terça-feira, 31 de agosto de 2010

Conto Musical para uma noite de Verão...


... sob o pretexto da peça "Quadros de uma Exposição" de Mussorgsky, um velho conto russo... simples, metafórico e catártico como convém ao pensar a vida pelos olhos livres e confiantes das crianças que ainda somos capazes de ser... a interpretação, ao piano, é de S.Richter... para uma noite de Verão em que se diz adeus ao mês de Agosto e se formulam votos de um Setembro tranquilo e feliz.

Leituras Cruzadas

A notícia tem sido a problemática das mulheres... designadamente, a propósito da lapidação e do caso de Sakineh Ashdanti. Por isso, penso que todos ficaremos a ganhar se lermos o que é provavelmente o melhor texto que li sobre o Afeganistão, publicado por Eduardo Marculino no História Viva... e, se depois desta leitura, tiverem disponibilidade para continuar as leituras, vale também a pena, entre tantos outros, ler no mesmo blogue os textos: Acendem-se as Fogueiras, Caçam-se as Bruxas e Mulheres - Silêncio nas Minas ... quanto ao publicado por cá, ainda a propósito de mulheres e da manifestação do passado domingo no Largo Camões em Lisboa, leia-se o texto de Ana Cristina Leonardo no Meditação na Pastelaria a que devemos acrescentar, para que se não esqueça a problemática dos Direitos dos Povos, tão preteridos e tão essenciais que se torna inadmissível o nosso silêncio, o que nos expõe Carlos Barbosa de Oliveira no Crónicas do Rochedo bem como, a título de enquadramento, a proposta de reflexão de Valupi no Aspirina B... mas porque a solidariedade é mais do que pode querer fazer parecer a tradicional e linear dicotomia que se apregoa, vale a pena ler o texto de Rui Herbon no Jugular... tal como, porque a complexidade dos factos se não esgota na nossa perspectiva, se deve reflectir nas chamadas de atenção de Alcipe no Tim Tim no Tibete e de João Ricardo Vasconcelos no Activismo de Sofá.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Despedimentos Sem Rosto?! - Tolerância Zero!


Foi através do A Carta a Garcia que tomei conhecimento de um facto inaudito até ao momento na sociedade portuguesa: as operárias de uma fábrica de calçado sediada em Arouca que decidiu encerrar portas, foram informadas do seu despedimento, à revelia da ética, do respeito pelos mais elementares direitos dos trabalhadores e das mais básicas regras de educação, por telemóvel, via sms (ler toda a notícia aqui no DN)... tornou-se assim realidade aquilo que, há uns meses atrás, surgia nos ecrãs de cinema, como metáfora e ficção, sobre a desumanidade dos despedimentos sem rosto que a tecnologia viabiliza e que, no filme "Up in the Air", traduzido em português por "Nas Nuvens", George Clooney bem protagonizou... O método é de uma crueldade atroz já que não permite qualquer tipo de diálogo sobre a situação e elimina a possibilidade de esclarecimento a que as vítimas têm direito... contudo, no mundo do mercado da concorrência e da precariedade, recorre-se de facto, já!, a este tipo de procedimentos que caracterizam o que se designa por liberalização laboral e se dissimula com a sua pretensa relativização sustentada manipulatoriamente pelo recurso ao argumento da polivalência e da flexibilidade... o mundo está, de facto, perigoso e a sobrevivência de todos realmente ameaçada... contra este tipo de práticas, a sociedade tem o dever e o direito de exigir: Tolerância Zero!

Prémio Especial 25 Blogs


A Nossa Candeia tem a honra e a imensa alegria de aqui partilhar a atribuição do prémio com que Eduardo Marculino, do extraordinário blogue História Viva, nos agraciou e que muito agradecemos, designadamente pela qualidade ímpar do trabalho que nele se publica. O prémio intitula-se Prémio História - Especial 25 Blogs.

domingo, 29 de agosto de 2010

Mineiros de San Jose - Chile...


... O mundo espera dos Mineiros de San Jose, no Chile, a resistência física e psicológica necessária a que sejam resgatados com sucesso(ler aqui e aqui)... Da sua capacidade de organizar as energias e de se manterem unidos no combate contra as condições deprimentes a que os condenou mais uma empresa que sacrifica a vida humana dos trabalhadores aos seus lucros, resultará mais uma "achega" na construção da esperança por um mundo melhor que todos precisamos alimentar. Longa vida aos Mineiros de San Jose!

sábado, 28 de agosto de 2010

Tibete - ou de como as ditaduras perseguem até à morte...




