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sábado, 17 de janeiro de 2009
sábado, 10 de janeiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Nascer Mulher na Índia...

Nascer mulher na Índia, superpotência emergente
Na Índia, o nascimento de crianças do sexo feminino é uma infelicidade para a família, incluindo para a própria mãe, para a qual, pior do que as dores do parto, é o facto de saber que deu à luz uma menina. Os olhares, vozes e gestos dos membros da sua família e comunidade são de repúdio, consternação e incúria. Muitas parturientes de meninas são negligenciadas, maltratadas e, inclusivamente, abandonadas pelos seus maridos.
De acordo com a UNICEF, o distrito de Shravasti constitui a pior região indiana para nascer mulher. No "Global Gender Gap Report 2007", a Índia ocupa a 114ª posição, num conjunto de 128 países: a igualdade na educação, a saúde e a economia são muitíssimo débeis no país.
Para a sociedade indiana, a mulher representa um pesado encargo financeiro, uma vez que, aquando do casamento, a família da noiva terá de efectuar o pagamento do dote. Na verdade, o sistema tradicional do casamento indiano determina que "as raparigas deixam a casa dos seus pais permanentemente no dia do seu casamento" para integrar o núcleo familiar do seu marido, acompanhadas por um "montante significativo". Não obstante a ilegalidade do dote - desde 1960 -, este é uma prática corrente entre os indianos, e fundamente nefasta para a mulher. Nela, vêem somente o dispêndio de cifrões em vez da sua identidade própria, confinam-na ao menosprezo e à segregação, cerceiam os seus direitos fundamentais.
Na índia, bem como no Paquistão e na China, o infanticídio e o feticídio femininos são amplamente praticados. Por meio de "um processo psicológico que a comunidade desenvolve", as indianas são instigadas a matar as suas próprias filhas. A pressão recai sempre na mãe da criança, consideradas, frequentemente, culpadas pelo nascimento de uma rapariga - "há cada vez mais sogras a queimar as noras vivas". Por isso, muitas indianas matam as suas filhas antes ou após o parto. Com o desenvolvimento tecnológico, muitas recorrem à selecção pré-natal do sexo da criança no sentido de evitar o nascimento de meninas. Este recurso redunda, frequentemente, no feticídio feminino. Na Índia, estima-se que cerca de 10 milhões de fetos femininos foram abortados nos últimos 20 anos. A erradicação de tais práticas exige uma mudança de atitudes, o banimento das barreiras mentais edificadas pelo patriarcado e nutridas pela pobreza e encarceramento intelectual.
A Índia está, no entanto, em processo de expansão e tornar-se-á numa das três maiores economias do mundo, superando a China como o país mais populoso em 2032. Porém, o espectacular crescimento do sub continente está a acontecer tendo como pano de fundo uma sociedade que ainda não está à vontade com a modernidade liberal. A Índia emergente continua a ser assolada por profundas contradições: é uma potência nuclear, mas 40% das suas crianças estão ainda subalimentadas; a par de um dinamismo económico crescente coexiste uma sólida filosofia anti materialista; ao albergar o que há de mais recente em termos de investigação e desenvolvimento, é simultaneamente a pátria de um dos movimentos religiosos mais arreigadamente nacionalistas do mundo e de uma cultura terrivelmente sexista.
Texto de: Paula Brito
Fotografia de: Elias Monteiro
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Guerra: entre o dinheiro e a ausência de coragem política

