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sábado, 15 de novembro de 2014

Repensar a Educação...

Excertos da minha intervenção na IV Edição do "Pensar com Arte" (Alandroal):

"(...) segundo o autor de “Peter Pan”, J.M. Barrie (com a qual, aliás, se inicia também a obra de Bruno Bettelheim, Psicanálise dos Contos de Fadas):
«Quando um bebê ri pela primeira vez, o seu riso quebra-se num milhão de pedaços que saem pulando por ai. É assim que nascem as fadas.»
 


(...) Universais, os arquétipos em que assenta a estrutura narrativa dos “contos” integram seres fantásticos, dotados de poderes desejáveis mas não controláveis pelos seres humanos, que sobreviveram ao tempo pelo facto de representarem referências culturais fundamentais quer para a coexistência pacífica indispensável à sobrevivência societária, quer para a compreensão dos desafios perante os quais a dinâmica da vida coloca, desde logo, as crianças, e as expõe ao longo de todo o seu crescimento e desenvolvimento. Analogicamente, para melhor entendermos o papel dos personagens imaginários que integram, de forma estruturante, a maior parte das histórias, podemos dizer que, no caso da religião, falamos de deuses e, no caso da razão que se pretende subjacente à condução do imaginário na estrutura narrativa dos contos, falamos de seres invisíveis, dotados de vida, por virtude da arte ficcional da efabulação. (...) A importância da narrativa para o desenvolvimento intelectual dos mais novos torna-se crucial se pensarmos que é a partir do que vão conhecendo do mundo exterior que os pequeninos seres vão estruturando a sua forma de organizar ideias e que toda a verbalização se constitui como elemento integrável nessa narrativa - uma vez que ainda não detêm critérios culturais que lhes permitam classificar o que ouvem e o que observam, como mais ou menos autêntico e que a tudo, nessa fase, conferem significado (...). Confrontadas com a diversidade de situações a que a interação humana as expõe, as crianças precisam de ter disponível na sua mente, um quadro de possibilidades múltiplas de ações/reações consideradas adequadas perante o novo e o inesperado (ou o repetido mas não compreendido), a que possam recorrer não só para resolver problemas de forma autónoma mas, também, como forma de reação para evitar a reprimenda que rapidamente interiorizam como atitude dos adultos face às suas respostas consideradas desadequadas. (...)
 