... As ditaduras perseguem até à morte... e o exílio paga-se, muitas vezes, com a própria vida... é o caso da comunidade tibetana que, enquanto continua a ser oprimida e reprimida no seu próprio país (ler aqui), assiste ao resultado dramático a que estão condenados os exilados de uma das mais antigas e magníficas -porque sábias!- culturas do mundo!
Nota: os meus sinceros e sentidos agradecimentos à equipa brasileira que não conheço mas que, tendo visitado A Nossa Candeia, me permitiu aceder a este vídeo e a quem envio o meu abraço amigo.

Contra a Pena de Morte - Manifestação Contra a Lapidação em Lisboa

Foi hoje, entre as 18 e as 19h, no Largo Camões, em Lisboa, que cerca de uma centena de pessoas se juntou para tornar pública a sua condenação ao regime penal que autoriza a pena de morte por lapidação. O pretexto foi a condenação que um tribunal iraniano ditou a Sakineh Ashdanti, mulher de 43 anos, mãe de 2 filhos e que, alegadamente, terá tido um envolvimento afectivo exterior ao casamento... primeiro alegaram que tal envolvimento acontecera quando já se encontrava viúva, depois que, afinal!, tinha sido enquanto casada... de qualquer modo, condenada a 99 chicotadas, Sakineh foi forçada a uma confissão pública na televisão que seria, mais tarde, desmentida... agora, dizem que a pena será, já não a lapidação!, mas, o enforcamento!!!... e a comunidade internacional organizou para hoje, num total de 111 a 130 cidades, manifestações de condenação a este tipo de execuções praticado, entre outros países, no Irão onde os números de execuções por apedrejamento são assustadores, ultrapassando, por ano, mais de 300, maioritariamente contra mulheres. Entre outros pequenos textos, foram lidos, durante este período de concentração solidária, vários artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ciganos de Ouro - Histórias e Vozes Reais...


