quarta-feira, 7 de abril de 2010

Do Ensino e da Aprendizagem do Ser - Uma Lição de Manuel Alegre...


"(...) E agora estão na praia, em Espinho. O miúdo que não suporta mangas curtas também embirra com o mar. O pai quer levá-lo a molhar os pés. A avó não deixa. Então o pai leva-o às cavalitas e desata a correr para as ondas, enquanto diz: Nós não temos medo do mar, nós não temos medo do mar.

E atira-se com o miúdo agarrado ao pescoço. Nada com ele assim pelo mar dentro. O miúdo chora, cada vez mais agarrado ao pescoço do pai que de súbito pára, levanta-o nos braços, solta uma gargalhada e diz:

- Nós não temos medo do mar.

Então o miúdo que se assustava com as ondas abraça o pai e repete com ele:

- Nós não temos medo do mar.

A avó chora. O pai passa-lhe a mão pela cabeça. E nós não temos medo do mar. (...)"

(Manuel Alegre in "O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua", ed. Dom Quixote)

Manuel Alegre, Hoje...


É já daqui a pouco, às 19.30h, no Palácio das Galveias, o lançamento do livro de Manuel Alegre "O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua"... entretanto, vale a pena ler AQUI e AQUI as suas mais recentes entrevistas, publicadas, respectivamente, nas revistas NS e LER.

terça-feira, 6 de abril de 2010

De Olivença a Valença - entre Identidades e Pertenças... Nacionais!







Em Valença estão expostas, nas janelas dos cidadãos, bandeiras espanholas... este é, independentemente do que possam querer interpretar todos os poderes, relativizando o facto e considerando que se esgota no assinalar infantil de um protesto, um dos mais sérios sinais do estado de confiança das populações relativamente ao seu sentimento de pertença social ou seja, no caso em análise, territorial e cultural... em causa, está o encerramento do SAP, Serviço de Atendimento Permanente dos Serviços de Saúde para a população de uma localidade fronteiriça cuja alternativa de recurso, face à nova disposição legal, obriga a que as situações de urgência perfaçam pelo menos mais 80 kms de distância entre ir e voltar até chegar a um hospital com competências de socorro a vítimas. A agravar a situação e a legitimar os protestos está, naturalmente, a situação de localização fronteiriça de Valença que bem conhece, pela sua proximidade da localidade espanhola de Tui, a eficácia dos serviços de saúde espanhóis. A seriedade do problema encontra precedentes reflexos nas reacções da população raiana do sul, quer em Elvas aquando do encerramento dos serviços de maternidade locais que justificam os nascimentos em Badajoz dos últimos anos, quer em Barrancos pela falta de apoio nos serviços de proximidade de toda a ordem... para já não falar em Olivença, claro!!!!!! ... diz o povo que: "para bom entendedor, meia-palavra basta"!... contudo, ao que a realidade nos deixa percepcionar, nem a alusão alerta, esclarece ou serve... para prevenir e evitar a desagregação nacional que se sente fracturar pelas arestas menos mediáticas mas, provavelmente, mais sensíveis e dignas de consideração!... Sem discernimento político atempado e avisado, o futuro ditará o impacto político-social da negligência presente, de que Olivença foi, provavelmente, o mais evidente e próximo sinal! ... De Olivença a Valença, entre as questões da identidade e da pertença "de jure" e "de factu"... eis, no mínimo, mais uma "achega", pelo menos, para a reflexão política... nacional! - e, porque não, dizê-lo... europeia?!

domingo, 4 de abril de 2010

Venham Ver...



É este o rosto de um povo que merece mais honestidade e transparência nos enredos da transição para a modernidade... é este o rosto de um povo que deu à luz os filhos apressados de uma vontade de enriquecer que não escutou os cuidados avisados de quem lhe aconselhara amadurecer... é este o rosto de um povo com vontade de crescer... e nós, as suas mãos e os olhos de uma Nação que se quer reconstruir para se ganhar, sem se perder...

(o vídeo que inspirou este meu texto e que aqui trago para vosso conhecimento e nossa partilha, foi encontrado por um feliz acaso no YouTube, foi feito com as extraordinárias fotografias de Luís Lobo Henriques enquadradas pela composição musical de Custódio Castelo no albúm "Múrmúrios" de Cristina Branco e a interpretação de "Chopin" por Pedro Burmester)

Depois da Páscoa...


