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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sermão... - ou da Infinita e Sábia Razão de Ser...

"Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino , contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam..."
(excerto do Sermão do Padre Antonio Vieira, proferido em 1654 e conhecido como "Sermão de Santo António aos Peixes" - com um grande abraço de agradecimento a Maria Amália Campos)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Saramago - 2 Pesos e 2 Medidas?!



Não li "Caim"... mas, claro que o irei ler. Por ora, registo apenas que dá a pensar o raciocínio dicotómico, de claro pendor etnocêntrico, que a sociedade portuguesa tem evidenciado a propósito do lançamento deste livro e das declarações que, sobre ele, tem feito o seu autor... no entanto, quando Salman Rushdie publicou os "Versículos Satânicos" e o mundo islâmico o condenou, o Ocidente levantou a voz contra a falta de liberdade e tolerância; de igual modo, quando, mais recentemente, surgiram no Ocidente cartoons que o pensamento islâmico interpretou como ofensivos, de novo se fizeram ouvir as mesmas vozes pela liberdade de imprensa, de expressão e de pensamento. Agora que José Saramago condena, após um exercício heurístico e hermenêutico que o vincula como autor, livre na exegese, no pensamento e na expressão, valores como a crueldade (alguém pode alegar que o episódio de Abel e Caim não é cruel?) erguem-se as vozes, desta vez não em nome da liberdade mas, do insulto que chega ao ponto de considerar a escrita e a publicação desta obra como reflexo de uma "atitude anti-Nobel"... 2 pesos e 2 medidas para Saramago ou entre a islamofobia e a cultura judaico-cristã? ... mas, afinal, a pedagogia social e os limites à liberdade de expressão alguma vez foram critérios para a atribuição do Prémio Nobel da Literatura?... enfim... eu que, desde sempre, defendo a liberdade de opção no contexto da diversidade religiosa e que, comprovadamente, respeito sinceramente a fé dos homens e das comunidades, não compreendo a legitimidade intelectual destes "ataques" a Saramago... ou melhor... verifico que, de facto, a sociedade portuguesa dá muito - mas, mesmo muito! - a pensar.