Depois de muito pensar, uma vez que as histórias que aqui decidi partilhar são verdadeiras, optei por o fazer... porque são histórias que falam por si próprias e que nos deixam, de facto, a pensar... a mim, depois de tantos anos, ainda me fazem pensar... e sorrir... e chorar... comovida, porque esta é a essência das coisas... o resto é o mundo conflituoso dos adultos na sua diversidade de formas de luta pela sobrevivência entre estereotipos, equívocos, provocações e hábitos. Porém, antes de vos contar estes episódios da forma mais simples que posso, quero deixar a referência do meu protesto contra o facto do Ministério da Educação ter interrompido o Projecto "Escola Móvel" que garantia o acompanhamento docente da escolarização de crianças e jovens cujo modo de vida é nómada... porque seria profundamente desumano desresponsabilizar a sociedade pelas dificuldades de inclusão social das minorias étnicas, tal como é profundamente irresponsável e injusto culpabilizar toda e qualquer comunidade ou grupo humano pelos erros que alguns dos seus membros protagonizam...
1ª história (verdadeira):
Ocorreu-me a propósito da escolha da fotografia que coloquei no post anterior por ser igualzinha a imagens com que, tantas vezes, nos cruzamos nos caminhos do Alentejo... como era hábito nas cidades de província, de quando em quando, mulheres ou menores de etnia cigana batem às portas para pedir dinheiro, comida, roupa ou outra coisa qualquer... foi assim que conheci uma família cigana cuja mulher e mãe, de seu nome Ana, exactamente da minha idade, muito bonita e delicada, aparecia à porta de minha casa a pedir ajuda quando estavam, de passagem, na cidade... eu ajudava e conversava... de vez em quando, quando por ali voltavam a passar, batiam à porta para me cumprimentar e se um dia eu me queixava de ter uma dor de cabeça, era certo que, da próxima vez, iam saber se estava melhor. A Ana era uma pessoa honesta e inteligente que se surpreendia por ter 5 filhos enquanto eu, com a mesma idade, não tinha nenhum e um dia quis saber o que é que eu fazia na minha vida de professora... eu contava-lhe o que lia, o que ensinava e a Ana gostava que eu lhe falasse da escola, dos alunos, das aulas e dos livros - ao ponto de sempre me ter impressionado sentir que ela nunca tinha pressa em acabar de ouvir o que eu lhe ia contando, enquanto ela sorria e ia acenando com a cabeça, como quem percebe o que eu estava a dizer... quando demoravam a voltar, eu lembrava-me deles, preocupava-me e ainda hoje chego a ter saudades... muitas vezes, apareciam só as crianças que, com o passar do tempo, já me não pediam dinheiro e diziam, entre sorrisos desmedidos e cabelos despenteados: "vim cá vê-la"... eu perguntava-lhes pela mãe, pelos irmãos, mandava beijinhos, dizia-lhes, por cordialidade, para dizerem à Ana para ir até ali conversar um pedacinho se tivesse tempo e acabava sempre a dar uma moeda a cada um... um dia ouvi bater à porta, fui abrir e fiquei espantada: era o filho mais velho da Ana, um miúdo que, de repente, aparecia vestido com uma camisa branca, de calças e casaco (curtos nas pernas e nos braços, com sinais de muito uso mas, limpos), penteado, calçado e a baixar os olhos quando falava comigo... eu não estava a perceber e quase me assustei a pensar que me ia dar uma má notícia...não! A mãe mandara-o lá para se despedir de mim porque a partir desse momento ele deixaria de andar com a mãe e os irmãos e deixaria de "pedir" porque ia começar, exactamente nesse dia!, a trabalhar com o pai no negócio das "mulas"... e eu nunca, nunca me esquecerei que tive a honra de conhecer um sinal do ritual de saída da infância para a vida adulta de um Homem Cigano... Um ou dois anos mais tarde, numa rotunda da cidade, vi uma carroça como a da fotografia do post anterior e começo a ver uma mão a acenar na minha direcção; abri muito os olhos e vi o miúdo ao lado do pai que, chapéu a cair sobre os olhos, não olhava para mim mas sorria... nem queria acreditar!... dei a volta e ao passar por eles, acenei-lhes e ele gritou, a sorrir, o meu nome... subitamente feliz, gritei-lhe: "beijinhos à mãe"!... nunca mais vi o miúdo ou a sua famíla mas sei que, a esta hora, é, seguramente, como o educaram mãe e pai, um Homem Bom.

2ª história (verdadeira):
... pois é... é uma história muito bonita... e verdadeira!... como a do Joaquim, outro miúdo cigano, loiro, de olhos claros e muito vivo que gostava de ir conversar comigo quando passava lá na rua e eu estava a estender roupa ou simplesmente a tratar das flores... aparecia, encostava-se ao gradeamento e ficávamos a conversar... também me impressionava porque não pedia nada, ficava só "à conversa", a fazer perguntas e a dizer, sempre que eu falava na escola e nos alunos, que também queria "tirar a carta" para ajudar o pai no mercado... o tempo passou e deixei de o ver até que um dia, ao passar numa herdade que atravessava para ir ver material agrícola tradicional de interesse etnográfico, vejo, sob os sobreiros, um grande acampamento cigano... estava calor, eu levava os vidros do carro abertos e ouvi gritar o meu nome... era o Joaquim, loirinho, mais alto, ainda vivaço, junto à família sossegada... dois ou três anos depois, passei no mercado da cidade e vi o menino já crescido a vender roupa... fui cumprimentá-lo, claro... e ele, enquanto informava as senhoras dos preços, sorria com uma alegria educada e contida nos olhos luminosos... como eu, claro!