(...) [Porém, veja-se o que acontece] no caso das produções contemporâneas em que [o mundo do] fantástico [evidencia o] afastamento da realidade [através do protagonismo de] “monstros” ou outros seres de natureza sobre-humana (como é o caso de crianças que habitam áreas espaciais onde são dotadas de poderes extraordinários e que remetem para o “futuro”), sem o menor grau de proximidade com a vivência quotidiana das próprias crianças, (condição indispensável para que se operacionalize a transferência que viabiliza a “catarse” e a “sublimação”), porque a sua natureza, bizarra e aberrante, dificulta a adesão complexa das emoções, minimizando o efeito das narrativas que, por muito básicas e lineares, rapidamente vão cair no esquecimento de quem as vê ou as ouve, no registo multimédia dominante que caracteriza a sua transmissão. De certo modo, o mundo da narração e da literatura infantil caminhou no sentido de incentivar o distanciamento entre personagens e ouvintes (ou leitores), provavelmente pela crença quase positivista (extemporânea, porque deslocada no tempo!) de que o excesso de fantasia pode afastar as crianças da realidade. E este é, se me permitem, um erro crasso porque, efetivamente, o mérito e a competência da narrativa inerente aos contos ditos “de encantar” ou “de fadas”, consiste exatamente no anular desse distanciamento, pela densidade descritiva dos cenários e da pluralidade de situações a que os personagens estão sujeitos, permitindo à criança libertar-se do mundo condicionado da realidade e projetar apenas o que de mais íntimo e menos verbalizado a possui (sonhos, medos, dúvidas, curiosidades e inquietações), num processo de libertação de inibitórios sentimentos que deixa a nu e sem vergonha de ser exposto, o oceano de perguntas que pode, a pretexto dos dramas e tragédias dos personagens, colocar aos adultos, para obter respostas que utilizará, na solidão da sua individualidade, a título de contributos para a construção de um lento mas firme processo de auto-esclarecimento, decisivo para a formação da sua personalidade e para a criação de modelos de avaliação com que tem que ir, incontornavelmente, pensando o mundo. (...)
(...) Pela sua competência descritiva e complexidade narrativa, os chamados “contos de fadas” são histórias dotadas de um potencial imagético quase cinematográfico que, do ponto de vista antropológico, resultam de um trabalho sofisticado ao nível literário (pensemos em Hans Christian Andersen, Charles Perrault ou nos próprios Irmãos Grimm) sobre antigas crenças e superstições populares (estou a lembrar-me do filme “Os Irmãos Grimm” que tão bem caracteriza esta sua vertente) ou sobre problemas suscitados por realidades sociais complexas que colocam o indivíduo perante situações difíceis que urge resolver, como acontece, entre outros, nos “blocos” de casos que passo a citar: a)      Branca de Neve e os Sete Anões”, “Cinderela, a Gata Borralheira”, “A Bela e o Monstro” ou “A Bela Adormecida” em que a inexistência de uma figura materna protectora e a exposição a figuras como as “más madrastras”, as “más irmãs” ou as “fadas más” e os pais ausentes (no sentido físico ou figurado) colocam as protagonistas como figuras indefesas, perante sentimentos de injustiça e sofrimento; b)      Hansel e Gretel” (história também conhecida pelo título: ”A Casinha de Chocolate”), “Rapunzel”, “A Princesa no Monte de Vidro” ou o “Gato das Botas” em que os protagonistas são sujeitos a desafios que requerem a ousadia do espírito de iniciativa e do exercício da auto-estima; c)      A Sereiazinha”, “Aladino e a Lâmpada Maravilhosa”, “O Rapaz que tinha um Segredo” ou “A Leste do Sol e a Oeste da Lua” em que os desejos dos personagens requerem o voluntarismo e a determinação através da realização de sacrifícios que implicam o cumprimento de penosas tarefas; d)     Sinbad, o Marinheiro”, “Ali-Bábá e os Quarenta Ladrões”, “A Rainha das Neves” e “O Anel de Bronze”, em que o esforço e a coragem dos personagens são premiados com a realização dos seus desejos, muitas vezes de forma imprevista.
(...) O que caracteriza estas composições é sempre, de qualquer modo, um mundo complexo em que o personagem principal (uma criança ou um jovem) se apresenta vitimizado pelo facto de ter sido surpreendido por realidades que, pela sua natureza dramática, lhe impõem sacrifícios e criam ambientes de desesperança, permitindo à criança uma projeção por analogia do seu “desconcerto” face ao mundo dos adultos, cujas regras não são, naturalmente, evidentes, aos olhos da impetuosidade infantil. Esta cumplicidade com os personagens, num quadro de solidão e incerteza face à necessidade de alteração ou entendimento dessas realidades, encontra então, nos contos clássicos, respostas que são, regra geral, suficientes, no sentido de se constituírem como contributos preciosos para que a criança construa a tríade cognitiva e comportamental de que precisa para sobreviver e coexistir: 1)      ser paciente em relação à sua própria inquietude; 2)      desenvolver uma atitude pró-activa de auto-estima que lhe facilite a integração social pacífica, sem perder a consciência crítica; 3)      criar resiliência através da esperança decorrente de acreditar na resolução dos problemas.