As pescadinhas não nascem com o rabo na boca - esta foi uma das coisas que me surpreendeu quando, criancinha, vi pela primeira vez um destes peixinhos em tão estranha apresentação! Ocorreu-me a lembrança à memória quando pensava num tema que já aqui aflorei: o da raiz financeira da violência. Na realidade, a associação de ideias, como factor de intervenção na própria produção do pensamento, tem destas coisas... e as pescadinhas surgiram quando tentava pensar em formas de intervir na eclosão das guerras e dos conflitos sangrentos que, com desmedida violência, vêm caracterizando estes dias e massacrando a martirizada população palestiniana. O armamento, seja da guerrilha ou do Estado, no que respeita ao seu financiamento, pode ser conhecido através dos circuitos de produção, comercialização e distribuição detectáveis desde que o investimento na sua pesquisa seja efectivo, técnica e politicamente... tal como a produção, comercialização e distribuição de droga ou as redes de tráfico de pessoas... os tráficos, geralmente associados de uma ou de outra forma, assumem sempre formas económicas susceptíveis de serem conhecidas... e o sistema financeiro de circulação de capitais oferece os meios adequados, designadamente a partir dos movimentos bancários internacionais... é, por isso, indefensável a ideia de que todos os bancos, vítimas da crise, justificam intervenções públicas... contudo, as intervenções públicas em instituições bancárias têm vindo a acontecer em grande parte dos países apresentados como modelos de desenvolvimento sem que, pelo menos no que ao conhecimento da opinião pública diz respeito, tenha sido considerada, a priori e com rigor, aquela possibilidade... a globalização e internacionalização dos movimentos de capitais viabiliza o armamento e banaliza o recurso à violência... assim, à cidadania urge também a tarefa de exigir uma legislação e fiscalização política internacional e nacional eficaz... porque a análise do problema da violência, remetendo também para uma dimensão psicológica e cultural das formas de resolução de conflitos subjacente às determinações políticas e ideológicas, requer, necessariamente, uma profunda alteração da economia internacional e dos sistemas financeiros que lhe estão associados... disso são conscientes, além de muitos históricos pensadores, intelectuais e políticos, alguns Prémios Nobel da Economia, nomeadamente desde a passada década de 90... mais uma vez, o que falta é agir em conformidade com esta consciência... poderiam ser dados exemplos óbvios para transmitir a ideia da eficácia que estes procedimentos teriam na prática mas, dada a actualidade, limito-me a referir os EUA e a UE que, agindo nos contextos comercial e financeiro relativamente a Israel, alcançariam, seguramente, resultados que, face aos massacres, valeriam sempre a pena... porém, enquanto os protagonistas do poder adiam ou contornam decisivas decisões económico-políticas, morrem e sofrem pessoas, suas iguais, por todo o planeta... em nome de argumentos cuja consistência se esboroa diante do sangue e da dôr de cada vítima da guerra, da miséria e do terror...
domingo, 14 de dezembro de 2008
O que mais dói na violência

O que mais dói na violência é ver a sua transversalidade cruzar idades, culturas, espaços, economias, estatutos... porque não podemos deixar de ver os rostos e de imaginar o sentir atónito daqueles que se sentem e se sabem -ou até não sabem!- agredidos... Da educação à falta de resiliência, das expectativas aos medos, dos sonhos à miséria dos submundos que alimentam as economias paralelas, da fome ao instinto de sobrevivência... a violência nasce, abrupta, entre quem, entre condições e contextos diferentes, não a praticaria... Num tempo em que, desesperadamente, precisamos de confiar, há uma questão de fundo que se coloca em termos políticos relativamente à criação de emprego e à acessibilidade aos meios: que razão justifica o não investimento, a determinação, a coragem e a ousadia de desafiar o que, apesar de institucionalizado, se constata ter falhado? Porque reduzem à divagação demagógica, feita de sonhos menores de luta pelo poder, a consciência da urgência em parar para pensar e criar novas formas de organizar a sociedade e a economia? O que mais dói na violência, além da morte e do medo, é ser possível encontrar realidades que permitem fotografias como esta que aqui trago, perante a qual todos nos deveriamos curvar, perguntando: com que direito?... Com que direito falamos de cidadania quando deixamos que a grande maioria (senão mesmo a quase totalidade - porque quem lhe escapa é, apesar de não parecer, uma reduzida minoria!) das crianças do planeta cresça e a grande maioria dos adultos viva com a fome, a guerra, a doença, o medo e o desemprego como cenários do presente e horizontes de futuro? Haverá alguma prioridade que possa ter, em termos de racionalidade, primazia sobre a raiz do problema?... um problema que é, afinal, cultural e financeiro porque é a cultura que nos permite aceitar as opções políticas e económicas no quadro de um tempo onde, muito depois de Marx, continuamos a ter, apenas!, compreendido e explicado o mundo sem, contudo, agirmos para o transformar... sem medo!... porque, confiando na nossa humanidade, não precisamos do medo porque nada temos a perder... temos, isso sim, a ganhar... a ganhar duas grandes esferas de acção para a sobrevivência do ideal de dignidade inerente aos Direitos Humanos que são, em última análise, as condições de preservação do planeta Terra: proteger o ambiente e a vida humana.
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