3ª história (verdadeira):
... também havia 2 miúdas, primas, com quem falava muito, a partir do mesmo tipo de conhecimento: a mais velhinha, mais reservada e mais dispersa, assim que menstruou começou a vestir-se como uma rapariga e deve ter casado logo... quanto à mais nova, tratava-se de uma criança inteligentissima, cuja mãe sofria de uma espécie de disfuncionalidade que terá proporcionado o acolhimento da menina por uma ordem de freiras que recolhiam algumas crianças com dificuldades... um domingo de Verão, sózinha, apareceu na minha casa para me contar porque é que deixara de aparecer... sentei-me ao seu lado e ali ficámos, nas escadas, a aproveitar a sombra, uma tarde inteira, a falar... a menina tinha um problema e estava ali para falar sobre ele: o seu grande problema residia no facto de apreciar a forma higiénica e organizada de viver que aprendia com as freiras que lhe permitiam ir à escola onde era boa aluna... adorava ler, dizia, mas... começava a incomodá-la a cultura familiar, cigana, porque toda a gente criticava tal modo de vida... a menina falava e, de vez em quando, olhava para mim, enquanto no fundo dos seus olhos escuros eu via e ouvia a luta de alma que nela se travava... foi difícil explicar-lhe que a mãe não tinha culpa de ser um bocadinho diferente, um bocadinho doente e muito pobre e que ela devia continuar a visitá-la e a tentar ajudar, apesar de dever permanecer na escola e viver a vida que descobrira e que preferia... nunca tinha explicado a uma criança o que é a cultura e o peso que tem na configuração dos modos de ser das pessoas, o alerta para a coexistência social que devemos viver e valorizar sem permitir que em nós desperte a dualidade ou a rejeição... estou convencida que percebeu... e prometeu-me que assim faria... nunca mais a vi!... mas guardo-a na minha memória como uma amiga e uma pessoa que respeito - porque uma criança que nos coloca um problema destes é uma pessoa muito séria.

Ciganos - Cidadãos numa União Europeia contrária à Europa Social


A fragilidade da arquitectura europeia tornou-se evidente com a expulsão massiva dos cidadãos de etnia cigana, assumida por Estados-membros de pleno direito na União Europeia... ficam assim comprometidos os princípios da livre circulação de pessoas e da igualdade de oportunidades entre cidadãos do espaço comum europeu e, consequentemente, fica exposta à evidência que a arquitectura institucional das organizações político-económicas e sociais de carácter federativo assenta numa proclamação de valores que não garante a sua efectiva prática e que legitima a consideração demagógica da sua natureza. A Europa que expulsa cidadãos ciganos é o sinal da vigência de uma Europa-fortaleza que remete para o revivalismo dos tempos das ditaduras nacionalistas, o oposto da Europa Social que defendemos e, consequentemente, abre um precedente que dará razão aos que não defendem a supranacionalidade e o primado do Direito Comunitário Europeu que fica lesado na sua essência. Sarkozy, na sua ânsia de protagonismo incapaz de resistir à tentação autoritária do seu perfil ideológico, abriu um caminho perigoso para todos nós e, provavelmente, deu o primeiro golpe mortal no que pensámos ser, até hoje, a União Europeia (ler aqui e aqui). A questão que se nos coloca é a de perceber a dimensão e a extensão desta prática política da direita que se sintetiza na interrogação a que é urgente dar resposta porque dela decorrerá o apoio dos cidadãos ou a resistência massiva à actual organização política dos 27: a Europa Social morreu?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Leituras cruzadas...

Hoje limito-me a enunciar uma série de sugestões de leituras... deixo a todos o cruzamento das informações e opiniões que refiro para que cada um conclua dos esforços de honestidade, do seu contrário e de algumas interessantes e penosas variáveis recorrentes, com que se vai construindo o país que temos e a compreensão do mundo em que vivemos:
Notas sobre o Monstro de João Rodrigues, no Arrastão;
Mais Fantasias Neoliberais de JM Correia Pinto, no Politeia;
Ele Disse Isso? e Desculpem se me enganei... de Carlos Barbosa de Oliveira, no Crónicas do Rochedo;
Cavaco, o Inevitável de Rogério da Costa Pereira, no Pegada;
Pinto Monteiro quer explicações... de Osvaldo Castro, no A Carta a Garcia;
... Esta é uma história verdadeira... de F.Seixas da Costa, no Delito de Opinião;
Como afugentar ciganos... de Bruno Gonçalves, no Aventar;
Pura Estupidez de Pedro Correia, no Delito de Opinião;
Os Miseráveis do Século XIX... de Eduardo Marculino, no História Viva.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Recessão Económica - Episódios de uma Repetição Incansável