Espero que tenham tido uma doce, alegre e feliz Páscoa. A sul, os dias viram crescer a extensão de azul do céu e o sol subiu de tom em luz e calor, fazendo os campos reflorir de roxos, verdes e amarelos enquanto a terra, apesar de pouco cultivada e arborizada, voltou a vestir a imagem da esperança que, felizmente, teima sempre, no nosso imaginário e no olhar com que a beleza persiste em ver o mundo, em nos devolver o sentido da poesia - presente na mensagem de todas as ressureições com que os homens ultrapassam as invernias dos seus descontentamentos, das crueldades e dos medos, reeditando a infinita e firme pulsão da vida. Agora, revitalizados pela Primavera que nos lava a alma, voltemos ao cumprimento dos dias, com serenidade e determinação para a continuidade da senda misteriosa e magnífica da constante reinvenção da nossa existência.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Duas Vozes...



Duas vozes maravilhosas para duas belissimas composições... Plácido Domingo em "Nessun Dorma" da ópera "Turandot" de Puccini e Anita Cerquetti em "Casta Diva" da ópera "Norma" de Bellini. Por estes e para estes dias... Aquele Abraço.
Até domingo!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Dois Pecados Sociais...


"(...) Economia sem Moral (...)

(...) Educação sem Carácter (...)" - Mahatma Gandhi

quarta-feira, 31 de março de 2010

Cumplicidades Políticas e Religiosas Contra os Direitos Humanos


... e assim, entre o silêncio, a omissão, a estratégia, a negligência e a relativização fenomenológica, as vítimas continuarão vítimas, enquanto culpados e cúmplices continuam, de uma ou de outra forma, no exercício do poder... O que significam transparência, democracia, honestidade, igualdade e liberdade face a estas realidades?... o mesmo que a moral e a ética significam para a demagogia e a autoridade política de tantas e tantas instituições religiosas?

Das águas turvas da nossa submersão...


Durante muito tempo, na sequência dos mitos pacificadores que a repressão política do Estado Novo promoveu, Portugal acreditou que era "um país de brandos costumes", letárgica e poeticamente "à beira-mar plantado"... depois, face à emergência da realidade socio-económica e política num contexto de liberdade de expressão, os portugueses começaram a percepcionar-se de forma diferente, ao ponto de valorizarem o que a expressão popular institucionalizou sob a conhecida designação do "chico-espertismo"... talvez por isso e apesar de tudo o que se estudou e compreendeu sobre o papel da "honra" e da "vergonha" nas sociedades mediterrânicas, hoje, os portugueses, no exercício de funções de alta responsabilidade continuam a deixar rastos de uma imagem vulgarmente empobrecedora e lesiva do prestígio do nosso país - o que, no actual contexto económico, concorre para a descredibilidade política não apenas internacional mas, acima de tudo, nacional. O caso dos submarinos encomendados à empresa alemã que hoje é notícia por maus motivos, é mais um contributo para este cômputo de "casos" com que, desde a Guerra do Iraque, nos temos internacionalizado (vale a pena ler aqui, aqui e aqui).

Ainda os Negócios Suspeitos...

A empresa a que o Estado português encomenda os submarinos noticiou hoje, no "Der Spiegel", que o negócio tem contornos obscuros. Surpreendente? ... já não!... Infelizmente, as dinâmicas suspeitas de total ausência de transparência, vão sendo comuns no nosso país... e desta vez a "brincadeira" vai custar 880 milhões de euros ao erário público... a ler AQUI.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Imperdoável Hipocrisia Católica...


... a dos que avocam autoridade moral para julgar o mundo e as suas práticas humanas (divórcio, aborto, uniões de facto, casamentos gay, educação sexual escolar, relações afectivo-sexuais extra-conjugais, preservativos e prevenção da SIDA, vida sexual na adolescência, homossexualidade e sei lá mais quantos outros exemplos se poderiam enumerar), quando protegem hediondas práticas criminosas, designadamente contra crianças. A exploração sexual das crianças e os abusos a que são submetidos os menores, evidenciam o quão imperdoável é a pedofilia, crime e doença que, ao ter por agentes, pessoas que recorrem ao uso do poder, da manipulação e do medo suscitado pelo seu status, configura a natureza dupla e tripla do próprio crime (pela evidência da sua premeditação, pela sua natureza e pela idade das vítimas). Pior que tudo, inqualificável e vergonhoso, é, para além do Papa ter discursado e presidido às cerimónias da Semana Santa, em Roma, tentando relativizar o seu próprio silêncio durante anos sobre o abuso sexual dos padres sobre as crianças em todo o mundo, a Igreja Católica ter permitido a existência e vigência do documento que, com autoria do então Cardeal Ratzinger, hoje Papa, AQUI podemos conhecer porque só agora chegou ao conhecimento público.

