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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Da Literatura como Construção da Cidadania - "Anuro, o Sapo, Sapinho..."

A convite do meu amigo António Luís Carlos, o premiado autor de literatura infantil Carlos Canhoto, escrevi o texto que agora, aqui, partilho! Recomendo vivamente a sua leitura atenta, em casa, nas escolas e em todos os espaços onde haja crianças e se cumpra a missão de as educar com o objetivo de delas fazermos cidadãos melhores, capazes de ajudar a resgatar a esperança do mundo em que vivemos! Depois de o lerem, espero que o comprem porque é, de facto, uma obra-prima da literatura infantil!
" A Literatura Infantil é uma festa!... Tem que ser uma festa! Tem que ser uma festa porque, enquanto instrumento de transmissão e valorização do conhecimento, enquanto veículo de aprendizagem e meio de formação, a literatura infantil tem a extraordinária responsabilidade social de ajudar a configurar as formas de ser e de estar dos mais pequenos, de lhes parametrizar os gostos estéticos e os juízos, as tendências e a ética.
Nesse jogo complexo de interações entre o objeto que é o livro infantil e a criança que o lê, há uma densidade carregada de sentido de que o autor tem que ser, necessariamente, consciente porque é essa densidade de “mais-valia”, com a capacidade transformadora de acrescentar qualquer coisa ao que se sabe, que as crianças procuram nos livros e nas histórias.
Se o livro desaparecer como tantos vaticinam, a perda e o retrocesso do ritmo de aprendizagem seria tal que, provavelmente, aumentaria exponencialmente o grau de agressividade e de violência social a que estamos constantemente sujeitos, também nas escolas sob a forma de bullying e assédio em função das mais discriminatórias e gratuitas razões – particularmente, porque os jogos tecnológicos com que as crianças e os adolescentes se distraem, veriam significativamente aumentado o seu grau de influência, em termos de capacidade alienante e de ameaça face ao desenvolvimento integral e harmonioso que é preciso promover nas populações mais jovens.
De facto, os jogos electrónicos assentam no desafio, na concorrência e na competitividade enquanto os livros assentam num estrutura narrativa consistente que requer reflexão e, por isso, os jogos despertam adrenalina e tensão ao invés dos livros que despertam tranquilidade e imaginação.
Carlos Canhoto, pseudónimo do autor do livro que hoje aqui vamos apresentar, materializa, com o suporte cromático vivo e simples da excelente ilustradora Rita Goldrajch a competência pedagógica e a natureza intrínseca da literatura infantil através de histórias que, com os pés assentes na terra, fazem sonhar, a propósito de realidades simples.
Carlos Canhoto descobre, revela e pinta narrativamente a realidade do mundo que habitamos e do chão que pisamos, conferindo-lhe a beleza que só a poesia do olhar pode encontrar. É disso que é testemunho a história de Anuro, o sapo sapinho que tinha um tesouro, um tesouro que, apesar de conhecido, se manifesta estranho, surpreendente e encantado perante a maneira de o contar.
Esta é uma arte rara, a de contar o mundo como se de um conto de fadas se tratasse (e talvez assim seja, se pensarmos na extraordinária oportunidade que temos de embelezar e aperfeiçoar a realidade dos dias) e conseguir transmitir essa ideia a todos, em particular, os mais novos.
Anuro é o sapo, sapinho que não precisa de se transformar em Príncipe, porque é belo e bom tal como é! Anuro é o sapinho que nos faz gostar, respeitar e sentir ternura até pelos sapos…
Anuro é um antídoto contra a discriminação introduzida nos pequenos espaços públicos para afastar pessoas de etnia cigana!
Anuro conquista, convence… e vence! Vence o mercado, a produção em massa, os clichés que sempre se deixam dizer nestas palavras.
Anuro é uma história simples, verdadeira, ilustrada com uma intensidade sem par que, compondo o seu próprio mundo, o partilha e que as Edições Poejo, com brio, dão hoje à estampa e a todos os públicos que tanto dele podem, construtivamente, aproveitar.
Anuro vai ser, talvez, o primeiro sinal de mudança que remete para a revalorização da natureza enquanto paisagem e terra firme da criação, dos alimentos saudáveis e da alegria.
E se dúvidas houvesse sobre a eficácia e a concretização dos objectivos expostos, Carlos Canhoto dá a resposta com um conjunto de iniciativas anexas à história de Anuro, que o tornam exemplar na concretização de todas as iniciativas pedagógicas: Anuro traz um jogo para os mais pequenos jogarem, uma canção (belíssima!!!) para todos cantarmos e um espaço em branco para que se possa pintar – recursos através dos quais Anuro se transforma num sapinho personalizado de fácil e empática apropriação afectiva por todos os leitores, qualquer que seja a sua idade.
E é de leitores, narradores, animadores e professores que, agora, Anuro precisa para que seja possível conferir mais beleza à realidade e mais sentido a todas as coisas…
… como o vem fazendo António Luís Carlos, um inventor dos dias e um criador de sonhos que, como uma espécie de alma guardiã e protectora, passa há décadas sobre as casas e as gentes, na forma de uma sombra discreta promotora da esperança que atravessa os campos que habita como um fôlego e que, como uma luz, dá, serena e discretamente, à comunidade, a vida, a cultura e a alegria com que, decisivamente, contagiou e fez crescer Mora.
Votos de Boa Leitura para todos os que irão conhecer e amar Anuro, o Sapo, Sapinho!"
Este meu texto de apresentação de "Anuro, o Sapo Sapinho" foi publicado no Jornal online "Alentejo em Linha" que vale a pena conhecer e pode ser lido também AQUI

