sábado, 2 de abril de 2011

Programas e Listas - a prioridade pré-eleitoral que configura o futuro...


Com eleições à vista, seria útil aos partidos políticos uma reflexão interna, de carácter introspectivo e estratégico, sem a qual o país continuará na senda das rotas sem destino, ditadas pelas fugas repentinas às tempestades e a flutuação negligente que assenta numa qualquer crença de um tipo de providência, divina, religiosa, mística ou, simplesmente, preguiçosa e arrogante. Falo não só da imperativa necessidade de enumeração de medidas concretas, com objectivos, metas, orçamentos e avaliação de expectativas em relação a cada uma (contenção da despesa e descrição descriminada das formas de investimento), capazes de dar uma resposta eficaz e simultânea ao problema da chamada "dívida soberana" mas, essencialmente (como alíás, bem destacou Lula da Silva na sua recente passagem por Lisboa ao referir a metodologia de recuperação económica com que geriu com um indesmentível sucesso o Brasil), de reforçar decisivamente o mercado interno ao nível da criação de emprego e da produção económica. Para além disso e de não menor importância, urgência e significado, os partidos políticos que, neste momento, devem estar em plena convulsão aguerrida no que à composição de listas eleitorais diz respeito, há uma opção política de natureza estratégica que deveria presidir à gestão de processo, sem a qual se deitará a perder o futuro, próximo e de médio prazo, da qualidade da vida política portuguesa. Refiro-me, naturalmente, à selecção qualitativa dessas mesmas listas... porque, diga-se em abono da verdade e da seriedade política, grande parte dos protagonistas que tendem a emergir -e até a determinar- o perfil das listas de candidatos está pejada de pequenos e medíocres interesses corporativos partidários, federativos e aparelhísticos, que privilegiam o "acerto de contas" do "deve e haver" dos favores que ninguém se esquece de cobrar nestas alturas e a que cedem os organizadores... em detrimento da qualidade profissional, política, técnica, ideológica e ética que é preciso privilegiar. É, por isso, fundamental, que os dirigentes de primeira linha dos aparelhos partidários desta democracia representativa em cujo regime vivemos, percebessem o que está em jogo e que compreendessem, por uma vez!, o que significa privilegiar o interesse nacional cuja defesa depende também destas aparentemente "pequenas" opções... de outra forma, continuarão a potenciar a exponencialidade da abstenção e a encher o Parlamento de vozes nulas e de figuras sem conteúdo... em prejuízo da Democracia, do País e dos Cidadãos.

16 comentários:

  1. Cara Ana Paula Fitas
    O seu post levanta questões mais do que oportunas e pertinentes. Mas parece-me que é apenas mais uma voz a pregar no deserto (penso eu) até pode ser que venha a ser ouvida. Subscrevo tudo até a pontuação.
    Deixo uma nota. No congresso do Partido (a poucos dias) que me parece ambos apoiarmos o numero de delegados é de 2.000 e tal. Delegados por inerência, são 700. Pois?!
    Abraço

    ResponderEliminar
  2. Fala do que falarei, a Democracia Aparente a que se refere Saramago. Que actos nos sobram, para além de votantes, nos mesmos de antes?

    ResponderEliminar
  3. Rodrigo... a gente prega no deserto na esperança que o vento leve pelas dunas o som, senão da nossa voz, ao menos do nosso sentir e da nossa razão... Obrigado pelas boas palavras, conhecedoras da - confrangedora, digamos assim?!- realidade de que encontramos refém a própria democracia...
    Grande abraço.

    ResponderEliminar
  4. Rogério,
    ... fico a aguardar... e mais não digo porque o tom da sua escrita, neste momento, transpira uma poesia que outras palavras arriscariam quebrar... obrigado!
    Grande abraço.

    ResponderEliminar
  5. Quer concretizar exemplos de mediocridade parlamentar? Assim poderemos votar confrontando as listas com exemplos concretos. O resto é uma vaga intenção cara APFitas...

    ResponderEliminar
  6. Cara Ana Paula,
    Concordo plenamente consigo.
    Toda a oposicao se preocupou simplesmente em derrubar o Governo sem pensar numa linha-mestra definida para o país, nem sequer se preocupar com os efeitos desta accao nos mercados financeiros.
    A meu ver, poucos quererao saber quem será o novo Primeiro Ministro e, seja ele quem for, irá tornar-se no bode expiatório dos problemas do país. Em clima de insatisfacao, a culpa é sempre desta figura.
    O que os portugueses querem é apenas isto: melhor qualidade de vida, mais e melhor saúde, mais e melhor justica. Mas isto nao vai lá com um Estado gordo e diabético a precisar constantemente de insulina para mais nao sei quantas entidades que se encontram à beira do abismo.
    Para minha tristeza nao se antevê ninguém que consiga por ordem na casa. É que nesta casa do Estado moram muito inquilinos que nao pagam renda, da Esquerda à Direita, e que se acomodaram nas mordomias de serem servidos com talheres de prata. E qualquer Primeiro Ministro que ouse ameacar o inquilino com despejo passará automaticamente a ser persona non grata lá no quintal dele. Mas vamos mais longe, exemplos reais nao devem faltar. Imaginemos que esse inquilino chega a ser despejado e atirado para a lama. Nao será preciso muito tempo até que se crie por despacho outro instrumento de soberania para dar refúgio a esse inquilino exemplar que sem grande dificuldade conseguiu anteriormente estoirar com o tecto da anterior habitacao. Depois, ainda, fala-se em revitalizar a economia: concedem-se apoios, cria-se investimento e automaticamente está-se a aumentar o produto interno bruto – parece tao simples, mas facto é que o sistema está pujado de sanguessugas que se alimentam deste modo de financiamento.
    Mas, voltando ao cerne da questao, nós, votantes, temos de fazer escolhas – com ou sem FMI, com ou sem coligacao à direita, à esquerda ou ao raio que os parta. Se nao houver um programa (que como assinala, ainda ninguém se preocupou em apresentar) que vá ao fundo de todas estas questoes, estaremos eternamente condenados a viver na cauda da Europa, do primeiro mundismo e eternamente dependentes do tempo que faz para o turismo.
    Um abraco e desculpe se me excedi em alguma coisa com este comentário.

