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sexta-feira, 20 de junho de 2014

Do Genocídio ao Etnocídio dos Índios Guarani-Kaiowá

 
 
"Por Felipe Patury, Época
 
Uma carta assinada pelos líderes indígenas da aldeia Guarani-Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, e remetida ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI), anuncia o suicídio coletivo de 170 homens, mulheres e crianças se a Justiça Federal mandar retirar o grupo da Fazenda Cambará, onde estão acampados provisoriamente às margens do rio Hovy, no município de Naviraí. Os índios pedem há vários anos a demarcação das suas terras tradicionais, hoje ocupadas por fazendeiros e guardadas por pistoleiros. O líder do PV na Câmara, deputado Sarney Filho (MA), enviou carta ao ministro da Justiça pedindo providências para evitar a tragédia.
Leia a íntegra da carta dos índios ao CIMI:
Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.
Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós.  Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.
Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.
Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.
Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para  jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.
Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.     
Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay"
(Portal do Luis Nassif)
(via Fernando Pinto no Facebook)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Crimes Contra a Humanidade versus Povos Sacrificados...



"Que esta imagem passe por todo o mundo:
 
O Chefe da Tribo "Kaya po" recebeu a pior notícia de sua vida: Dilma, a presidente do Brasil, deu sua aprovação para a construção de uma grande central hidroeléctrica (a terceira maior do mundo).

A barragem vai inundar cerca de 400 000 hectares de floresta. É a sentença de morte para todos os povos que vivem perto do rio.

Mais de 40 mil índios terão que encontrar novos lugares para viver.

A destruição do habitat natural e o desaparecimento de várias espécies são factos reais!

Este é o preço que estamos dispostos a pagar para garantir a nossa "qualidade de vida" do nosso estilo de vida chamado "moderno"!?!

Não há mais espaço no nosso mundo para aqueles que vivem de forma diferente, onde tudo é nivelado, onde todos em nome da globalização perdem a sua identidade, a sua forma de vida!!!

Por favor, se ficou indignado, partilhe a mensagem...
Obrigado pela vida e biodiversidade."
(via Ruben Menezes, Maria de Fátima Fitas e muitos mais amigos solidários no Facebook)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

domingo, 2 de março de 2014

Atitude e Educação, um Caminho a Descobrir...

A intensidade da atenção e o envolvimento da atitude humana perante a vida e o mundo em que coexistimos, decorre do processo e do percurso das vivências que acumulamos, em cujo contexto, as formas de educação de que somos palco e objeto, ocupam um papel de relevância extrema, quase determinante. Seremos e agiremos sempre em conformidade com os padrões e os valores que a interação com os outros, em nós sedimentarem. Porém, tal interação não se basta a si própria, articulando-se, de forma essencial, com o espaço de liberdade e de reflexão que, ao longo do nosso crescimento, nos foi permitido, e que, decisivamente, concorre para a definição do nosso modo de gestão do "pensar o mundo"... Apesar de aparentemente vaga, a observação que aqui partilho inscreve-se também na forma como entendemos e devemos estudar a forma de reação perante a política e as lideranças que encontramos pelos caminhos que cruzamos ao longo da vida... porque os líderes, designadamente políticos!, e as configurações ideológicas  com que se identificam (ou de que se aproximam) correspondem, essencialmente, às redes de interesses que reconhecem como válidas em resultado de uma educação que, para tal, os "formatou". De facto, a formatação geral da moral de uma sociedade hierárquica, segregadora, discriminatória, assente na culpa, no castigo e no prémio, na valorização da competição e do "ter", resulta na promoção de pessoas, de modos de ação e de atitudes que assentam em visões do mundo egocêntricas e imediatistas, enaltecidas numa autoestima infundada e extemporânea, cujo reflexo moral se caracteriza no reconhecimento de valores em que as palavras "prioridade" e "dever" protagonizam atitudes promotoras de interesses corporativos, por incapacidade de exercício de um pensamento crítico e autónomo, capaz de distanciar a consciência em si própria dos interesses das redes em que, socialmente, estamos inscritos... Não há, por isso, modelo político capaz de vencer a interiorizada forma de submissão às estruturas de poder, mais ou menos evidentes mas, sempre presentes e subjacentes, à tomada de decisão individual e coletiva... Por isso, as ditaduras também emergem em contextos político-partidários democráticos nos quais, por um lado, se assiste ao aumento desmesurado e quase incontrolável da violência e, por outro lado, se constata uma identificação cada vez maior do descontentamento à extrema-direita na exata medida em que, proporcionalmente, constatamos a diluição de uma mensagem política tradicionalmente identificada com a esquerda e com uma radical intransigência relativamente à defesa dos Direitos Humanos, com a mensagem do poder dominante que utiliza o recurso retórico aos valores da igualdade e da responsabilidade para justificar as práticas promotoras da injustiça e da reprodução da desigualdade.  