Nos dias que correm, pedagogos e psicólogos, educadores e pais, parecem desejar e pretender que as crianças, através de uma espécie de “domesticação” forçada pela ocupação maximizada dos seus tempos livres, sejam conduzidas, automaticamente, aos resultados supra-enunciados - como se a personalidade de uma criança pudesse reduzir-se à produção de um “reflexo condicionado” pela simples ocupação estruturada do seu tempo, com práticas que, contudo, decorrem do leque de escolhas disponibilizado pelos adultos. (...) De facto, tal como se constata em relação a uma maioria significativa das novas gerações que, não tendo sido confrontadas com privações materiais (porque os pais conseguiram níveis de vida capazes de as resguardar das dificuldades de subsistência, com que, em particular em Portugal, as pessoas estiveram familiarizadas até aos anos 70 do século XX), não se revelaram mais competentes no que respeita à integração societária, desenvolvendo, inclusive, formas graves de violência de grupo que se reveem, por exemplo, no bullying e na violência no namoro e a que não é alheia (antes, pelo contrário!) a influência dos modelos comportamentais mediatizados pelos jogos tecnológicos, os media e a própria cinematografia onde a violência emerge como forma de comunicação e de resolução de conflitos, contrariando o que a sociedade e a escola procuram, teoricamente, refletir em termos de valores democráticos, designadamente, a solidariedade e o respeito pela diversidade. Cientes de que a educação determina (ainda que não de forma exclusiva!) aquilo que podemos designar por “visão do mundo” e que subjaz às atitudes e práticas das crianças e dos jovens, cabe por isso, trazer à reflexão a presente temática do papel da narrativa que os contos materializam, através da qual se promove a comunicação e a interação e se pode desenvolver a reflexão sobre as formas de responder às dificuldades, reforçando a resiliência e incentivando a não-violência. (...)
(...) De facto, apesar do mundo de hoje se encontrar repleto de materiais de lazer e entretenimento, a verdade é que, nos últimos anos, se acentuaram as desigualdades sociais e, consequentemente, em virtude do constante aumento de uma pobreza que se pensava pertencer ao passado, estão também em crescendo, as dificuldades no que respeita à igualdade no acesso aos meios didáticos. Porém, às nossas crianças falta também o tempo de partilha de reflexão que os contos podem permitir através da audição, leitura e debate nos ATL’s e nas escolas… e esse é um recurso que não podemos dar-nos ao luxo de dispensar porque, para além de recursos materiais, de afeto e de atenção, as crianças carecem, fundamentalmente, de espaço para o exercício da liberdade de pensar, ouvir e tentar compreender-se a si próprias e ao mundo onde vivem. E isso é trabalho de reflexão… é trabalho de reflexão, essa dimensão pedagógica muitas vezes subvalorizada e à qual urge conferir visibilidade, tornando-a uma prioridade do trabalho educativo, independentemente do escalão etário com que se trabalha.(...)
(...) As crianças precisam das fadas e da magia porque só o reino do imaginário lhes permite libertar-se dos constrangimentos do real quotidiano e só as narrativas com heróis com que se possam identificar, lhes viabilizam a possibilidade de encontrar formas de reação aos problemas e aos desafios que o dia-a-dia coloca. Nos “contos de fadas” não se ocultam os problemas sérios da vida como são a morte, a doença, a pobreza, a injustiça, a crueldade, a tristeza ou o desalento… mas, nos “contos de fadas” há também a celebração do esforço, da persistência, da bondade, da compensação pelo sacrifício, da alegria, da riqueza e do amor! Os “contos de encantar” são as narrativas em que “as fadas”, o acaso ou o mistério do inexplicável porque desconhecido, operam como promotores de factos que compensam os sacrifícios e o sofrimento, viabilizando a esperança e reforçando, no sub-consciente, a resiliência. É fundamental dar às crianças instrumentos que as não façam fugir de si próprias para se esconderem (distraídas em jogos desumanizados e repetitivos) mas que lhes permitam, pelo contrário, pensar, imaginar, distanciar-se de si próprias e do seu mundo para, pensando em personagens que lhes criam empatia em cenários complexos, se devolverem a si próprias mais ricas e com mais recursos para enfrentar os dias, as famílias, a escola e o mundo de competição e agressividade em que o ambiente social se está a transformar, cada vez mais vertiginosamente. Se pensarmos com cuidado, no mundo de encantar dos contos clássicos em que a magia e as “fadas” são fatores e personagens que interagem com o real, nenhum personagem resolve os seus problemas com violência (mesmo quando são vítimas da coação, da violência psicológica ou de maus-tratos) e sem passar por um período de dificuldades que, no final, consegue ultrapassar!… É essa a mensagem que é preciso que as nossas crianças interiorizem: tudo muda!... tudo é passageiro e todas as dificuldades se ultrapassam sem que necessitemos de recorrer à violência, com confiança, auto-estima, perseverança, esforço e… bondade! Por tudo isto, penso que não vale a pena insistir em desenvolver mais a mensagem que aqui vos trago: contem, leiam, comentem e estimulem a leitura, em todas as áreas deste magnífico trabalho que é a educação, dos chamados “contos de fadas”.(...)".
 