Não surpreendem as mais recentes afirmações de Joseph Sitglitz sobre o risco de recessão na Europa designadamente se tivermos em atenção os avisos que, no passado mês de Abril, o Prémio Nobel da Economia enunciara (ler também aqui) ... em rigor, nem de nova recensão se deveria falar porque o ritmo económico europeu anterior à crise de 2009 não chegou a ser alcançado e, menos ainda, ultrapassado. Os indicadores económicos apurados entre o pico mais baixo da crise e os actuais, denotavam apenas sinais de uma tendência de recuperação que, para efeitos de estímulo da procura através do incentivo à confiança dos consumidores, passou a ser anunciada pelos governantes com o apoio indefectível dos meios de comunicação social... oportunisticamente, as oposições aproveitaram a inconsistente imagem da realidade para passar a acusar as governações nacionais de má gestão das respectivas economias e, entre nós, multiplicaram-se as vozes que, quais velhos do Restelo, proclamavam imponentes do alto da sua ignorância e da intenção manipuladora, estar à vista a responsabilidade de Sócrates e do executivo na débil retoma que o mesmo ia anunciando. Haja seriedade e responsabilidade! Reduzir os factos a interpretações conjunturais e oportunisticas para o mero combate político-partidário é de uma imaturidade chocante quando os ritmos de empobrecimento grassam entre as populações que ouvem, cada vez com menos esperança, os discursos de que toda a gente conhece a "música" e cuja "letra" não interessa nada a quem, preocupado em sobreviver, não está disponível para "cantigas". Apesar da multiplicidade de alternativas que se podem colocar às opções governativas (vejam-se as propostas descabidas e desumanas que o PSD de Passos Coelho apregoa, reforçando sem reservas todas as causas da crise: maior liberalização de despedimentos, redução de apoios sociais, mais privatizações e desmantelamento do sector público, designadamente na saúde e na educação) e da responsabilidade que cada país e cada governo tem de assumir no esforço de minimização do impacto real das estratégias financeiras na vida das pessoas, o problema económico nacional é europeu e global dependendo a sua resolução, em grande parte, da reforma da arquitectura económica europeia que é preciso coragem para activar - já que assenta, indiscutivelmente, numa profunda alteração da sua filosofia de gestão até aqui sustentada por uma ideologia neoliberal que, apesar de comprovadamente fracassada, insiste em se perspectivar como de não-retorno, agravando a frequência da repetição dos sinais de agravamento de uma dinâmica económica que é, antes de mais, paga com a contínua degradação das condições de vida dos cidadãos.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Velho e a Flor - Canto de um Embaixador


Vinicius de Moraes foi, além de compositor, poeta e escritor, um diplomata que a ditadura militar não reconheceu (vale a pena ler a referência no Duas ou Três Coisas), injustiça que, recentemente, o Presidente Lula da Silva, corrigiu, deixando que o Brasil e o mundo saibam que o rosto da diplomacia que queremos se faz também e porque não dizê-lo?, essencialmente, de valores, de palavras e de uma profunda humanidade onde o encontro entre a cultura, a determinação e o diálogo coexistem como uma porta permanentemente aberta ao reconhecimento do que, para além de todas as diferenças, nos faz iguais. Da ternura desta compreensão da vida é testemunho maior o tema "O Velho e a Flor", cantado por Vinicius de Moraes e Toquinho. Conhecem?

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A25 - Bombeiros, INEM e Protecção Civil entre a Tragédia e o Socorro

Entre Viseu e Aveiro, na A25, perto de Sever do Vouga, no nó de Talhadas, viveu-se um inesperado cenário de tragédia, com um nevoeiro denso ao ponto de, segundo testemunhas no local envolvidas no grave acidente de hoje, as chamas do grande incêndio que deflagrou entre as viaturas sinistradas se não verem a pouca distância... muitas dezenas de feridos, 48 dos quais em estado grave e 5 mortos é, para já, o balanço deste episódio negro da nossa história rodoviária, ocorrido quase em simultâneo nos 2 sentidos da auto-estrada. "Dantesco" e "aterrador" foram alguns dos qualificativos utilizados na descrição do acidente que ocorreu ainda longe das localidades mais próximas. Contudo e apesar de todas as críticas que estão sempre prontas a aparecer a propósito de todos os incidentes, dizem os presentes no local que a chegada de socorro da Protecção Civil, dos Bombeiros e do INEM, foi rápida, competente e eficaz... e foi gratificante ouvir a serenidade profundamente triste mas, concentrada e competente, das palavras do Senhor Comandante da Protecção Civil na descrição dos esforços desenvolvidos para responder à calamidade em que não poupou elogios à articulação dos serviços do INEM, dos Bombeiros e da própria Protecção Civil. Para que conste, é justo e merecido assinalar que, em Portugal, há ainda serviço público, sentido de missão, competência e seriedade! Bem-hajam!