domingo, 17 de novembro de 2013

Género e Cultura na Sociedade Goesa...

 


Foi assim, no mês passado, em Goa... onde organizei com o apoio de Eduardo Kol de Carvalho, Diretor da Delegação da Índia da Fundação Oriente e o Centro Internacional de Goa, um Workshop subordinado ao tema: "Género e Cultura na Sociedade Goesa". Participaram no seminário, entre outros, a Professora da Universidade de Goa, Doutora Shaila de Soza, o Doutor Prajal Sakhardande, Diretor do Colégio de Humanidades e Artes, a investigadora e Mestre Maria de Lurdes Bravo da Costa... além do Diretor da Fundação Oriente e eu própria, claro. Profundamente gratificante dado o contexto sociocultural em que a iniciativa se realizou, fica o mais sincero e caloroso agradecimento a todos os que participaram. Valeu a pena? Valeu!... por todos nós, em todos os lugares do mundo!  
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Da Beleza num País P´ra Esquecer...

... O paradigma dos dias que correm neste território e nesta sociedade que, apesar da cultura, suspira e desenvolve desmedidos esforços de sobrevivência, pode ler-se na notícia que institucionaliza como "retrato da nação" o lugar em que os presos se recusam a sair dos estabelecimentos prisionais... "por causa da crise" (LER AQUIAQUI e AQUI)... para nos lembrar que nem tudo se reduz a este paupérrimo e triste cenário, partilho a alegoria do amor que Manuel Duran Clemente nos deu a conhecer... no Facebook, claro :) e que, naturalmente, agradeço!

terça-feira, 16 de abril de 2013

Do Sentido e do Significado...

"En la INDIA se enseñan las «Cuatro Leyes de la Espiritualidad»
La primera dice: "La persona que llega es la persona correcta", es decir que nadie llega a nues...tras vidas por casualidad, todas las personas que nos rodean, que interactúan con nosotros, están allí por algo, para hacernos aprender y avanzar en cada situación.
La segunda ley dice: "Lo que sucede es la única cosa que podía haber sucedido". Nada, pero nada, absolutamente nada de lo que nos sucede en nuestras vidas podría haber sido de otra manera. Ni siquiera el detalle más insignificante. No existe el: "si hubiera hecho tal cosa hubiera sucedido tal otra...". No. Lo que pasó fue lo único que pudo haber pasado, y tuvo que haber sido así para que aprendamos esa lección y sigamos adelante. Todas y cada una de las situaciones que nos suceden en nuestras vidas son perfectas, aunque nuestra mente y nuestro ego se resistan y no quieran aceptarlo.
La tercera dice: "En cualquier momento que comience es el momento correcto". Todo comienza en el momento indicado, ni antes, ni después. Cuando estamos preparados para que algo nuevo empiece en nuestras vidas, es allí cuando comenzará.
Y la cuarta y última: "Cuando algo termina, termina". Simplemente así. Si algo terminó en nuestras vidas, es para nuestra evolución, por lo tanto es mejor dejarlo, seguir adelante y avanzar ya enriquecidos con esa experiencia.
Creo que no es casual que estén leyendo esto, si este texto llegó a nuestras vidas hoy; es porque estamos preparados para entender que ningún copo de nieve cae alguna vez en el lugar equivocado".

sábado, 10 de novembro de 2012

Do II Encontro "Pensar com Arte"...