 
 
 
 

 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Da Educação...

... ou, como dizia Alphonse Daudet: "A melhor maneira de impor uma ideia aos outros, é fazer-lhes crer que é deles que ela parte"...

sábado, 18 de junho de 2011

Pinto Monteiro - Seriedade, Bom Senso e Equilíbrio


O Procurador Geral da República é das figuras mais respeitáveis que Portugal tem conhecido no desempenho de altas funções de Estado e das mais altas funções da Magistratura. Pinto Monteiro é um homem profundamente sério, invulnerável à corrupção e ao tráfico de influências e tem desempenhado funções com a claridade e transparência que gostariamos de ver em todos os políticos e cidadãos portugueses. As palavras com que comentou o lamentável e gravoso incidente dos desprestigiados alunos do CEJ, reiteram a forma clara e honesta como temos que encarar os factos do presente e do futuro. E se os alunos do CEJ abriram, por responsabilidade que só aos próprios pode ser imputada, um precedente de profunda desconfiança em relação ao seu perfil individual, é também de relevar a explicação do Vice-Presidente do Conselho Superior da Magistratura, Bravo Serra, quando diz que as "criaturas" levaram para a formação avançada os degradantes hábitos adquiridos na formação escolar anterior... porque é um facto que, actualmente, nos diferentes graus de ensino, a atitude cultivada em relação à seriedade do saber é, simplesmente!, nula! - questão que, registe-se!, implica também o percurso da formação de professores! Sejamos sérios... simples, directos e honestos na abordagem como compreendemos e interpelamos a sociedade em que vivemos... em nome do país que queremos ser!

domingo, 22 de agosto de 2010

Educação, Escolarização e Desenvolvimento (2)