    ResponderEliminar
  7. Bom dia, Ana Paula.

    Tem toda a razão. Mas se olharmos para o PS tem ainda mais, uma vez que na conjuntura actual um choque de qualidade no conjunto das suas listas de candidatos é um dos poucos indícios objectivos de modificação para melhor que o pode libertar do cerco a que está sujeito.

    Cordialmente,

    Rui Namorado

    ResponderEliminar
  8. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  9. Caro Anónimo,
    Como compreende, é mais justo deixar essa avaliação ao juízo crítico e analítico dos eleitores.

    ResponderEliminar
  10. Caro Ferreira, M.S.,
    Antes de mais, por favor, não peça desculpa pela dimensão do excelente comentário que aqui partilha por nele se reflectir, sintética e claramente, o que caracteriza o "estado da nação" ou "da arte" - se preferir... subscrevo e sei que somos muitos a subscrever o teor das suas lúcidas observações e, por esta razão, resta-me agradecer-lhe e enviar-lhe, com a consideração amiga de sempre, um abraço solidário.

    ResponderEliminar
  11. Bom-dia, caro Rui.
    Obrigado por ter honrado com a sua justa claridade a reflexão que aqui partilhei. De facto, a situação a que, nestes casos, o PS nos habituou no que a procedimentos, métodos e critérios diz respeita, deixa inquietos todos os que pretendem mais e melhor... e se me permite ler algumas entrelinhas do que aqui escreveu, deixe que acrescente que, a não haver alteração organizacional qualitativa neste momento, o PS perderá uma oportunidade -não direi "de ouro" mas, pelo menos, muito relevante! - no que à criação de efectivas condições de elevação do nível político-partidário se refere com consequências drásticas para a participação não só eleitoral mas cívico-política de que o país precisa para se libertar deste estado comatoso a que os funcionamentos "aparelhisticos" nos conduziram e a que parecem querer condenar a democracia representativa... Subscrevo, sem reservas, a feliz expressão que aqui utiliza ao falar em "choque de qualidade" e, sinceramente, acredito que é aí que reside a réstea de esperança de um regime que se pressente, cada vez mais, autofágico e etnocida.
    Um grande abraço, com a admiração que sempre me merece e a solidariedade que sempre me suscita.
    Bem-haja, Rui... pela honestidade, a sinceridade e a frontalidade inelutável que o caracteriza!

    ResponderEliminar
  12. Escalrecimento: o comentário aqui indicado como removido era uma repetição do comentário acima publicado, da autoria de Ferreira, M.S. a quem já respondi e que volto a agradecer.

    ResponderEliminar
  13. Cara Ana Paula,como sempre texto bem escrito e com questões pertinentes. A minha opinião e esta vale o que vale, é que os partidos devem consultar as bases, porque dos politicos de carreira estamos todos fartos. Já se viu ao longo dos anos que a politiquisse de carreira só resolve a situação dos politicos, deviamos exigir que se fosse mais fundo, que se consultasse o Povo.
    Abraço

    ResponderEliminar
  14. Caro Zéparafuso,
    ... a propósito da sua afirmação "A minha opinião é esta e vale o que vale", deixe que lhe diga que vale muito, meu amigo, vale muito!... e, se me permite, deixe que acrescente o que penso ser o problema: para se auto-alimentarem de ilusões de poder e garantirem a continuidade do seu efectivo exercício, os aparelhos políticos consideram que os militantes presentes nas suas reuniões são o povo!!!... quando, afinal!, regra geral, são os que dependem dos bastidores do exercício do poder dos seus pretensos e diplomaticamente autoritários dirigentes que exercem, à sua maneira (há quem lhe chame "caciquismo"!!), as formas ditatoriais de controle do poder e da opinião que descobriram ser susceptível de praticar em democracia...
    Grande abraço.

    ResponderEliminar
  15. Cara Ana Paula,

    Permita-me ser totalmente franco. Talvez o problema esteja ligeiramente desfocado. Na óptica de quem tem dois pratos numa balança: de um lado uma "carreira" em que a sua opinião usufrua de alguma respeitabilidade e se considere realizado; do outro um conjunto de valores que entende poder contribuir para difundir e promover na sociedade, desejavelmente com reflexo legislativo em função do debate democrático parlamentar. A questão é esta: na actual "trituradora" das máquinas partidárias, em que as lideranças tendem a ofuscar segundas opiniões, e em que de um putativo deputado a máquina que o integra na lista espera sobretudo concordância com a voz dominante do partido e pouca diversidade de pensamento ou autonomia de intervenção, que estímulo considera que pode a tal "gente de qualidade" ter para abandonar o recato da sua respeitabilidade e entrar num processo com uma ilusão bem intencionada de influência que na prática não passará disso mesmo?
    Não julga que o problema pode estar na incapacidade dos partidos se tornarem atractivos enquanto o seu modelo continuar a ser o de não aproveitamento pleno do potencial dos que lhes emprestam nome e tempo?
    Obrigado.

    ResponderEliminar
  16. Caro Anónimo,
    Obrigado pelo seu comentário que coloca, se me permite a expressão, o "dedo na ferida"!
    Bem-haja e volte sempre!

    ResponderEliminar