saúde e da múltipla factorialidade do seu enquadramento (privatização dos serviços de saúde, desinvestimento no SNS, redução de custos com pessoal com total liberalização das suas relações contratuais e a sua consequente mobilidade), o problema das urgências hospitalares coloca-se de um outro modo que é preciso não escamotear e que, de igual modo, afecta decisivamente a qualidade dos serviços de saúde portugueses! Refiro-me designadamente ao elevadissimo número de médicos que solicitaram e ansiosamente aguardam pela reforma antecipada, cansados e esgotados da falta de qualidade das suas condições de trabalho... porque, por um lado, é inadmissível que profissionais de qualidade, formados no contexto de um dos melhores Sistemas Nacionais de Saúde, com uma experiência médica que nunca deveria ter deixado de integrar o percurso médico (a saber, o "trabalho de terreno" proporcionado pela prática médica à periferia nos termos holísticos em que foi praticada nos primeiros tempos do SNS) sejam compelidos a aderir à reforma antecipada, criada com o objectivo de reforçar a liberalização dos serviços no sector; por outro lado, porque a lógica dos médicos de família continua ineficaz de tal modo que, daqui a pouco tempo, se forem realizados estudos rigorosos sobre o impacto social dos serviços de saúde verificar-se-ão retrocessos sérios na efectiva igualdade de acesso à qualidade dos serviços e na qualidade de vida das pessoas. Finalmente, este desinvestimento no SNS e esta liberalização de serviços reforça o erro estrutural das políticas de combate ao desemprego e de criação de emprego por se aproximar da lógica da precariedade a um ponto tal que lembra, como referi no post anterior, a política dos call-centers e, mais grave ainda!, desresponsabiliza os médicos da prática dos seus actos (um dos efeitos da contratualização das administrações hospitalares através de empresas, cujos recursos humanos prestam serviços sem sequer poderem emitir receitas médicas assinadas/validadas com o seu próprio nome e consequente identificação da respectiva cédula profissional)... Contudo, decerto por necessidade mas, sem dúvida, muito louvável, foi a decisão de, nos Serviços de Urgência dos Hospitais de Santa Maria, São José e Curry Cabral serem contratados médicos com grande experiência profissional e perfil adequado aos serviços para integrar equipas permanentes de atendimento que, nos termos do Protocolo de Manchester (triagem por gravidade dos casos), possam responder às necessidades dos cidadãos que recorrem justamente a estes serviços, aflitos e doentes sem que, necessariamente, sejam casos - pelo menos, no imediato! - considerados prioritários, ou seja, "entre a vida e a morte"!

Urgências (2) - Do Desemprego à Saúde a Soldo


Para fazer a ligação ao post anterior, começo por referir que os call-centers são o mais flagrante exemplo do erro estrutural das políticas de emprego... não apenas pelo que implicam e significam ao nível da desumanização dos serviços (daí a imagem que escolhi para ilustrar este apontamento e que, como muitos reconhecerão, é uma cena do filme "Nas Nuvens") com consequências que podem ser gravissimas para os utentes e para os próprios trabalhadores mas, também, porque a precariedade contratual dos seus funcionários em nada contribui para a sustentabilidade social e para o aumento da riqueza ou da produção nacional... claro que têm a vantagem de permitir a quem aí trabalha, não estar, pelo menos temporariamente, desempregado mas, esse é um efeito perene que não integra a criação de emprego, nem concorre para a segurança ou a estabilidade quer dos cidadãos, quer das famílias (factor decisivo para a dinâmica saudável das sociedades de consumo)... lembremos-nos aliás, a este propósito, que na Índia, onde se situam os maiores call-centers do mundo, os seus trabalhadores são cidadãos que vivem, de acordo com os padrões que, por ora, ainda temos no ocidente, de forma paupérrima! Contudo, apesar de tudo isto ser uma evidência, a lógica deste capitalismo desenfreado, feito de um neo-liberalismo que se auto-representa como complacente, valorizando a criação do trabalho precário como uma benesse, chegou ao ponto extremo de, sob uma ideologia perversa e pervertida, desenvolver empresas que promovem o trabalho temporário, minimizando o quanto concorrem para consolidar a realidade da rotatividade e da exploração dos trabalhadores... e, para cúmulo, atingiu agora sectores estruturais, especializados e que põem em risco direitos fundamentais dos cidadãos, da educação à saúde! As recentes notícias sobre os desempenhos médicos nos serviços de urgências hospitalares, contratualizados através de empresas que, a soldo, vendem serviços de pessoas licenciadas em Medicina às administrações hospitalares é um erro grave e um risco sério para a segurança dos cidadãos nos serviços de saúde... é verdade que a Ordem dos Médicos está atenta mas, é urgente intervir uma vez que, no nosso país, há muitos agentes políticos disponíveis para apoiar privatizações a todo o custo e a qualquer preço - contrariamente ao que constatamos ser o grande esforço e a grande vitória interna de Barack Obama nos EUA...