“A Arte de Crescer – O Ponto de Viragem entre a Etnopediatria e a Educação
(...) Quero, antes de mais, saudar a realização deste II Encontro “Pensar com Arte”, em particular através do elogio sem reservas à respetiva comissão organizadora constituída pelas educadoras da Biblioteca Municipal de Alandroal, à Câmara Municipal de Alandroal e ao Agrupamento Escolar de Alandroal (...). Cabe-me, por isso, a honra de agradecer o convite para voltar a participar nesta 2ª iniciativa temática, cuja designação aponta os dois (...) dois tipos de destinatários subjacentes ao título da iniciativa “Pensar com Arte”, a saber: as crianças e jovens em processo de aprendizagem do Ser e do Saber e os agentes educativos da comunidade socio-cultural envolvente de que destaco: educadores/as, professores/as, pais e instituições concelhias. (...) por motivos profissionais (...) não me é possível participar presencialmente neste Encontro (...) [mas] posso, por intermédio da Educadora Maria José Manuelito, minha amiga de sempre que todos conhecemos pelo afetuoso diminutivo de Zézinha, colaborar nesta edição do “Pensar com Arte” (...).
 
Sob o mote “Aprender a Crescer – Ponto de Viragem entre a Etnopediatria e a Educação”, proponho-me trazer à consideração analítica e ao debate dos presentes, uma temática que me é cara e que incide na figura da criança e do jovem, enquanto objetos dos processos de aprendizagem e aquisição de conhecimentos. De facto, entre os mecanismos da educação informal, inerentes ao contacto humano que o nascimento inaugura e os processos institucionais que compõem a educação formal, o crescimento das crianças configura-se, perante o olhar distanciado dos teóricos, como uma composição progressiva resultante das interações socio-culturais do meio em que estão inseridas. (...) Por esta razão, dada a responsabilidade social inerente ao processo relacional entre adultos e crianças, justifica-se pensar esta tripla realidade (o crescimento da criança enquanto tal, o papel dos agentes educativos que nele intervêm e a relação estabelecida entre crianças e agentes educativos) como um processo em “continuum” e em simultâneo que, numa perspetiva didáctico-pedagógica, se pode caracterizar como “arte”, no caso, a arte de aprender a pensar e de ajudar a pensar.
 
Na perspetiva de fator endógeno do desenvolvimento, pelo papel que desempenha na formação da “personalidade cultural” dos indivíduos e das populações, a educação é, muito além do processo formativo que nela também se configura, uma dimensão em que convergem enculturação e socialização, uma vez que se não esgota no processo de instrução formal que a escolarização protagoniza. (...) Esta chamada de atenção é particularmente interessante porque fundamenta a importância do reconhecimento de uma ainda relativamente nova área do conhecimento designada “etnopediatria” (...) [que] enquanto área inter e transdisciplinar, cruza conhecimentos retirados da antropologia, da sociologia, da psicologia, da biologia e da medicina, definindo-se a partir da premissa de que as diretrizes relativas à educação são construções culturais mais ou menos adequadas às necessidades biológicas das crianças. Neste contexto, vale a pena pensar no que justifica a minha escolha desta abordagem como contributo para o II Encontro “Pensar com Arte” e que consiste, concretamente, no conceito de “criança” na perspetiva da etnopediatria. Porquê? Porque, no âmbito etnopediátrico, considera-se que o modelo da infância (...) deve considerar que, a partir do 1º ano de idade, a criança deve passar a ser encarada como “criança respeitável” (ou seja, como um ser digno de respeito), uma vez que o seu desenvolvimento passa a uma fase de progressiva aquisição de autonomia e de independência – a qual requer adequações educativas no sentido de atender, competentemente, ao desenvolvimento das competências que essa dimensão implica. (...)

Esta consciência é de um significado profundíssimo e incontornável no que se refere às considerações sobre os modelos educativos e as estratégias metodológicas de ensino-aprendizagem contemporâneas, em que a padronização dos sistemas formais de instrução tende a sub-valorizar as dimensões da problemática educativa que é preciso retomar – se pretendemos que a função social da educação promova, de facto, o desenvolvimento de competências capazes de garantir aos mais novos, a aquisição de representações sociais e de um funcionamento cognitivo dotado de capacidades de adaptação, indispensáveis ao mundo “de incerteza” em que vivemos, cujo paradigma se opõe ao da “estabilidade” que marcou decisivamente a normatividade subjacente às cosmovisões que a mudança social reconfigurou, particularmente, com o desenvolvimento das dinâmicas socio-culturais e económico-políticas das últimas décadas.
 