Não é de resposta fácil a questão: o que fazer com a Educação? Os erros e equívocos acumulados ao longo dos anos em diversos sectores de intervenção dificultam em muito a resposta, a começar pela inexistência de uma estratégia técnica e científica da tutela, capaz de privilegiar a qualidade de ensino e garantir a promoção efectiva do aumento qualitativo das competências inerentes à problemática do ensino/aprendizagem... Porquê? Um dos motivos é, contrariamente ao que se presume quando se ouve falar em "actuação por objectivos", a ausência de um objectivo pedagógico-científico do sistema educativo. A verdade é que a política de um país também é o reflexo da sua sociedade e, consequentemente, a sua filosofia de educação e o seu sistema de ensino, ao invés de ultrapassarem os condicionalismos socio-políticos e culturais de senso-comum, reforçam essa limitação "a priori" da intervenção educativa, reduzindo-a ao estatuto de programa político operatório para o sector. Não se pode, por esta razão, pensar que a Educação, na sociedade de mercado, gerida de forma economicista e oportunista (não no sentido da criação das oportunidades mas, isso sim, no sentido da intervenção conforme às orçamentações ditadas economicista e ideologicamente), tenha o carácter pedagógico, altruísta e desinteressado que lhe caberia, conceptual e desejavelmente, para que a sociedade possa, de facto, progredir qualitativa e culturalmente, na senda da aquisição de competências múltiplas indispensáveis à inclusão e integração social de sucesso. E se este é o primeiro de todos os problemas da organização escolar e da definição do projecto educativo e formativo que se pretende para o país (e que poderiamos sintetizar na pergunta: que sociedade queremos para Portugal?), sucedem-se-lhe muitos outros que, para já, devemos destacar em duas vertentes. A primeira refere-se à problemática da formação de professores que decorre em quadros científicos quantitativos e desadequados ao desenvolvimento de um perfil pedagógico-científico altamente qualificado, resultante de um trabalho sistémico e estruturado metodológica e didacticamente, agravado pelo Processo de Bolonha cuja execução não permitiu um trabalho concertado de reflexão científica conforme às exigências das sua adequação nacional às populações e equipamentos de que dispomos. A segunda abordagem enquadradora desta proposta de reflexão remete para uma tripla consideração relativamente aos procedimentos organizacionais em matéria educativa: a relação entre a tutela e as escolas, a relação entre sindicatos, tutela e escolas e, finalmente mas de modo algum em último lugar, a relação entre a orgânica funcional dos estabelecimentos escolares e os docentes. No que se refere à relação entre a tutela e as escolas, é inaceitável que o papel do Ministério da Educação seja apenas o de um supervisor da execução das ordens político-orçamentais e das relações entre a política governamental e os sindicatos do sector; de igual modo, entre sindicatos, tutela e escolas é incongruente, face aos conteúdos pressupostos nesta relação, que os sindicatos reduzam o seu papel ao de contestatários da tutela e "ouvidores" dos docentes, sem qualquer expressão de pensamento científico-pedagógico capaz de credibilizar as respectivas estruturas (o que, diga-se, em abono da verdade, também decorre de uma incapacidade de renovação do pensamento sindical contemporâneo que continua, geracionalmente, a estar na mão de organizadores políticos que não actualizam a sua vertente científico-pedagógica); finalmente, mas, como já disse e repito, não em último e quiçá em primeiro lugar, a orgânica funcional das escolas denota que a solução para a melhoria do sistema de ensino não está na introdução de gestores e administradores escolares que apenas reforçam os projectos políticos economicistas e que o trabalho científico-pedagógico, curricular e extra-curricular dos docentes tem sido, sucessivamente, lesado. Uma palavra sobre esta última observação justifica-se a dois níveis: um, no que se refere à constante introdução burocrática de considerandos de que a avaliação e a resistência à sua aplicação é apenas um deles, reflexo da insegurança e da falta de confiança nos processos e protagonistas dos mesmos que, pelo que nos é dado ver!, não garantem aos professores a transparência de um modelo complexo e de elevada responsabilidade; outro, relativo à própria organização curricular, disciplinar, didáctica e pedagógica dos processos de ensino/aprendizagem, em que é digna de registo a ausência de visibilidade de algumas questões essenciais para o desenvolvimento qualificado da actividade educativa (reflexo da aceleração do processo de reconversão das entidades educativas em instituições cumpridoras de metas quantitativas com objectivos estatísticos tais como: redução e eliminação do insucesso escolar, relativização do abandono escolar e atribuição de diplomas de frequência de ciclos escolares)... dessas questões endógenas e fundamentais para a garantia de qualidade dos processos de ensino e de aprendizagem, actualmente votadas ao esquecimento ou à invisibilidade, destaco: a actualização de conhecimentos multidisciplinares dos docentes, o reforço da sua reflexão e debate científico quer em termos conceptuais, quer no que se refere à relação da escola com a comunidade e as famílias (registe-se que a aproximação cívica da escola à família e à sociedade tem vindo a ser diminuída - para o que muito contribuirá a política de encerramento de estabelecimentos de ensino e a deslocação dos alunos do meio residencial) e o reforço da respectiva autonomia enquanto agentes educativos. Fico por aqui sem a menor pretensão de esgotar o problema a que, a título de "achega" poderei talvez somar, ainda hoje ou amanhã, o último post desta eventual e sintética"trilogia" de considerações partilhadas...