Urgências (1) - Da Tecnologia às Finanças e do Desemprego à Sustentabilidade


Um estudo histórico dos processos de resistência à mudança e à inovação denotaria, em determinadas conjunturas, opções políticas assentes no rejeitar da introdução de nova tecnologia por razões que se prendem com a libertação de mão-de-obra e, consequentemente, com a subida do grau de risco da revolta social... e se é a Revolução Industrial que marca o fim deste cauteloso processo de gestão por razões que se prendem com a criação massiva de postos de trabalho, o capitalismo, face aos lucros que reconhecemos terem resultado deste investimento nas sociedades excedentárias que se aproximaram do que se chamou "sociedades da abundância", nunca mais deixou de equacionar estrategicamente o problema da mão-de-obra, a não ser na perspectiva na redução dos seus custos... o problema chegou às sociedades contemporâneas, caracterizando-as como sociedades criadoras de desemprego!... A irracionalidade da lógica social dos nossos dias que minimiza, de facto, o factor humano, radica por isso, no paradoxo a que conduziram os sentidos contrários da evolução dos modelos financeiros e económicos... e só politicamente pode ter solução!... quando os políticos voltarem a reconhecer a importância vital desse factor humano e o fundamento efectivo dos próprios sistemas económicos e financeiros: melhorar a condições de vida dos cidadãos e promover, na prática, a sustentabilidade social.

domingo, 25 de abril de 2010

Em resumo...


Era mesmo isto o que vos queria dizer hoje, 25 de Abril de 2010: AQUI...

... além disto que, se me permitem, destaco, pedindo desculpa pela eventual imodéstia que possa reflectir mas, cujo risco de avaliação me permito correr, dada a importância que reconheço à problemática AQUI evocada.

Para as Crianças do Meu País ...



... um trabalho realizado por uma EB1 e divulgado no YouTube!
Pela memória, pelo exemplo e pelo esforço: 25 de Abril, Sempre!

O princípio do fim da ditadura ...

sábado, 24 de abril de 2010

MFA - A Aurora de Abril...

Vítimas da Memória da Ditadura aqui tão perto - Baltazar Garzón!




Faltam pouco mais de 90 m para se assinalar a hora em que, há 36 anos atrás, os militares de Abril levaram a cabo o arrojado empreendimento de derrubar uma ditadura com 48 anos. Vale por isso a pena aqui lembrar os eventos que se lhe associam de forma quer analógica, simbólica ou objectiva... e na sequência do post anterior não posso deixar de referir o perigo que advém da ausência de uma evocação da memória, capaz de, sob a narrativa multimedia de uma explicação pedagógica, consistente e insistente, desenvolver nas jovens gerações (crianças, adolescentes e jovens adultos, emigrantes ou não) a admiração e o respeito pelas lutas que significam e arrastam a conquista da Liberdade! ... De outro modo, ser-lhes-á vedada a compreensão do presente!... Não, afirmá-lo não é um lugar comum!... E, a título de exemplo, refiro um caso recente, ocorrido aqui ao lado, em Espanha, "tierra de nuestros hermanos", que combateu corajosamente a ditadura franquista cujos crimes se prolongam, para além da sangrenta Guerra Civil (que registou a ocorrência das primeiras Brigadas Revolucionárias de apoio aos opositores do regime liderado pelo tétrico Generalissimo Franco que mandava pendurar, no alto dos montes povoados do interior do território do seu país, os cidadãos fuzilados com o objectivo de servirem de exemplo dissuasor)... Falo, naturalmente, do Juíz Baltazar Garzón, cuja personalidade e trabalho de uma vida serão um dos modelos europeus (como o foi, noutro contexto, a operação "Mãos Limpas" liderada por António di Pietro em Itália) da luta contra a corrupção. E se evoco Baltazar Garzón é, não só por hoje ter sido organizada, também em Lisboa, uma manifestação de apoio a este Homem de Justiça que levou a Tribunal, ao fim de décadas de silêncio e branqueamento, o julgamento dos Crimes Contra a Humanidade cometidos pelo fascismo espanhol mas, acima de tudo, por considerar grave que, aos olhos das pessoas, em particular dos mais novos, o afastamento do Juiz Baltazar Garzón e a sua condenação por alegadamente ter transcendido o domínio da sua competência no que respeita à acusação dos fascistas que perpetraram tais crimes seja incompreensível, pouco tempo depois da sua actuação contra o terrorismo, ter sido, felizmente!, altamente mediatizada também em Portugal. O que está em causa é que os jovens percebam que a Justiça é uma invenção humana e que o Direito assume formas susceptíveis de praticar a injustiça!... e que, quando assim é, é, mais do que nunca, um dever cívico a luta pelos Direitos Humanos, pela Justiça e pela Liberdade!... e que foi isso que foi feito em Portugal, com o 25 de Abril - uma das maiores lições que podemos transmitir às gerações que se nos seguem!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Da Justiça e da Extinção do Poder Absoluto... dos Juízes




