domingo, 21 de dezembro de 2008

O Mundo desajustado em que vivemos


Têm-nos andado a dizer que vivemos acima das nossas possibilidades, que a nossa pegada ecológica é imensa e que o Mundo assim não dá para todos. Pode (e deve) ser verdade, e as últimas crises que se têm vivido de alguma forma o confirmam. Tudo isto me parece um pouco estranho porque, tendo a minha memória a idade da minha vida activa, recordo-me de outras evidencias. Então o que se passou nestes últimos cinquenta anos? Nada? Jogo a mão às recordações e, com um pequeno esforço, lembro que, quando era miúdo, a população do Mundo era cerca de metade do que é hoje. Isso significa que grandes progressos se fizeram e é hoje possível manter vivos e alimentar o dobro dos seres humanos de então, com o mesmo Mundo. Acho até que, embora o fosso entre pobres e ricos tenha aumentado escandalosamente, o estado dos pobres é hoje menos calamitoso que há cinquenta anos: As fomes cíclicas que matavam milhões de chineses já não se verificam e em muitos pontos do globo onde se morria inevitavelmente com malária ou cólera são hoje zonas seguras. Uma situação como a actual epidemia de cólera no Zimbabué não seria notícia há cinquenta anos, nem ninguém se lembraria de estabelecer cordões de segurança sanitária na África do Sul ou em Moçambique. Muito se andou, portanto. E não só no que se refere à saúde e à alimentação: a produção industrial permite que a generalidade da população mundial tenha hoje acesso a produtos e bens impensáveis há cinquenta anos atrás. Então porque é que a minha pegada ecológica é hoje maior? Vou ao supermercado e creio começar a perceber o mundo em que vivemos. Alguém ainda se lembra da expressão “fruta da época”? Seremos nós ainda capazes de distinguir “fruta da época”? Embora acredite que a maior parte da gente da minha idade saiba o que é que “fruta da época” quer dizer, convido-os a perguntarem a um jovem, coisas tão simples quanto isto: Qual é a época das uvas? E das laranjas? Em que países se produzem ananases? E bananas? E em que épocas? Acredito que as respostas seriam, no mínimo, desconcertantes. Quero eu com isto dizer que o outro lado do mundo está à distância do estender do braço ou da mão, baralhando a nossa noção de tempo e de estações do ano. Agosto, hoje em dia, é o tempo de férias de praia e não o tempo de melões, meloas, figos, maçãs e tantas outras coisas que hoje compramos ao longo de todo o ano. Difícil é comprar maçãs portuguesas ou uvas de cá. Já começa a ser difícil encontrar alhos que não sejam chineses ou espanhóis e alface que não venha em embalagem bilingue. Tudo o que antes era inquestionavelmente produto nacional é hoje, no mínimo, produto europeu! Sofreu transporte. Gastou energia. E a nossa pegada alastra! Chegamos mesmo a paradoxos difíceis de entender: ver à venda vegetais de importação a preços elevados, por exemplo, chuchus, sabendo-se que no Norte do país, nem para alimentação dos animais se utilizam! Também, já nada que não seja farinha industrial serve para alimentar os animais, tendo sido exterminado e definitivamente extinto o “frango do campo”! Também se podem ver à venda kiwis de importação, sabendo nós que os kiwis de produção nacional são dos mais apreciados no Norte da Europa! É o mundo do absurdo em que vivemos, ampliando a nossa pegada de forma despropositada e inconseqüente, e provocando hábitos alimentares dessincronizados com o país em que vivemos e a natureza que nos rodeia. É certo que comeremos hoje melhor que há cinquenta anos, mas poderíamos comer ainda melhor (e dar trabalho à agricultura portuguesa) se se respeitassem as leis da natureza. Para além disso, parece que em Portugal há circuitos que não se cruzam. O circuito da distribuição parece relacionar-se unicamente com o circuito da importação de bens essenciais, e o circuito da produção parece estar exclusivamente ligado à exportação. E a nossa “pegada” alastra… Creio que se houvesse mais racionalidade nesta coisa dos circuitos de produção e distribuição, importação e exportação, nem a nossa dependência externa seria tão gritante, nem o desemprego nos campos (portugueses, europeus, etc.) seria tão preocupante. E todos ganharíamos, porque muita energia seria poupada na transferência inútil de bens dum lado para o outro do Mundo. Não será difícil imaginar que, com a crise, muita da uva que a República da África do Sul exporta para a Europa, ficará por recolher, lançando no desemprego trabalhadores que dependem em exclusivo da sua apanha e tratamento. Esses trabalhadores poderão vir a passar fome, enquanto olham milhões de cachos a apodrecer (a agricultura de subsistência é inimiga da monocultura, enquanto por cá os terrenos se manterão incultos e improdutivos, continuando a lançar (também) gente no desemprego. Não creio que haja razões para que continuemos a comprar uvas da África do Sul ou alhos da China, quando os nossos são bons e muito mais próximos. Reduzamos a nossa pegada ecológica e a nossa dependência externa comprando nacional. Transformemo-nos num país mais equilibrado e amigo do ambiente. E dos portugueses. Acho que a próxima batalha a empreender, será a batalha da racionalização da produção. Para que todos possamos continuar a viver neste mundo. Com qualidade e dentro das nossas possibilidades.

Fernando Pinto (Arquitecto)

2 comentários:

  1. Gattaparda (Paula Brito)5 de janeiro de 2009 às 19:38

    Dez réis de esperança

    Se não fosse esta certeza
    que nem sei de onde me vem,
    não comia, nem bebia,
    nem falava com ninguém.
    Acocorava-me a um canto,
    no mais escuro que houvesse,
    punha os joelhos á boca
    e viesse o que viesse.
    Não fossem os olhos grandes
    do ingénuo adolescente,
    a chuva das penas brancas
    a cair impertinente,
    aquele incógnito rosto,
    pintado em tons de aguarela,
    que sonha no frio encosto
    da vidraça da janela,
    não fosse a imensa piedade
    dos homens que não cresceram,
    que ouviram, viram, ouviram,
    viram, e não perceberam,
    essas máscaras selectas,
    antologia do espanto,
    flores sem caule, flutuando
    no pranto do desencanto,
    se não fosse a fome e a sede
    dessa humanidade exangue,
    roía as unhas e os dedos
    até os fazer em sangue.
    António Gedeão

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  2. Em nome do autor e de A Nossa Candeia, um grande, grande Muito Obrigado pelo lindissimo poeta que tão bem ilustra o nosso sentir... Escreva sempre. Um grande abraço e um beijinho

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