sábado, 21 de agosto de 2010

Educação, Escolarização e Desenvolvimento (1)


Muito se tem escrito sobre Educação ou melhor, sobre o sistema de ensino e as suas condições logísticas... porque, de facto, sobre Educação e sobre a qualidade do ensino muito pouco se tem dito (rara excepção para a professora Maria do Carmo Vieira). Sobre o encerramento das escolas gostaria de deixar um pequeno preâmbulo: não é verdade que todas as escolas para onde vão ser transferidas as pequenas crianças que frequentam as 700 que vão encerrar sejam tão boas como se tem tentado fazer crer; não é verdade que as escolas por serem pequenas e terem poucas crianças sejam necessariamente deficitárias em competências educativas e sociais; não é verdade que seja melhor para as crianças ficarem longe da família e do seu espaço de socialização durante um longo período por dia; não é verdade que o anterior encerramento de cerca de 2.000 escolas tenha provado que as crianças têm melhores resultados ou que são mais felizes!... Não é verdade! Ponto! Daí que não seja, também!, verdadeiro, o argumento das razões pedagógicas como fundamento da medida que, a 3 semanas da abertura do ano lectivo, foi anunciada e que a qualidade de ensino seja, de facto, o cerne da questão e a principal preocupação do Ministério da Educação. Partindo destes considerandos, vale a pena registar outras tantas dimensões "a jusante" do problema: a) o desenraizamento social das crianças é um problema socio-cognitivo a que deve atender o desenvolvimento infantil, bem como o reconhecimendo da importância da sua dimensão cultural - que se não mede ou esgota no número de contactos interpessoais ou na quantidade de recursos materiais; b) a dimensão, afectiva, da segurança e da confiança são essenciais para o sucesso educativo, sendo reconhecido o facto de serem crianças desenraizadas as que mais facilmente crescem disfuncionalmente; c) o incontornável impacto socio-territorial desta medida, incentivará o êxodo rural, aumentará a densidade populacional das cidades e, atendendo às dinâmicas de desemprego e empobrecimento das populações, contribuirá para o aumento da pobreza e da violência social; d) a criação de melhores condições pedagógicas nos locais onde vão encerrar as escolas com o melhoramento de ATL's, actividades extra-curriculares e equipas interdisciplinares em articulação com as juntas de freguesia, as sociedades recreativas, as famílias e o apoio ao incentivo de projectos financiados para a criação de emprego contribuiria para diminuir o desemprego, contrariar a desertificação e contribuir para a criação de cidadãos com mais competências para integrarem, de forma útil, saudável e qualificada, a sociedade em que vivem. A terminar o primeiro post sobre o tema deixo um testemunho dos problemas que esta medida está já a provocar (in AL-TEJO) e, a título de introdução do post seguinte, um outro testemunho (in Quanto Tempo Tem o Tempo?).

sábado, 24 de abril de 2010

Vítimas da Memória da Ditadura aqui tão perto - Baltazar Garzón!