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Leituras Cruzadas...

Eduardo Maia Costa in Sine Die
e
 
(imagem via Flávio Pinho no Facebook)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Leituras Cruzadas...

Ana Matos Pires no Jugular
José Manuel Correia Pinto no Politeia
Estrela Serrano no Vai e Vem
Sofia Loureiro dos Santos no Defender o Quadrado
Valupi e Isabel Moreira no Aspirina B
José Carlos Pereira no Incursões
Rui Rocha e Luís Menezes Leitão no Delito de Opinião
Miguel Abrantes no Câmara Corporativa
Lopes Guerreiro no Alvitrando
Eduardo Maia Costa no Sine Die
Paulo Pedroso no Banco Corrido
Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória
Jorge Carvalheira no Ladrar à Lua
Eduardo Graça no Absorto

sexta-feira, 14 de junho de 2013

João Pinto e Castro...

In Memoriam de João Pinto e Castro, nada melhor que reler a sua última crónica: "Memorando para a Salvação do Capitalismo"...

domingo, 14 de outubro de 2012

Leituras Cruzadas...

... há coisas a que nem a distância resiste... é o caso da recente atribuição do Prémio Nobel da Paz (?!) sobre o qual, com a devida deferência, faço minhas as palavras de Eduardo Maia Costa no Sine Die... mas, porque há exemplos que mantêm uma atualidade implacável, aproveito para evocar o texto de Raul Iturra no Aventar... e partilhar o apelo de Bruno Santos Ribeiro no Moescar, bem como a Carta Aberta (2) de Eugénio Lisboa que Manuel Pacheco publicou no Coisas que Podem Acontecer... e pronto... para quem está longe, é suficiente para dar nota de vida :))

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Leituras Cruzadas...

JM Correia Pinto no Politeia
João Arsénio Nunes via Nuno Ramos de Almeida no Cinco Dias
João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas
Raimundo Narciso no Puxa Palavra
Carlos Fonseca no Solos Sem Ensaio
Rogério da Costa Pereira no Pegada
Carlos Barbosa de Oliveira no Crónicas do Rochedo
Valupi no Aspirina B
Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória
Helder Guerreiro no Aventar
Bruno Santos Ribeiro no Moescor
Eduardo Marculino no História Viva

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Leituras Cruzadas...