domingo, 22 de agosto de 2010

Educação, Escolarização e Desenvolvimento (2)



Não é de resposta fácil a questão: o que fazer com a Educação? Os erros e equívocos acumulados ao longo dos anos em diversos sectores de intervenção dificultam em muito a resposta, a começar pela inexistência de uma estratégia técnica e científica da tutela, capaz de privilegiar a qualidade de ensino e garantir a promoção efectiva do aumento qualitativo das competências inerentes à problemática do ensino/aprendizagem... Porquê? Um dos motivos é, contrariamente ao que se presume quando se ouve falar em "actuação por objectivos", a ausência de um objectivo pedagógico-científico do sistema educativo. A verdade é que a política de um país também é o reflexo da sua sociedade e, consequentemente, a sua filosofia de educação e o seu sistema de ensino, ao invés de ultrapassarem os condicionalismos socio-políticos e culturais de senso-comum, reforçam essa limitação "a priori" da intervenção educativa, reduzindo-a ao estatuto de programa político operatório para o sector. Não se pode, por esta razão, pensar que a Educação, na sociedade de mercado, gerida de forma economicista e oportunista (não no sentido da criação das oportunidades mas, isso sim, no sentido da intervenção conforme às orçamentações ditadas economicista e ideologicamente), tenha o carácter pedagógico, altruísta e desinteressado que lhe caberia, conceptual e desejavelmente, para que a sociedade possa, de facto, progredir qualitativa e culturalmente, na senda da aquisição de competências múltiplas indispensáveis à inclusão e integração social de sucesso. E se este é o primeiro de todos os problemas da organização escolar e da definição do projecto educativo e formativo que se pretende para o país (e que poderiamos sintetizar na pergunta: que sociedade queremos para Portugal?), sucedem-se-lhe muitos outros que, para já, devemos destacar em duas vertentes. A primeira refere-se à problemática da formação de professores que decorre em quadros científicos quantitativos e desadequados ao desenvolvimento de um perfil pedagógico-científico altamente qualificado, resultante de um trabalho sistémico e estruturado metodológica e didacticamente, agravado pelo Processo de Bolonha cuja execução não permitiu um trabalho concertado de reflexão científica conforme às exigências das sua adequação nacional às populações e equipamentos de que dispomos. A segunda abordagem enquadradora desta proposta de reflexão remete para uma tripla consideração relativamente aos procedimentos organizacionais em matéria educativa: a relação entre a tutela e as escolas, a relação entre sindicatos, tutela e escolas e, finalmente mas de modo algum em último lugar, a relação entre a orgânica funcional dos estabelecimentos escolares e os docentes. No que se refere à relação entre a tutela e as escolas, é inaceitável que o papel do Ministério da Educação seja apenas o de um supervisor da execução das ordens político-orçamentais e das relações entre a política governamental e os sindicatos do sector; de igual modo, entre sindicatos, tutela e escolas é incongruente, face aos conteúdos pressupostos nesta relação, que os sindicatos reduzam o seu papel ao de contestatários da tutela e "ouvidores" dos docentes, sem qualquer expressão de pensamento científico-pedagógico capaz de credibilizar as respectivas estruturas (o que, diga-se, em abono da verdade, também decorre de uma incapacidade de renovação do pensamento sindical contemporâneo que continua, geracionalmente, a estar na mão de organizadores políticos que não actualizam a sua vertente científico-pedagógica); finalmente, mas, como já disse e repito, não em último e quiçá em primeiro lugar, a orgânica funcional das escolas denota que a solução para a melhoria do sistema de ensino não está na introdução de gestores e administradores escolares que apenas reforçam os projectos políticos economicistas e que o trabalho científico-pedagógico, curricular e extra-curricular dos docentes tem sido, sucessivamente, lesado. Uma palavra sobre esta última observação justifica-se a dois níveis: um, no que se refere à constante introdução burocrática de considerandos de que a avaliação e a resistência à sua aplicação é apenas um deles, reflexo da insegurança e da falta de confiança nos processos e protagonistas dos mesmos que, pelo que nos é dado ver!, não garantem aos professores a transparência de um modelo complexo e de elevada responsabilidade; outro, relativo à própria organização curricular, disciplinar, didáctica e pedagógica dos processos de ensino/aprendizagem, em que é digna de registo a ausência de visibilidade de algumas questões essenciais para o desenvolvimento qualificado da actividade educativa (reflexo da aceleração do processo de reconversão das entidades educativas em instituições cumpridoras de metas quantitativas com objectivos estatísticos tais como: redução e eliminação do insucesso escolar, relativização do abandono escolar e atribuição de diplomas de frequência de ciclos escolares)... dessas questões endógenas e fundamentais para a garantia de qualidade dos processos de ensino e de aprendizagem, actualmente votadas ao esquecimento ou à invisibilidade, destaco: a actualização de conhecimentos multidisciplinares dos docentes, o reforço da sua reflexão e debate científico quer em termos conceptuais, quer no que se refere à relação da escola com a comunidade e as famílias (registe-se que a aproximação cívica da escola à família e à sociedade tem vindo a ser diminuída - para o que muito contribuirá a política de encerramento de estabelecimentos de ensino e a deslocação dos alunos do meio residencial) e o reforço da respectiva autonomia enquanto agentes educativos. Fico por aqui sem a menor pretensão de esgotar o problema a que, a título de "achega" poderei talvez somar, ainda hoje ou amanhã, o último post desta eventual e sintética"trilogia" de considerações partilhadas...