Faltam pouco mais de 90 m para se assinalar a hora em que, há 36 anos atrás, os militares de Abril levaram a cabo o arrojado empreendimento de derrubar uma ditadura com 48 anos. Vale por isso a pena aqui lembrar os eventos que se lhe associam de forma quer analógica, simbólica ou objectiva... e na sequência do post anterior não posso deixar de referir o perigo que advém da ausência de uma evocação da memória, capaz de, sob a narrativa multimedia de uma explicação pedagógica, consistente e insistente, desenvolver nas jovens gerações (crianças, adolescentes e jovens adultos, emigrantes ou não) a admiração e o respeito pelas lutas que significam e arrastam a conquista da Liberdade! ... De outro modo, ser-lhes-á vedada a compreensão do presente!... Não, afirmá-lo não é um lugar comum!... E, a título de exemplo, refiro um caso recente, ocorrido aqui ao lado, em Espanha, "tierra de nuestros hermanos", que combateu corajosamente a ditadura franquista cujos crimes se prolongam, para além da sangrenta Guerra Civil (que registou a ocorrência das primeiras Brigadas Revolucionárias de apoio aos opositores do regime liderado pelo tétrico Generalissimo Franco que mandava pendurar, no alto dos montes povoados do interior do território do seu país, os cidadãos fuzilados com o objectivo de servirem de exemplo dissuasor)... Falo, naturalmente, do Juíz Baltazar Garzón, cuja personalidade e trabalho de uma vida serão um dos modelos europeus (como o foi, noutro contexto, a operação "Mãos Limpas" liderada por António di Pietro em Itália) da luta contra a corrupção. E se evoco Baltazar Garzón é, não só por hoje ter sido organizada, também em Lisboa, uma manifestação de apoio a este Homem de Justiça que levou a Tribunal, ao fim de décadas de silêncio e branqueamento, o julgamento dos Crimes Contra a Humanidade cometidos pelo fascismo espanhol mas, acima de tudo, por considerar grave que, aos olhos das pessoas, em particular dos mais novos, o afastamento do Juiz Baltazar Garzón e a sua condenação por alegadamente ter transcendido o domínio da sua competência no que respeita à acusação dos fascistas que perpetraram tais crimes seja incompreensível, pouco tempo depois da sua actuação contra o terrorismo, ter sido, felizmente!, altamente mediatizada também em Portugal. O que está em causa é que os jovens percebam que a Justiça é uma invenção humana e que o Direito assume formas susceptíveis de praticar a injustiça!... e que, quando assim é, é, mais do que nunca, um dever cívico a luta pelos Direitos Humanos, pela Justiça e pela Liberdade!... e que foi isso que foi feito em Portugal, com o 25 de Abril - uma das maiores lições que podemos transmitir às gerações que se nos seguem!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mais que Nós, a Natureza...




A vida existe na exacta medida em que persistem as condições do meio indispensáveis ao seu desenvolvimento... transmuta-se, deteriora-se e extingue-se quando essas condições se alteram de tal forma que a sobrevivência, tal como a concebemos, deixa de ter condições de adaptabilidade e resistência à violência de um ritmo de mudança agressivo que a produção humana impõe à natureza... Proteger, Preservar e Contribuir são hoje palavras de ordem, essenciais à vida... enquanto sobrevivência física e existência plena e digna... para a Preservação da Água, a Reflorestação do Planeta, o Desenvolvimento da Agricultura Biológica e o Reequilíbrio Humano é fundamental a ajuda de Todos! Colabore!... O planeta é de todos!... cada atitude e cada gesto contam!

domingo, 9 de agosto de 2009

Prémios Comprometidos Y Más 2009...


Sustentabilidade É Acção é um trabalho de referência no panorama da blogosfera envolvida na defesa da vida e do planeta. Um blog útil e indispensável para a promoção militante da qualidade de vida... por tudo isso e pelas razões que lhe são adjacentes, A Nossa Candeia ficou feliz com a distinção que lhe foi atribuída, ao integrar a lista de agraciados com o Prémio Comprometidos Y Más 2009. Uma Causa internacional e prioritária como é a Sustentabilidade Ecológica que envolve os cidadãos, convicta de que os actos individuais são hoje uma fonte fidedigna de militância por um mundo melhor, justifica o reforço da sua divulgação... nesse sentido, dando continuidade a este trabalho, A Nossa Candeia prolonga esta distinção, tal como foi sugerido, a 15 blogues que passo a indicar, por ordem alfabética e tentando não repetir os já agraciados:

















quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Celebrar a Vida é Condenar o Extermínio...



Uma Lua Cheia, côr de ouro velho acabado de limpar, ergue-se na tela azul forte do céu sobre o Tejo e sorri à humanidade... a beleza reflexa do sol que nela se encaixa, apaga todas as lágrimas, todos os medos, todas as dúvidas... e dá voz ao pensar que acompanha os nossos olhos erguidos e gratos, pela natureza com que aprendemos o indizível espanto de amar a vida...