Bruno Carvalho no Cinco Dias
Miguel Serras Pereira no Vias de Facto
Sofia Loureiro dos Santos no Defender o Quadrado
Filipe Tourais no O País do Burro
Porfírio Silva no Machina Speculatrix
Estrela Serrano no Vai e Vem
Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória
Shyznogud no Jugular
Carlos Barbosa de Oliveira no Crónicas do Rochedo
Eduardo Marculino no História Viva
Weber no Mainstreet
Maria do Céu Mota no Aventar

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Leituras Cruzadas...

JMCorreia Pinto no Politeia
Shyznogud no Jugular
Sofia Loureiro dos Santos no Defender o Quadrado
Francisco Clamote no Pegada
Weber no Mainstreet
Graza no Arroios
Kaosinthegarden no We Have Kaos in the Garden
Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória
Raul Iturra no Aventar

sábado, 23 de junho de 2012

Leituras Cruzadas...

Enquanto se aguarda o anúncio de novas medidas de austeridade (ler aqui) que muitos presumem ser o contexto de um segundo pedido de resgate, economia, política e sociedade vão dando sinais cada vez mais preocupantes... e estar atento é uma condição indispensável à concertação social (no mais literal sentido da expressão), designadamente pela manifesta ausência de uma "luz ao fundo do túnel" ou, pelo menos, de uma visão estratégica concertada para enfrentar a realidade... Concorde-se ou não, é importante ter a noção das perspectivas que se colocam "em cima da mesa"...

JMCorreia Pinto no Politeia
Estrela Serrano no Vai e Vem
Nuno Serra no Ladrões de Bicicletas
João José Cardoso no Aventar
Ana Matos Pires no Jugular
José Medeiros Ferreira no Córtex Frontal
Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória
Eduardo Pitta no Da Literatura
Vital Moreira no Causa Nossa
Rentes de Carvalho no Tempo Contado
Miguel Madeira no Vento Sueste
Galopim de Carvalho no Sopas de Pedra

sábado, 16 de junho de 2012

Leituras Cruzadas...

Estamos no epicentro de uma revolução europeia - se considerarmos que o termo "revolução", na sua dimensão significante de "transformação" e "ruptura" também implica sentidos em tudo opostos aos que norteiam as referências do 25 de Abril. De facto, a dita revolução em curso, em tudo coincidente com o que se considera um contraciclo relativamente às dinâmicas da 2ª metade do século XX, é um um processo contra-revolucionário que, natural e dialecticamente, terá (felizmente!) o seu reverso... mas, previsíveis e visíveis que já são os custos sociais, económicos e políticos que fazem parte da sua natureza, impõe-se uma intervenção concertada capaz de confrontar esta Europa que, aparentemente, não tem em curso qualquer estratégia ou táctica sustentada contra o poderio germânico de que Merkel tem sido protagonista... e urge uma estratégia politicamente determinada e economicamente sustentada! Amanhã, há eleições na Grécia e todas as esperanças para lá se nos transferem - porque os exemplos sempre darão os seus frutos!... esperemos que o Syriza "não quebre nem vergue", qualquer que seja o resultado... e que a esquerda grega não caia na tentação de um divisionismo que não aproveitará a ninguém... afinal, pode aí (re)começar o futuro da Europa! Com este "pano de fundo" sugiro a leitura de alguns textos essenciais que passo a destacar:
JMCorreia Pinto no POLITEIA,
Amartya Sen e Gustavo Cardoso publicados por Nuno Serra no LADRÕES DE BICICLETAS onde também estão textos de João Rodrigues (a ler também Aqui), Jorge Bateira e Ricardo Paes Mamede,
Renato Teixeira, Pedro Penilo , Raquel Varela e André Levy no CINCO DIAS,
e Carlos Bastardo através de João Abel de Freitas no PUXAPALAVRA.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Leituras Cruzadas...