O ridículo mata - diz-se!... mata e assusta - digo eu! De facto, a afirmação de António Martins, na qualidade de representante da Associação Sindical dos Juízes, é assustadora e, mais do que isso, inadmissível! num Estado de Direito democrático. São, por isso, mais do que legítimas as afirmações do Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto e as manifestações de indignação, designadamente, de Ricardo Sá Fernandes. Horroriza-me pensar que o representante dos Magistrados e os que subscrevem as suas opiniões ascendam ao poder político, tal como me horroriza o facto de ter invocado uma espécie de direito à impunidade dos Juízes porque, para além da impossibilidade teórica de, em democracia, se proibir o direito de expressão da opinião pública ou profissional, há sentenças incorrectas, erradas e injustas... em última análise, porque os Juízes não são imunes à corrupção ou ao tráfico de influências!... António Martins prestou um mau serviço à Justiça portuguesa e aos Magistrados! Só espero que não venha agora, propôr a criação de uma Alta Autoridade de Regulação da Justiça!!! - mas, pela prepotência ideológica que se adivinha subjacente às suas declarações, não me surpreenderia!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Um Canto à Liberdade - O Hino de Caxias


... quando nos aproximamos da comemoração do 36º aniversário do 25 de Abril de 1974, cumpre relembrar o esforço colectivo pela conquista da Liberdade!... das prisões políticas que se encheram às mãos da PIDE e da ditadura, o grito de resistência fez-se também de cantos com que os homens e as mulheres fizeram estremecer o Forte de Caxias e com que estremece ainda a alma dos amigos, companheiros e camaradas solidários que conheceram e respeitam a memória e o exemplo.

"Pão" rima com revisão, comissão ou produção?


É uma pergunta pertinente no quadro de uma tão grande fragilidade económica como a que vivemos... até porque, voz populi dixit!, somos um país de poetas - ou não?... A verdade é que, face à consciência da imperiosa necessidade de reconstruir o aparelho produtivo nacional (ou será que se trata, isso sim, de o construir?) vemos toda a oposição concentrada em discutir e voltar a discutir problemas, rumores, suspeitas e factos, criando e multiplicando comissões ora de análise, ora de inquérito... sim, claro que consideramos que as decisões políticas devem ser transparentes e que devemos exercer o direito de esclarecer as dúvidas que se nos colocam mas, deixar que o trabalho político e consequentemente, a agenda mediática se resuma a este tipo de questões é, no mínimo, empobrecedor e, em última análise, lesivo do interesse nacional... na mesma lógica se inscreve a evocação da revisão constitucional cujo maior erro reside no facto do seu argumentário justificativo assentar no reeditar das velhas teses liberais que, com a ainda recente crise financeira internacional, perderam todo o reconhecimento público e intelectual no que respeita à sua validade. Sem a revitalização e redinamização da economia nacional, Portugal não sairá de um sistemático encadeamento de crises que, cedo ou tarde, re-agravando a dimensão do endividamento público, nos não permitirá sair do "ponto zero" a que, ciclicamente, voltamos... por isso, é caso para perguntar se a dimensão estético-literária dos nossos políticos anulou a capacidade de auto-avaliação dos seus desempenhos, razão que justificaria o investimento em comissões e revisões em detrimento de um efectivo empenho na resolução dos problemas do desemprego, do emprego, da produtividade e da produção que, incontornavelmente, definem e determinam a qualidade das condições de vida dos cidadãos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Leituras Cruzadas...