... a vida em nome da qual não poderemos ser cúmplices da demagogia que apregoa como "limpos" os resíduos de uma produção energética que matou massivamente, faz hoje 64 anos, em 1945, em Hiroshima e Nagasaki repetindo a crueldade, por um irreversível e fatal incidente acidental que, há 23 anos, em 1986, aconteceu em Chernobyl... hoje, todos nós, humanos e conscientes e a própria democracia, enquanto escola de cidadania, temos a obrigação de, por todos os meios, não deixar esquecer...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Hiroshima, Hoje!





Dia 6 de Agosto, partir das 19h, no Largo de S. Domingos, em Lisboa, assinala-se o 64º aniversário do Bombardeamento Nuclear de Hiroshima, ocorrido no dia 6 de Agosto de 1945... três dias depois, foi bombardeada a cidade de Nagasaki.

PARA QUE NÃO ESQUEÇA!, entre música, arte e presenças de paz, cívicas e solidárias que significam: HIROSHIMA NUNCA MAIS!...

... queremos dizer, por tudo isso e pelo futuro: NUCLEAR? NÃO OBRIGADO!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Veto Governamental - ou da Honra e da Vergonha na sociedade portuguesa...

O veto do Governo de José Sócrates à compra da TVI pela Portugal Telecom foi um acto de lisura... independentemente das reacções que determinam a obstinada e cega atribuição de uma culpabilização factual ou fictícia que a sabedoria popular reconhece pela expressão "preso por ter cão e preso por não ter", a atitude do Governo denota a capacidade de enfrentar uma oposição especulativa e provocadora... quando acabou de ser divulgado o aumento do número de casos de "crimes de honra" na Europa e num tempo em que a "geração Berlusconi" se defronta com o preço do seu auto-deslumbramento perante um mercado em que valores e ideias se trocam por marketing e publicidade, promovendo padrões de uma espécie de "tráfico" da imagem, alienante, anti-democrática, corrosiva e capaz de fazer "render" as intenções renovadoras aos paradigmas de uma tradição em que corrupção e concepções de seres humanos como "objectos sexuais" se reeditam como paradigmas de uma universalidade provinciana de mau-gosto, é, indiscutivelmente, significativo.

domingo, 14 de junho de 2009

Do Direito Peticionário aos Paraísos Fiscais...


Instrumento de acesso ao poder legislativo no que respeita à expressão cívica, o Direito Peticionário é hoje utilizado como se de referendos informais, espontaneamente emergentes na sociedade civil, se tratasse... Dada a natureza não vinculativa das Petições, este instrumento da democracia participativa, tornou-se, nos últimos anos, recurso de cidadãos e organizações com o objectivo de conferir visibilidade pública às temáticas que se configuram como seu objecto, através da apresentação de um documento assinado colectivamente, o qual pode vir a ter rosto político - no caso do número de signatários ser elegível para uma sua eventual "subida" a Plenário, na Assembleia da República. Contudo, o débil reconhecimento da importância das Petições mesmo a nível político na própria AR, faz com que as Petições sejam apresentadas "a correr", no contexto de pequenas intervenções partidárias que, no Plenário da AR, talvez por não ser habitual mas, também, seguramente, por se tratar de um instrumento não reconhecido politicamente como prioritário, apresentam resultados dissonantes relativamente ao interesse que os subscritores lhe reconhecem. Contudo, ainda assim, não devemos demitir-nos de a ele recorrer... por isso, quem quiser assinar a Petição contra os Paraísos Fiscais, pode fazê-lo aqui.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Sorrir...



Ontem, aqui mesmo, num texto a que chamei "O Dever da Utopia" relembrei os Direitos da Criança... Hoje, 1 de Junho, Dia da Criança, fica o registo da fantasia e do prazer com que se sonha e aprende o mundo... para todas as crianças, por todas as crianças... para todos nós! Com alegria, Feliz Dia da Criança!