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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O Teu Rosto Será o Último...



"O Teu Rosto Será o Último", da autoria de João Ricardo Pedro, recebeu o Prémio LeYa 2011. Esta afirmação não é uma notícia porque, presumo!, já toda a gente tem conhecimento do facto e até já terá ouvido as múltiplas entrevistas do autor que surpreendeu o país pelo facto de ter escrito o seu primeiro livro durante um período de tempo em que se encontrava na situação de desempregado, apesar da sua formação especializada em Engenharia Electrotécnica... a referência é, porém, inevitável porque não se pode ignorar um livro cuja leitura deixa emergir, no final, a vontade de dizer: "O Teu Livro Será o Último"... poderia ser!... Poderia ser se estivéssemos à procura do retrato do país que somos, hoje, no início do século XXI, demasiado próximos do século XX e ainda não muito longe do século XIX... Escrito com uma naturalidade que se revê na estrutura do género literário que caracteriza o "conto", arrancado ao subterrâneo sentido do olhar com que se participa no mundo, "O Teu Rosto Será o Último" é o espelho da personalidade cultural de um povo, para além dos eventos, dos comentários e das dissertações... um espelho mágico onde o tempo se funde, passado, presente e futuro, cristalizado na efemeridade dos episódios descritos, com a autenticidade de quem escreve perfeitamente, sem a pretensão ou preocupação de ser escritor! "O Teu Rosto Será o Último" é o livro mais português que se escreveu nos últimos anos, a mensagem universal que podemos, em verdade, transmitir ao mundo enquanto experiência cultural! Soprado como um olhar falante, denso e melancólico, vivo e firmado no chão, "O Teu Rosto Será o Último" devolve-nos o sentido de Abril, antes e depois de Abril, como o eco de um presságio de tempo quase parado, apesar da mudança... Talvez duro, talvez frontal mas, acima de tudo, profundamente sério, João Ricardo Pedro escreveu um livro inestimável, uma pérola de lágrima nas areias secas de um deserto preenchido por palavras repetidas e lançadas sem a emoção que as torna significantes... Não, não falarei da narrativa, não evocarei pormenores, nem me distrairei a elogiar a construção feliz - a roçar a genialidade! - de tantas frases, inesperadas e singelamente  poderosas... nem sequer caracterizarei as mágicas soluções explicativas para os "nós" que enleiam e atormentam as almas e o ser dos seres humanos que o são, de forma única, "em situação"... Evoco o título "O Teu Rosto Será o Último" e digo que gostaria que todas as pessoas o lessem: as que costumam e gostam de ler e as que não o costumam fazer... por se tratar de uma leitura que cumpre a função do saber: "dar a pensar"!  ... um livro que poderia ser o último... um livro que arrasta consigo a sensação de ser o último testemunho de um mundo com séculos e séculos de história e de cultura, captado à beira da "viragem" - uma viragem que encerra em si própria a impossibilidade de radical ruptura com a sua própria anterioridade... 
(vale a pena ouvir Aqui algumas das palavras do autor)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Leituras Cruzadas...

A propósito da violência urbana manifesta na velha Inglaterra, vale a pena ler os textos de JMCorreia Pinto no Politeia, de Eduardo Maia Costa no Sine Die e de Ricardo Paes Mamede no Ladrões de Bicicletas... porque, de facto, muito do que se tem dito está eivado de uma arrogância assente na pressuposição de que vivemos e devemos viver num mundo ordeiro e "politicamente correcto" nos termos em que o pensa a ideologia dominante - sempre atenta ao proclamar de uma moralidade disfuncional em relação à realidade (leiam-se os textos de Carlos Milheiras no Os Furúnculos de Pandora e de José Simões no Der Terrorist)!... e como se tudo isto não fosse já suficiente para nos amargurar o presente e obrigar à reflexão sobre o futuro, continuamos a assistir ao desenvolvimento de um "trabalho" pretensamente concertado e caracterizado por uma persistente corrosão da debilitada realidade nacional (ilustrada nos apontamentos de Eduardo Pitta no Da Literatura, de Carlos Fonseca no Solos Sem Ensaio, de Vitor Dias no O Tempo das Cerejas e de João Rodrigues no já citado Ladrões de Bicicletas) que apenas nos aproxima mais e mais dessa violência que, com tanta hipocrisia, se condena... Felizmente, a consciência humana não se detém perante o medo (leia-se a notícia que nos chega através de Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória) e, por isso mesmo, valha-nos a lucidez que nos serve de referência identitária e nos permite sobreviver ao naufrágio dos dias (leia-se o texto de Fernando Cardoso no Ayyapa Express).