Enquanto se prepara em Portugal a visita do Papa, corre a informação (ver JMCorreia-Pinto no Politeia) e a análise de 5 anos de pontificado de Bento XVI (ver Rui Bebiano no A Terceira Noite) que pouco efeito terá no impacto social dessa visita e na sua cobertura mediática, por razões que decorrem de imperativos culturais estruturais (leia-se o texto de Nuno Sotto Mayor Ferrão no Crónicas do Professor Ferrão) que concorrem para a inflação das redes sociais (veja-se a observação de Valupi no Aspirina B), deixando à margem a consideração que, de facto, nos deveriam merecer factos e juízos preocupantes, reveladores (leiam-se os textos de João Abel Freitas no PuxaPalavra e de Rui Herbon no Jugular). E enquanto aguardamos que as lições cívicas do passado (leia-se Osvaldo Castro no Carta a Garcia) reeditem a capacidade de intervenção das pessoas que não podem agora invocar a ausência de liberdade como justificativo para a anomia social (vale a pena ler as notícias recentes do SOS Racismo, o texto de António Carlos Valera no Irrealidade Prodigiosa e também a alusão de Ana Vidigal no Jugular), vale a pena ouvir partilhar a nossa atenção com Fernando Cardoso no Ayyappa Express.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ser Solidário...


... mensagens de sempre... hoje, de José Mário Branco...

domingo, 18 de abril de 2010

Surpresa? ... ou talvez não?


Não sei mas, se os afectos significam alguma coisa politicamente, então, este abraço é uma boa notícia (Ver AQUI).

O Tempo... segundo...


... David Gilmour, dos Pink Floyd e agora, a solo... "Time"... para todos os Seguidores do A Nossa Candeia e com um grande abraço amigo de saudades à recém-chegada e muito amiga Isabel Rodrigues!

sábado, 17 de abril de 2010

Uma história de patriotismo...

Tem pouco mais de 60 anos. Sofre de amnésia resultante de um trauma militar... é um homem bom que alega não se lembrar de metade da sua vida e se preocupa com isso, tentando levar os dias, a vida e o trabalho da forma mais pacífica possível. É solidário. Gosta de todos os colegas e todos gostam dele. Idiossincracias à parte, a sua proximidade da vivência rural, apesar dos muitos anos em espaço urbano, fizeram dele um caso singular. Trata, com respeito e ternura, por "meninas" as suas colegas que, quando o assunto é profissional e lhe causa perplexidade, passam a ser "doutoras"; aos colegas, homens, trata-os como camaradas de tropa. Diz sempre: "Bom-dia, boa-tarde" em jeito de cumprimento, a sorrir e, às vezes, por entusiasmo ou por nervosismo, bebe "o seu copito" sem consequências sociais de qualquer género sem ser a vontade de partilhar a alegria ou de "controlar os nervos". Nunca se excede. Pensa e enuncia as suas críticas sociais num misto de confusão ideológica. É justo e, na maior parte das vezes, certeiro na profundidade dos seus breves comentários emitidos em tom passageiro... O seu maior prazer é almoçar com os amigos na sede dos Deficientes das Forças Armadas onde cada acontecimento é, por ele, sentido religiosamente. Gosta de me contar esses encontros e sabe que eu percebo um bocadinho dos códigos e das regras do seu mundo... Um destes dias perguntou-me: "Oh doutora, mas a gente somos obrigados a declarar os poços?"... eu, surpreendida com a pergunta inesperada a meio do dia, respondi: "Não sei... penso que, tratando-se de um furo simples, não mas, se fôr mesmo um poço, é possível que sim, que seja obrigatório" e ele, apreensivo, retorquiu: "É um poço... daqueles redondos, com pedra no bordo mas, se o terreno é meu e está registado..."... "pois - retorqui- não tenho certezas... é melhor informar-se bem, amigo"... Depois desta inconclusiva troca de palavras, fui almoçar e, sem me aperceber, fiquei preocupada com a sua apreensão por saber a importância que, para ele, teria o problema. Quando regressei do almoço, em tom de brincadeira, disse-lhe: "Então, o poço já está registado?"... ele riu-se, com aquele sorriso saudável de homem sério que me faz sorrir a alma... e talvez por isso e por não querer que se enerve pelo sofrimento que sei que lhe causam as dúvidas, dei por mim a dizer: "Sabe? Talvez seja mesmo necessário... porque "eles", no meio militar, precisam de conhecer todos os sítios onde há água... e esse registo pode servir também para isso... não sei... estou a pensar em voz alta"... ele sorriu, encantado! Eu tinha dado sentido a uma obrigação absurda! Nem eu nem ele tinhamos certezas mas, essa possibilidade legitimava-lhe o esforço!... É um cidadão! ... e o seu patriotismo é qualquer coisa que dificilmente seria perceptível aos que tanto falam em patriotismo! Mais uma vez, este homem simples, na sua forma de ver o mundo, fez-me feliz.