domingo, 28 de março de 2010

Os Rostos de uma Luta... pelos Direitos de Cidadania







No século XX aprofundou-se o saber sobre o papel das mulheres na construção dos modos de ser e de estar dos filhos e, a par da luta pelos direitos das mulheres, desenvolveu-se a reflexão que permitiu compreender até que ponto a própria mulher tem sido fundamental na reprodução dos estereotipos contra os quais tem lutado com esforço e dificuldades. O mundo da cultura e da etnologia é, na sociedade contemporânea, o reduto de causas, efeitos e potenciais factores resolutivos e recorrentes de grande parte dos problemas socio-políticos... A ideia ocorreu-me a propósito da chamada de atenção que vi no Carta a Garcia... ontem na Argentina, foram as Mães na Praça de Mayo; hoje, em Cuba, são as Damas de Blanco... e, nas suas expressões públicas, encontramos a mesma reivindicação sobre o direito à vida, em relação ao qual é indiscutível a sua autoridade e a universalidade do seu reconhecimento. Porque me lembrei de partilhar convosco este apontamento? Porque, subitamente, vi nestas manifestações um sinal de criatividade, justa e inteligente. Para quando no resto do mundo? Por certo, lá, no Afeganistão, na Palestina, em Israel, no Sudão ou na Somália, o sentir é o mesmo...

Indicadores de Percepção Pública

Uma expressão curial diz que "as sondagens valem o que valem"... assim é. Porém, vale a pena, independentemente do que podem significar no médio ou no longo prazo, dar atenção aos sinais - ao menos como regulação da nossa imagem da percepção pública... aqui ficam disponíveis (via Margens de Erro) os resultados comparáveis de Março no trabalho da Intercampus para o Rádio Clube e a TVI.

sábado, 27 de março de 2010

Mário Barradas no Dia Mundial do Teatro... em Évora


Associo-me hoje, 27 de Março, Dia Mundial do Teatro, à justa porque mais do que merecida homenagem do Cendrev a Mário Barradas. Escrevi aqui assim que soube da sua morte, tal como o fiz no jornal Diário do Sul... muito haverá a dizer, a estudar e a escrever sobre a sua obra, o seu pensamento e a sua forma de estar na vida. Para além de apenas acrescentar ao pouco que se tem dito que também em Timor, Mário Barradas criou um pequeno grupo de teatro, que foi ele quem, em Portugal, legislou sobre o Teatro em Portugal depois do 25 de Abril, que as 2 cidades em que mais investiu tempo e trabalho, a saber, Évora e Almada, se tornaram capitais reais da cultura no território nacional, de Mário Barradas guardaremos sempre a frontalidade, a amizade, a sinceridade, o saber, a cultura e a alma. Por isso, para quem é grato à memória e à herança, Mário Barradas não desapareceu nem irá desaparecer... por isso, continuo à espera do Teatro Mário Barradas em Évora... até quando? Até que aconteça! Mas, entretanto: Obrigado ao Cendrev pela homenagem de hoje. Aquele Abraço.

O PSD, Hoje...


Pedro Passos Coelho ganhou as eleições directas no PSD com 61 % dos votos expressos. A vitória, previsível e, como tal, nada surpreendente (apesar da já conhecida estratégia dos media em efabular a realidade pela incapacidade de, com ela, se confrontar em troca de um permanente e inglório esforço em a inventar) é uma boa notícia para o panorama político-partidário português, na medida em que revitaliza as imagens públicas da vida nacional, arrastando, necessariamente (não se sabe por quanto tempo, é certo!) uma dinamização do diálogo político, importante para a governabilidade e a expectativa dos cidadãos. A vitória de Passos Coelho é, para o interior do seu partido, acima de tudo, o assinalar do fim do penoso ciclo de anomia política decorrente da queda do governo de Santana Lopes e do destrutivo período da imagem pública do PSD resultante da gestão de Manuela Ferreira Leite mas é, também, a evidência da derrota das pretensões de Paulo Rangel que nunca percebeu que a sua vitória eleitoral nas europeias resultara de uma conjugação muito particular e irrepetível (fruto, por um lado, da retaliação e desmobilização popular contra o PS num acto eleitoral de menor proximidade e, por outro lado, da unidade conjuntural de esforços sociais-democratas para a afirmação da sua imagem pública enquanto segundo partido da oposição)... sobre a vitória de Passos Coelho e a nova liderança do PSD, gostei de ler e por isso destaco os textos de Osvaldo Castro, Eduardo Pitta e Pedro Correia, respectivamente, nos A Carta a Garcia, Da Literatura e Delito de Opinião.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Sonoridades... intemporais...