Eis o essencial da mensagem que quero trazer, como contributo, para a reflexão e o diálogo que este II Encontro “Pensar com Arte” deve suscitar: é preciso pensar com arte a própria educação e é preciso ensinar as crianças a pensar com arte! É preciso pensar com arte a educação porque o vertiginoso ritmo da mudança social impõe aos agentes educativos, a responsabilidade de adaptarem os modelos educativos às dinâmicas socio-culturais, numa atitude sem dogmas, essencialmente assente na permanente análise dos sistemas de representação e de crenças da sociedade local envolvente e na sua articulação com os padrões normativos da sociedade global que, cada vez mais, nos fica mais próxima, de uma forma harmoniosa e sem ruturas que provoquem condições facilitadoras da (des)inserção social local e global. E é preciso ensinar as crianças a pensar com arte porque o mundo contemporâneo vai requerer, de cada uma delas, uma capacidade adaptativa cada vez maior, que devem estar preparadas para praticar sem traumas e sem resistências gravosas no que se refere ao cômputo das hipóteses de resiliência e sucesso que a vida em sociedade lhes vai exigir.
 
Deste ponto de vista, a filosofia para crianças constitui-se como um instrumento didáctico-pedagógico de interesse fundamental que é preciso desenvolver e implementar; por outro lado, é necessário que as entidades institucionais concelhias e os equipamentos culturais locais tenham a preocupação permanente de dimensionar e planificar as suas atividades, orientando-as sempre, mais ou menos diretamente, para o cumprimento deste objetivo que é aprender e ensinar a pensar… No caso do Alandroal é, também, o que esperamos vir a poder fazer com o trabalho a desenvolver no âmbito do Centro de Estudos do Endovélico… e, para isso, contamos com a vossa colaboração e apoio.
Muito obrigado.
Ana Paula Fitas
Lisboa, 08 de Novembro de 2012"

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Somos Todos Guaranis-Kaiowa! Todos!

Os Guaranis-Kaiowa (ler AQUI) estão a enfrentar problemas de sobrevivência identitária que podem implicar o seu etnocídio. Por isso, está disponível uma petição cujo objectivo é travar esta violação de Direitos Humanos. Pelo direito à identidade, à dignidade e à diversidade que caracteriza o mais autêntico património da Humanidade, colabore, leia e assine AQUI
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Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil


Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.

Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós.  Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.

Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.
Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.

Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para  jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.
Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.     

Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay"

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Mar não Arde?... e o Mediterrâneo, Senhores?

 
 

... se ao genocídio em curso na Síria, somarmos o histórico (mas não relativizável) drama da Palestina, as crises sociais (que são, incontornavelmente, económicas e políticas) da Grécia, de Portugal e da Espanha e as que ameaçam a Itália ou a França... temos ou não temos, um mar incendiado, aqui mesmo aos nossos pés... esse mesmo mar onde brilharam Babilónias agora afundadas em ruínas e onde as soberanias deram lugar a sujeições que a terminologia moderna não querem reconhecer sangrentas, desumanas e inadmissíveis... o Mediterrâneo, senhores... o Mediterrâneo está a arder!... e é bom não esquecer que, para além da sua diversidade cultural e da pluralidade das suas desigualdades, o Mundo, a Europa e as Pessoas nunca escaparam ao poder centrípeto e centrífugo das dinâmicas mediterrânicas... por isso, a questão que se coloca, de facto!, é a de decidirmos sobre a capacidade política da atual gestão socio-financeira da economia e das relações internacionais para, finalmente!, se responder com honestidade, sem subterfúgios, com sensatez e com urgência!, à pergunta indispensável sobre o exercício e a defesa inalienável dos Direitos Humanos : "O QUE FAZER?".
 
