Hoje, na TVI, li, por várias vezes, em nota de rodapé, a referência à prioridade que Fernando Nobre diz pretender dar à agricultura, posteriormente referida como um dos seus 10 "
desígnios". Para além de vir a ser interessante perceber como pensa uma sua hipotética forma de intervenção na matéria, considerando que a função governativa não integra as competências da Presidência da República, quero apenas, nestas linhas, chamar a atenção para algumas das afirmações deste candidato presidencial na entrevista que, hoje, foi publicada no Diário de Notícias e sobre a qual me limito, previamente, a assinalar o seu enunciar de lugares-comuns destituídos de uma evidente reflexão sustentada e a recorrente tendência para evocar a sua experiência como Presidente da AMI (a que, note-se, a certo passo designa como "
a minha instituição"!!! e a qual, diga-se a "
talhe de foice", seria interessante conhecer melhor em termos da negociação de meios que a tem viabilizado, nomeadamente porque a acção humanitária envolve dimensões muito mais complexas do que o simples voluntarismo na prestação de cuidados a populações atingidas pela guerra, a doença ou a pobreza extrema). A minha chamada de atenção decorre da sua referência à questão de Olivença de que, incorrecta e bizarramente!, afirma e reafirma: "
o problema de Olivença é simultâneo em termos históricos com o problema de Gibraltar, por volta de 1808"!!! Que me desculpem os seus apoiantes mas, de facto, o Dr. Fernando Nobre não denota uma atitude séria relativamente aos problemas sobre os quais se pronuncia, revelando antes uma ânsia desesperada por alcançar nichos de mercados que, aliás, revela não estar preparado para defender. Senão, vejamos: por um lado, evocando que Espanha protesta sempre que um navio de guerra pára em Gibraltar e que Portugal não o faz, F. Nobre obriga-nos a perguntar sobre que tipo de protesto deverá Portugal fazer se em Olivença não passam barcos de guerra ou quejandos que justifiquem o paralelismo da comparação; por outro lado, depois de propôr a eliminação do território oliventino do mapa português, Fernando Nobre recorre a uma pseudo-proposta de "
liberdade de movimentação total" que, diga-se em abono da verdade, é o que já, há muito!, se verifica na região, não apenas pelas relações amigáveis entre as populações e as autoridades locais mas, também, por
força de lei que, no caso, decorre da eliminação das fronteiras no interior do espaço comunitário europeu que limita a mobilidade dos cidadãos da União Europeia aos territórios exteriores ao designado "
Espaço Schengen" (ver
aqui)... Finalmente, para perceber a diferença entre os problemas de Gibraltar e de Olivença, o Dr. Fernando Nobre poderia, pelo menos, ter lido o que diz essa enciclopédia generalista de tão fácil acesso que é a
Wikipédia, onde claramente se diz que Gibraltar (ver
aqui) foi cedido à Grã-Bretanha no século XVIII, em 1713, no contexto do Tratado de Utrecht (ver
aqui) como parte do pagamento devido na sequência da Guerra da Sucessão Espanhola (ver
aqui)... depois, na mesma enciclopédia de acesso universal através de uma simples consulta na internet, o Dr. Fernando Nobre poderia informar-se sobre a questão de Olivença (ver
aqui) e constatar que, neste caso, o problema deflagrou quase um século depois, no contexto do episódio histórico que atingiu a Península Ibérica conhecido por Invasões Francesas que, em Portugal, se inicou em 1801 com a chamada Guerra das Laranjas (ler
aqui). Só a título de esclarecimento registe-se que a ocupação de Olivença decorreu do chamado Tratado de Badajoz (ver
aqui), assinado exactamente em 1801 e denunciado por Portugal em 1808, em termos reconhecidos internacionalmente como válidos no que ao Direito Internacional respeita, no Tratado de Viena de 1815 (ver
aqui) que a própria Espanha assinou em 1817. E pronto!... mais não digo - até porque os argumentos que podem sustentar algum paralelismo entre as questões oliventina e gibraltina, requerem indicação bibliográfica específica que não vem ao caso citar, uma vez que a postura do Dr. Fernando Nobre sobre o problema o não justifica... ou não o teria evocado com a ligeireza érronea, infantil e demagógica com que o foi.