JM Correia Pinto no Politeia
Helena Sacadura Cabral no Delito de Opinião
João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas
Estrela Serrano no Vai e Vem
Maria Flor Pedroso no Sem Embargo
João Abel de Freitas no PuxaPalavra
Eduardo Pitta no Da Literatura
Carlos Barbosa de Oliveira no Crónicas do Rochedo
Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória
Miguel Madeira e Miguel Serras Pereira no Vias de Facto
Porfírio Silva no Machina Speculatrix
João José Cardoso no Aventar
Graza no Arroios
Carlos Fonseca no Solos sem Ensaio
Ricardo Alves no Esquerda Republicana
Rogério da Costa Pereira e Luís Moreira no Pegada
... entretanto...
Manuela Araújo no Sustentabilidade é Acção.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Leituras Cruzadas...

JMCorreia Pinto no Politeia
Manuela Araújo no Sustentabilidade é Acção
António Salvado e Luís Moreira no Pegada
Ana Gomes no Causa Nossa
João Abel de Freitas no Puxa Palavra
Osvaldo Castro no A Carta a Garcia
Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória
Eduardo Marculino no História Viva
Conta Corrente no Cont(R)a Corrente

terça-feira, 27 de março de 2012

Leituras Cruzadas...

Quase sufoca esta falta de tempo para o pensar e o dizer, no acumular acinzentado dos dias, a contrariar a luz dos céus que antecipa o verão... ficam, por isso, esparsos, retratos breves do tempo que passa:
JMCorreia Pinto no Politeia
João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas
Maria Flor Pedroso no Sem Embargo
Miguel Abrantes no Câmara Corporativa
Osvaldo Castro no A Carta a Garcia
Paulo Guinote no A Educação do Meu Umbigo
Luís Moreira no Pegada
Ricardo Alves no Esquerda Republicana
Graza no Arroios
Renato Teixeira no Cinco Dias
A Areia dos Dias no A Areia dos Dias
Eduardo Pitta no Da Literatura.

sábado, 3 de março de 2012

Leituras Cruzadas...

Afinal, apesar de tudo, ainda há quem saiba usar os mecanismos da democracia da melhor maneira (leia-se Nuno Teles no Ladrões de Bicicletas)... pelo que é suposto que até, por exemplo, no que se refere à economia e às políticas sociais, seja sempre possível a (re)organização de forma a não contribuir para o crescimento das desigualdades... contudo, há que respeitar um requisito "a priori": a existência de uma orientação política ponderada e adequada aos princípios que garantem a sobrevivência das sociedades democráticas e contribuem para a sua sustentabilidade económica e social (leia-se a notícia divulgada por Miguel Abrantes no Câmara Corporativa) - tudo isto apesar do diagnóstico contraditório sobre o país que nos vai sendo apresentado, pela diversidade interpretativa de quem vai pensando os dias (leiam-se João Rodrigues no já citado Ladrões de Bicicletas, Luís Moreira no Pegada, Vital Moreira no Causa Nossa e Valupi no Aspirina B)... Curiosamente, apesar da crise ser comum, ignorando fronteiras e dando rosto a uma globalização que as pessoas desejaram sem imaginar a vertente oculta que, necessariamente, atrás de si se arrastava como uma sombra, as respostas não são, felizmente!, repetitivas, deixando assim lugar à esperança cada vez mais longínqua... a título de exemplo, constatemos: ao mesmo tempo que, por cá, a pobreza se expande epidemicamente (leia-se Francisco Clamote no Terra dos Espantos) e a saúde pública começa a manifestar sinais preocupantes de efectiva degradação das condições de vida (leiam-se Filipe Tourais no O País do Burro e Raquel Varela no Cinco Dias), no país de nuestros hermanos levanta-se a voz contra exigências consideradas contrárias aos interesses nacionais (leiam-se JMCorreia Pinto no Politeia, a referência no já citado no Câmara Corporativa e o já citado Francisco Clamote desta vez no Pegada) e na Europa, em vias de colapsar económico-politicamente, existem ainda associações capazes de juntar forças para a defesa das causas relevantes para o património democrático que pretendem defender (leia-se Osvaldo Castro no A Carta a Garcia)... depois de tudo isto e porque respirar é preciso, leia-se Carlos Fonseca no Aventar ...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Um Dia Isto Tinha Que Acontecer...

Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?"
ANÓNIMO

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Leituras Cruzadas...

... para uma leitura cruzada do que vai pelo mundo e pelo país, sugiro muita, mas mesmo muita literatura... de qualidade!... por exemplo:
JM Correia Pinto no Politeia
João Abel de Freitas e Raimundo Narciso no Puxa Palavra
Francisco Clamote no Terra dos Espantos
Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória
Osvaldo Castro no A Carta a Garcia
Eduardo Maia Costa no Sine Die
Rolf Dahmer, Ariel, Rogério da Costa Pereira, Luís Moreira e António Leal Salvado na Pegada
Célia de Sousa e Maria Flor Pedroso no Sem Embargo
Alexandre Rosa no Olhares do Litoral
M.S.Ferreira no On The Road
A.Pedro Correia no Aventar
Ricardo Santos Pinto e João Valente Aguiar no Cinco Dias...
... e porque nos faz bem pensar duas ou mais vezes antes de nos precipitarmos a avançar juízos sem sustentabilidade e que pouco atendem às lições da História, vale ainda a pena ler Ana Vidal e Pedro Correia no Delito de Opinião, Xavier Canavilhas na já citada Pegada, Nuno Serra no Ladrões de Bicicletas e... Vitor Oliveira Jorge no Trans-ferir.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Com um Pé na PEGADA...

Confesso que o convite vem de longe mas, desta vez, como dizia o Rogério da Costa Pereira, cedi ao cansaço e, com sincero regozijo, começo, a partir de agora, a escrever, também, no PEGADA... como digo no 1º post que aí acabei de publicar (ler aqui), tentarei não me repetir :))

domingo, 8 de janeiro de 2012

Leituras Cruzadas...

De vez em quando, o país é assaltado por sensacionalismos que, mesmo que ilustrem o painel e o puzzle da multiplicidade das práticas atribuídas à  corrupção e ao tráfico de influências, ficam sempre impunes como se de um pequeno sobressalto, sem consequências, se tratasse. A forma algo criteriosa e dissimulada com que o fogo-fátuo das pretensas descobertas é, superficialmente e em jeito de pequeno escândalo, trazido a público, é o sinal maior de que o problema não será resolvido pela ideologia vigente na organização política que conhecemos - mais que provavelmente porque é à luz desta lógica de procedimentos que se configura (ainda que, segundo as aparências, informalmente) a prática da democracia representativa do século XX que se prolonga por este início de século XXI - sem que possamos, por ora, garantir que a sua progressiva transformação será melhor para os cidadãos e para a transparência democrática... tudo isto apesar da gravidade que o modelo representa para a institucionalidade política, económica e social que, colectiva e idealmente, se tem pretendido. Vale a pena ler alguns dos textos que exemplificam bem o que está em causa; por exemplo: Ricardo Santos Pinto no Aventar, Rui Bebiano no A Terceira Noite, PSL no Pedro Santana Lopes, João Moreira de Sá no Pegada, Valupi no Aspirina B e Weber no Mainstreet. Entretanto, a conjuntura histórica que atravessamos (leiam-se as caracterizações paradigmáticas que nos propõem os textos de Carlos Fonseca no já citado Aventar, de Osvaldo Castro no A Carta a Garcia, de Francisco Clamote no Terra dos Espantos, de João Pinto e Castro no Jugular, de João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas e no recente post do We Have Kaos in the Garden), aproxima-se grosseiramente de uma radical alteração de ideários de que Paulo Varela Gomes dá exemplo no texto transcrito pela Joana Lopes no Entre as Brumas da Memória... Moral da História: uma vez que as dinâmicas dos antagonismos sociais continuam sem confirmar que o futuro se dirige à construção de um mundo melhor para todos, tudo o que nesse sentido fizermos, não será, de facto!, demais.