Do sentido e da gratuidade do uso do espaço público

Há manifestações públicas que nos devem interpelar porque, para além de uma pretensa manifestação de irreverência, nos interpelam sobre o seu sentido ou, em última análise, sobre a sua intencionalidade... nomeadamente porque, ao colocarem-se estas perguntas e ao não se obterem respostas, nos deparamos com uma gratuitidade de tipo non-sense que, no frágil contexto da sociedade e da economia portuguesas, em nada denotam utilidade - a não ser para a especulação e a interpretação provocatória que o país e os cidadãos não merecem... ver Aqui.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Leituras Cruzadas...

Um dos mais relevantes problemas do desenvolvimento sustentado contemporâneo na União Europeia que, no nosso país, adquire uma pertinência incontornável, refere-se à prevalência das políticas fiscal e financeira sobre a política económica. Contudo, o país continua a insistir apenas na leitura das evidências decorrentes do PEC - o qual, apesar de tudo, por estar na ordem do dia, tem tido o mérito de permitir algumas importantes análises que se constituem como as únicas "achegas" que se aproximam do problema que acabo de enunciar e de que destaco algumas observações e reflexões de JMCorreia Pinto , no Politeia. Contudo, sobre o PEC tem também sido produzida muita argumentação demagógica (veja-se o reparo anotado por Paulo Pedroso no Banco Corrido) sem ser tida em consideração a situação socio-económica e política contextual que caracteriza actualmente a Europa (ver Aqui e Aqui)... e, enquanto o país prossegue a sua senda de "soma zero" no que se refere ao envolvimento útil e positivo das dinâmicas político-partidárias nos processos de reconstrução/recuperação nacional (vale a pena ler as observações de Porfírio Silva no Machina Speculatrix e de João Ricardo Vasconcelos no Activismo de Sofá), felizmente, vamos conhecendo outras realidades que nos reacendem a esperança na capacidade possível de construção de alternativas (leiam-se os textos publicados por Michael Bahrent no Alternatives Économiques e por Osvaldo Castro no A Carta a Garcia)... apesar da hipocrisia que continua a contaminar de forma ignóbil a nossa sociedade (vale a pena ler o que dizem João Tunes no Água Lisa e Rui Herbon no Jugular), à revelia de todos os valores e de todos os direitos!

terça-feira, 23 de março de 2010

Da Saúde e da Pobreza ao Emudecimento Económico

A vitória de Barack Obama sobre a América do passado que persiste em glorificar um sistema que mais não fez do que agravar as desigualdades sociais, negligenciando os direitos dos cidadãos e caucionando a discriminação económica, tem o rosto da nova Reforma da Saúde que abre o acesso à assistência médica e aos cuidados de saúde dos milhões de pessoas que, nos EUA, se viam privadas do exercício de um direito fundamental. Para além da inequívoca importância do facto, esta luta politicamente travada com persistência e apesar das empedernidas e demagógicas resistências que ergueram medos e levantaram suspeitas, valeu a pena não só, lá, na América, mas, como mensagem global do combate que é preciso continuar a travar contra a discriminação, contra o racismo e contra a xenofobia de que são vítimas, cumulativa e injustamente, os cidadãos atingidos, reduzidos ou condenados à pobreza. Por cá, esta manhã reparei nos rostos desalentados, magros e escurecidos de falta de sono, tranquilidade e alimento de muitos portugueses que atravessavam as ruas e esperavam autocarros, entre um certo ar de abandono do espaço público, de negligência ou desinteresse pelo que é de todos... a pobreza tem, entre nós, um rosto cada vez mais público e mais triste. Por isso, se torna difícil aceitar e compreender que, ao invés de se discutir uma forma de, conjuntamente, se revitalizar a economia, toda a discussão permaneça centrada nos mecanismos financeiros de controle da dívida externa... vivemos uma espécie de déjá vu... e o que mais nos penaliza é ver que todos os agentes políticos se pronunciam, alimentando quezílias e interesses corporativos próprios, sem apresentar soluções, obcecados em se ultrapassarem uns aos outros e em justificar ou condenar medidas de austeridade cuja necessidade não está em causa mas que não deveriam, de modo algum, esgotar o pensamento político e económico do país... onde conceitos fundamentais como "economia social" e "economia ecológica" parecem desconhecidos ou, não o sendo, são contudo, simples e assumidamente, negligenciáveis.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Bullying - Os Rostos da Violência



