
... é uma questão complexa que deixa perplexos os portugueses apesar da sua aparente invisibilidade - e digo "aparente" apenas porque a invisibilidade, no caso, se aplica só ao enunciar público do problema já que, no que respeita à sua consideração em termos de resultados, a respectiva complexidade é, pelo contrário, de uma evidência a que o termo "chocante" se adequa na perfeição. Comecemos pelo princípio: as Ciências Sociais e Humanas que, nos anos 60, em França, tiveram um desenvolvimento e uma visibilidade públicas de inegável dimensão, chegaram a Portugal nos anos 80 apesar de, ainda hoje, 30 anos depois, ser visível a negligência intelectual, científica e política a que são votadas no nosso país onde, a cada passo, se descobre que ninguém sabe para que servem - e que, perante tal ignorância não assumida, decidem que o melhor é delas desinvestir, deixando-as sucumbir à errónea percepção pública da sua inutilidade. Decorrente deste raciocínio provinciamente pragmático, foram formadas gerações de pessoas com qualificações superiores que hoje preenchem lugares sem ligação com as respectivas áreas de formação ou que se encontram em situação precária de desemprego ou sub-emprego. Dito isto, deixamos à reflexão de todos a apreciação do que acontece na sociedade portuguesa relativamente à articulação deste binómio que se requer, por definição, concertado: "qualificação/produtividade"... por fim, atendamos ao que me conduziu à redacção destas linhas: após o desinvestimento na formação académica vocacionada para o ensino e para a investigação socio-cultural, Portugal investiu, desmesuradamente!, de há décadas a esta parte, na formação de economistas e gestores!... Ora, a questão é: com tantos especialistas na matéria ou, pelo menos, com tantos quadros disponíveis que, no âmbito de um exercício institucional e organizacional estruturado e competente, poderiam aperfeiçoar os conhecimentos adquiridos, adaptando-os (e sublinho: adaptando-os!!!)ao mundo concreto do trabalho, como justificar a inoperância de resultados na economia portuguesa? ... não, a questão não é de somenos importância! ... porque o problema da dívida soberana e da estabilidade económico-financeira do país não se resolve com mais endividamento acrescido de elevadissimas taxas de juro ou com a sistémica engenharia financeira decorrente da criativa correlação orçamental entre receitas e despesas mas, isso sim, com a revitalização e o investimento no aparelho produtivo sem o qual nem exportações nem sustentabilidade endógena serão viabilizadas... e esta incontornável realidade tem, reconhecida e indiscutivelmente, uma relação próxima e directa com a questão da qualificação e dos recursos humanos que, em Portugal, tem que ser revista de forma radical ao nível dos critérios, dos conceitos e do projecto de futuro do país em termos de modelo de desenvolvimento pretendido e adequado, bem como, necessariamente, da definição estratégica das metodologias, mecanismos e procedimentos indispensáveis à sua operacionalização. Não, não se trata de "pura teoria" ou de argumentação abstracta; trata-se, pelo contrário, de não fugir à realidade e de não obliterar pressupostos e resultados... tudo o resto, sim!, isso é que é, de facto!, pura e gratuita demagogia.