sábado, 21 de agosto de 2010

Educação, Escolarização e Desenvolvimento (1)


Muito se tem escrito sobre Educação ou melhor, sobre o sistema de ensino e as suas condições logísticas... porque, de facto, sobre Educação e sobre a qualidade do ensino muito pouco se tem dito (rara excepção para a professora Maria do Carmo Vieira). Sobre o encerramento das escolas gostaria de deixar um pequeno preâmbulo: não é verdade que todas as escolas para onde vão ser transferidas as pequenas crianças que frequentam as 700 que vão encerrar sejam tão boas como se tem tentado fazer crer; não é verdade que as escolas por serem pequenas e terem poucas crianças sejam necessariamente deficitárias em competências educativas e sociais; não é verdade que seja melhor para as crianças ficarem longe da família e do seu espaço de socialização durante um longo período por dia; não é verdade que o anterior encerramento de cerca de 2.000 escolas tenha provado que as crianças têm melhores resultados ou que são mais felizes!... Não é verdade! Ponto! Daí que não seja, também!, verdadeiro, o argumento das razões pedagógicas como fundamento da medida que, a 3 semanas da abertura do ano lectivo, foi anunciada e que a qualidade de ensino seja, de facto, o cerne da questão e a principal preocupação do Ministério da Educação. Partindo destes considerandos, vale a pena registar outras tantas dimensões "a jusante" do problema: a) o desenraizamento social das crianças é um problema socio-cognitivo a que deve atender o desenvolvimento infantil, bem como o reconhecimendo da importância da sua dimensão cultural - que se não mede ou esgota no número de contactos interpessoais ou na quantidade de recursos materiais; b) a dimensão, afectiva, da segurança e da confiança são essenciais para o sucesso educativo, sendo reconhecido o facto de serem crianças desenraizadas as que mais facilmente crescem disfuncionalmente; c) o incontornável impacto socio-territorial desta medida, incentivará o êxodo rural, aumentará a densidade populacional das cidades e, atendendo às dinâmicas de desemprego e empobrecimento das populações, contribuirá para o aumento da pobreza e da violência social; d) a criação de melhores condições pedagógicas nos locais onde vão encerrar as escolas com o melhoramento de ATL's, actividades extra-curriculares e equipas interdisciplinares em articulação com as juntas de freguesia, as sociedades recreativas, as famílias e o apoio ao incentivo de projectos financiados para a criação de emprego contribuiria para diminuir o desemprego, contrariar a desertificação e contribuir para a criação de cidadãos com mais competências para integrarem, de forma útil, saudável e qualificada, a sociedade em que vivem. A terminar o primeiro post sobre o tema deixo um testemunho dos problemas que esta medida está já a provocar (in AL-TEJO) e, a título de introdução do post seguinte, um outro testemunho (in Quanto Tempo Tem o Tempo?).