Vivemos em sociedades violentas. Apesar de toda a propaganda e dos termos de comparação com sociedades guerreiras ou em estado de guerra, as sociedades ocidentais e democráticas de hoje continuam a manifestar expressões de agressividade que, cada vez mais sofisticadas e diversas, não deixam de ser extremamente preocupantes. Cabe, por isso, aos agentes sociais, políticos e educativos estar atentos, de modo a serem compreendidas as causas e prevenidos os efeitos da violência social que grassa entre nós, de forma mais ou menos dissimulada, relativizada ou negligenciada. O bullying está na ordem do dia, nomeadamente por se evidenciar em meio escolar. Sejamos claros! Sempre existiu violência na escola! Os mais fortes sempre agrediram os mais fracos e os mais pobres... meninos e meninas! O bullying não é, por isso, uma nova realidade mas, isso sim, apenas!, um novo conceito que designa comportamentos caracterizados pela agressão (psicológica, verbal ou física) manifestada de forma intencional e repetida. Ao bullying assiste uma atitude de assédio, transversal ao sexo e à idade, desenvolvida sob a égide do comportamento de grupo - o que evidencia, quer a atitude, quer a prática, como estratégia de integração social no sentido do reconhecimento da afirmação do poder pela massa grupal que se refugia no anonimato em que se pratica um certo sentido de lealdade cujo reverso é, se assim o podemos dizer, uma espécie de corporativismo de índole vária: sexual, etário ou de interesses. Combater o bullying é uma tarefa hercúlea que implica o revolucionar da gestão relacional nas famílias e na sociabilidade, o repensar dos valores, das práticas e da função social da educação... até porque a importância do bullying emergiu da consciência pedagógica e cívica do drama da violência, em sociedades que só nos últimos 50 anos (e, no caso português, nos últimos 20) se tornaram sociedades valorizadoras dos afectos e promotoras da coexistência social pacífica num contexto valorizador da diversidade. O bullying existe por uma quantidade de interacções multifactoriais, próprias da sociedade contemporânea, que não podem ser escamoteadas: da ausência comunicacional na família à desestruturação das respectivas relações hierárquicas verticais (não substituídas por correspondências horizontais com significativo impacto na regulação dos comportamentos); da alteração da percepção social dos mais velhos (que reduz o respeito e a consideração pelos adultos e os idosos) ao crescimento institucionalizado das crianças; da reprodução das imagens e estereotipos dos media, da publicidade e da moda ao desenvolvimento de redes de ensino e aprendizagem técnica, disciplinarmente específicas, mas destituídas de uma integração holística de cidadania e responsabilidade social... Ao bullying são ainda, indiscutível e determinantemente inerentes, como mecanismos processuais, as questões da afirmação infanto-juvenil no espaço público e os respectivos pressupostos individuais ao nivel da estruturação da personalidade, do carácter e dos códigos sociais... e, neste plano, deve destacar-se, por um lado, a dimensão da emergência de sentimentos tais como os de justiça/injustiça, vingança/inveja, penalização/culpabilização ou exibição/afirmação que carecem da atenção reguladora dos adultos, entretanto, assoberbados pelos estímulos externos de um meio apelativo à competição e à concorrência onde se lhes revela cada vez mais difícil o exercício do discernimento. A violência mata. O bullying também... e o bullying afecta não só crianças e jovens mas, também, adultos... porque o bullying, como todas as manifestações de assédio, tem como palco o meio profissional... vejam-se os professores que, provavelmente vão ter que encontrar protecção na justiça e na elegilidade da sua agressão ao nível do crime público porque a relativização dos fenómenos e manifestações da violência deixou de, por excesso de banalização, merecer a atenção cívica das pessoas e das autoridades.