(a imagem chegou via Fernando Cardoso no Facebook

sábado, 21 de abril de 2012

Etno-Psiquiatria da Cultura, Economia e Sociedade

A persistente lógica de gestão das dinâmicas económicas a que assistimos (e de que, indiscutivelmente!, somos sistemáticas vítimas), decorre da prioridade concedida ao lucro como objectivo primeiro e último do envolvimento dos detentores de todas as formas de propriedade do capital... axiomático, este princípio revela a profunda ausência de cultura e de responsabilidade social dos agentes financeiros e evidencia um incontestável equívoco na formulação ideológica das teorias económicas em que, alegada e prepotentemente, o colectivo anónimo em que se agregam interesses corporativos, pretende fundamentar valores, juízos e práticas. Vale a pena repetir o que todos sabemos: a soma dos interesses individuais não tem como resultado o interesse do bem-comum mas, apenas, o que é comum ao grupo que o promove. Neste sentido, o antagonismo societário entre dominantes e dominados continua sem alterações substanciais desde sempre, nomeadamente porque, em situações de crise, assistimos ao radicalizar de atitudes que comprovam a vulnerabilidade de todo o aparelho conceptual (e legislativo) construido a propósito dos Direitos Humanos - que apenas os que não protagonizam o exercício real do poder político e económico continuam a defender, intransigentemente e sem reservas. A verdade é que a disfuncionalidade entre a opção pela prática concreta de métodos que acelerem a aproximação à efectiva melhoria da qualidade de vida para todos e a opção pelo aguardar que o ritmo dos mercados se auto-regule no sentido de proporcionar esta melhoria se não pode, em rigor, atribuir a diferenças estruturais de carácter orgânico porque solidariedade e corporativismo são potencialidades que o meio desenvolve nos seres, em função da correlação de influências que nele se desenvolvem. Assim sendo, que justificação poderemos encontrar para a avaliação societária que permite, mental e moralmente, a desigualdade económica e social no exercício dos direitos humanos, colectivos e individuais, a não ser uma concepção cultural e filosófica sustentada por uma ideologia legitimadora dessa desigualdade?... Vale a pena referir que estamos a falar da gestão internacional da política e da economia e que não subjaz a estes considerandos qualquer ironia velada - designadamente porque, se pensarmos na estreita relação entre o pensamento religioso e ideológico, rapidamente se percebe que os promotores/legitimadores desta gestão das desigualdades percepcionam esta realidade como inerente à existência humana, invocando o facto de serem praticamente uma constante ao longo da História (apesar da culpa que sentem necessidade de sublimar e que, em última análise, reitera uma espécie de consciência desresponsabilizadora do seu papel de dirigentes e configuradores do futuro)... Neste contexto, propomos, a título de contributo explicativo, uma breve incursão pela história do conhecimento que nos conduzirá a uma pequena mas assustadora percepção do fenómeno... De facto, há menos de 20 anos, a comunidade científica discutia ainda, com preocupações que se assumiram como legítimas, a questão dos coeficientes de inteligência associada às características genéticas... para dizer e promover a ideia de que as competências de raciocínio decorriam da hereditariedade e da pertença a grupos específicos, tornando o investimento laboratorial em opções cromossomáticas muito próximo das considerações que, durante o século XX, continuavam a afirmar que as "raças" e/ou etnias detinham diferentes potenciais de inteligência. Foi com base nestes pressupostos que muita produção livresca (de que se destacou a publicação, em 1994, do livro "A Curva de Bell") continuou a contaminar a opinião pública com afirmações insidiosas que induziam o reforço do pensamento discriminatório, generalizando preconceitos profundamente erróneos e infundados... como os que, nos anos 50 e 60, levavam o senso comum a dizer da população negra o que hoje muitos dizem da população cigana... e que outros tantos dizem da população árabe... ou latina!
Moral da história: é a ignorância científica e a consequente ausência de valores ética e cívicamente responsáveis e justos que sustenta, em pleno século XXI, a injustiça, a crueldade e a profunda assimetria das condições de vida das pessoas... como é a falta de coragem em assumir os paradigmas do conhecimento por parte dos líderes das instituições internacionais que alimenta a desumanidade que tem permitido a fome e a guerra por mais de 2/3 do planeta... e que, agora, investe no empobrecimento dos países até há pouco se afastavam da miséria!... está à vista: a configuração cultural das mentalidades é um factor decisivo para o desenvolvimento... em particular, quando constatamos que, afinal!, vivemos, como disse Erich Fromm, em sociedades doentes.           

terça-feira, 17 de abril de 2012

Ciganofobia? ... e os Direitos Humanos, senhores?