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Pássaro de Madeira...


"L'oiseau de Bois" é o nome deste magnífico tema do tunisino Anouar Brahem, aqui ilustrado pelas magníficas paisagens do deserto em que se espraia o sentir de Agosto...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Leituras cruzadas...

Não pude deixar de me surpreender... é verdade que temos consciência do quanto a sociedade globalizada massifica a informação sem que isso signifique conhecimento mas, a verdade é que não podemos deixar de parar para pensar perante o que nos demonstra o vídeo a que o Relógio de Corda nos permite aceder no seu Quanto Tempo Tem o Tempo?... assim como não podemos deixar de reflectir sobre o significado das intenções da política patrimonial divulgadas por António Carlos Valera no Irrealidade Prodigiosa ou sobre o encerramento de mais de 700 escolas no país - de que o Alentejo é exemplo como região do interior desertificado e que, ao invés de promover a dinamização das suas estruturas, as vê eliminar a um ritmo bem evidenciado na lista de encerramentos que o A Cinco Tons divulga... Como se não bastassem os casos, no país temos apenas como maior partido da oposição uma caricatura perigosa de projecto político que Osvaldo Castro bem caracteriza no A Carta a Garcia e uma atenção cívica e institucional à prevenção de calamidades como bem demonstra Fernando Cardoso no Ayyapa Express ... enquanto isso a União Europeia continua com uma recuperação económica muito mais difícil do que se propagandeia como bem explica JMCorreia Pinto no Politeia e cujo projecto político social está, cada vez mais, posto em causa como bem assinalam José Simões no Der Terrorist, Paulo Pedroso no Banco Corrido e José João Cardoso no Aventar... por isso, vale a pena reler o texto sobre a trágica farsa em que vivemos e que nos é proposto por Eduardo Marculino no História Viva mas, também, a propósito do que há por fazer e dos contributos que todos deveriam querer protagonizar, as palavras de T.Mike no Vermelho Cor de Alface. Finalmente, para que a arte nos dê o seu olhar sobre o mundo, fica a sugestão da escolha de Camões no Poet'Anarquista.

Sons Femininos...


... "Aires Zingaros" de Pablo Sarasate na interpretação magistral de Sarah Chang sob a direcção perfeita de Plácido Domingo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ciganos, cidadãos da União Europeia

Foi no Politeia de JMCorreia-Pinto que encontrei o link para o poema de Federico Garcia Lorca sobre La Guardia Civil Española retirado do Romancero Gitano e que aqui partilho num momento em que a discriminação, o racismo e a xenofobia se agravam na União Europeia com Sarkozy a expulsar de França um número significativo de ciganos (ler Aqui). O problema prolonga-se e repete-se de há muito (ler Aqui, Aqui e Aqui) e denota, acima de tudo, o grau de dificuldade do modelo social em que vivemos se adequar culturalmente às etnias - apenas e só porque as políticas sociais de integração e inclusão implicam muito mais investimento do que aquele que os Governos estão dispostos a fazer... o cenário é por isso gravoso dados os ritmos de mobilidade e empobrecimento contemporâneos que se fazem sentir sempre, com mais evidência, nos grupos sociais desfavorecidos e tendencialmente discriminados em que se incluem, em consequência do nosso ocidental etnocentrismo, as populações nómadas...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Apedrejamento de Jovens no Afeganistão...



Eram dois jovens, um rapaz e uma rapariga com, respectivamente, 28 e 20 anos de idade... foram apedrejados até à morte, num mercado público do Afeganistação, perante a população que assistiu à execução de mais este crime hediondo perante o qual somos incapazes de elaborar qualquer justificação que não seja cúmplice desta crueldade sem limites e sem perdão... os jovens eram acusados de "adultério"! A Amnistia Internacional já condenou publicamente mais este atentado contra os Direitos Humanos (ler Aqui e Aqui). A situação, insustentável porque repetida, requer uma intervenção cívica junto das populações que devem saber que a comunidade internacional condena de modo inequívoco estas práticas sanguinárias, não as reconhecendo como forma de fazer justiça mas, antes como forma de coacção política e psicológica sobre as populações.