A chamada de atenção é do antropólogo José Gabriel Pereira Bastos: "Reconhecer o casamento cigano efectuado na Lei Cigana seria um acto de inteligência nas relações inter-étnicas, uma prova de respeito por uma cultura diferenciada incluída na pluri-culturalidade de Portugal, um passo em frente para longe da Ciganofobia que exige a assimilação completa (que aliás não deseja), uma forma de genocídio cultural impensável no século XXI..." (in Facebook)... Nada acrescentarei... porque subscrevo, na íntegra e sem reservas, a afirmação!... e, sinceramente, para quem pretende levar a sério, "de jure" e "de facto", a questão do exercício dos Direitos Humanos, vale a pena ver/ouvir com atenção este vídeo... para reflectir... e agir!

sábado, 14 de abril de 2012

Coração Azul - Contra o Tráfico de Seres Humanos

"Coração Azul" é o nome da campanha das Nações Unidas que visa a promoção de um combate conjunto ao tráfico de seres humanos. Portugal aderiu oficialmente a esta campanha na iniciativa que, de forma sucinta mas efectivamente esclarecedora, vale a pena ver AQUI... Entretanto, porquanto o único vídeo disponível no Youtube se apresenta em língua inglesa, reproduzimo-lo com a confiança de que todos perceberão o sentido de uma inequívoca causa promotora dos Direitos Humanos que mobiliza internacionalmente contra uma das maiores formas de crime organizado...

sexta-feira, 13 de abril de 2012

domingo, 8 de abril de 2012

Ciganos -entre a perseguição e a democracia....


Ciganos é a designação de um conjunto de populações nómades de origem indiana, cujas migrações ultrapassam os 1.000 anos de história... Perseguidos, escravizados, excluídos, discriminados e mal-tratados, de forma sistemática, ao longo do tempo e por todos os territórios onde passaram e onde se encontram sedentarizados, os Ciganos foram deportados e, às mãos dos nazis, foram vítimas silenciosas do Holocausto... O genocídio do povo cigano que o regime nazi levou a cabo, assassinando entre 200 e 500.000 pessoas (homens, mulheres e crianças), só foi reconhecido a partir de 1970 (ler aqui) e tem, em língua Rom, a designação de PORAJMOS (que significa "devorar"). De Auschwitz -onde, finalmente!, se reservou um espaço em homenagem à sua memória- aos nossos dias, a perseguição continua (disso é exemplo o que podemos ler aqui). Por isso, vale sempre a pena registar o testemunho de Mirian Batuli, representante oficial do povo cigano no Brasil, na cerimónia em Homenagem às Vítimas do Holocausto... porque enquanto os Povos Ciganos não usufruirem plenamente da igualdade de oportunidades que as sociedades contemporâneas dizem disponibilizar aos cidadãos e enquanto se registarem práticas e representações sociais colectivas de natureza discriminatória e xenófoba, a Democracia não será mais do que, apenas, uma Utopia!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Medo...


... este texto de Mia Couto sobre o medo é não apenas belo mas, acima de tudo, importante, verdadeiro e necessário à reflexão de que urgentemente precisamos... para agir!
(via Rui Linhan no Facebook a quem agradeço a excelente escolha e a partilha).

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Anna Hazare, símbolo indiano da Luta Contra a Corrupção

Anna Hazare é um activista anti-corrupção indiano que, há 10 dias, iniciou uma greve de fome exigindo a proclamação da Lei Lokpal. Detido em Março passado pela expressão pública da sua opinião contra a corrupção na Índia, a sua mensagem cativou milhares de apoiantes e hoje, considerado já o novo Gandhi, o próprio Primeiro-Ministro Mohammad Singh pediu publicamente a A.Hazare que parasse com a greve de fome (ler Aqui), alegando que a sua vida é demasiado preciosa, para ser posta em causa pelos efeitos que, na sua saúde, terá a decisão de não interromper a greve até estar definitivamente proclamada a Lokpal Bill, indispensável à luta contra a corrupção na Índia. A Lei Lokpal (Lokpal Bill) é um projecto-lei que visa a criação da figura de um mediador da República, responsável pela investigação e fiscalização de políticos e funcionários públicos, funções que Anna Hazare exige extensíveis aos chefes de Governo e aos altos magistrados suspeitos de corrupção. M.Singh, o PM da Índia que lidera um governo de centro-esquerda, já prometeu que o Parlamento examinará "cláusula a cláusula" o projecto-lei apresentado pelo próprio governo mas que procederá de igual modo relativamente a todas as outras versões, incluindo a defendida por Anna Hazare.