domingo, 1 de março de 2009

Agradecimento a Carlos Santos (O Valor das Ideias)


Quero agradecer a Carlos Santos, autor do livro "E agora, Obama?" e do blog O Valor das Ideias que recomendo vivamente pela qualidade e pertinência actualizada da análise político-económica a que aí podemos aceder, a referência, gratificante e honrosa, a título de recomendação, de A Nossa Candeia (ler aqui). Quero ainda, agradecer-lhe, não só as suas palavras generosas mas, também, o útil e importante contributo que integra para a reflexão sobre a correlação entre empreendorismo e exclusão, ao referir o micro-crédito cujo reforço, em Portugal, deveria ser um dos grandes eixos da política social. Bem-haja, Carlos! Bem-haja pelo saber, a interacção e o exemplo que deixa ao valorizar a relação que é urgente consolidar entre Economia e Ciências Sociais!

Exclusão e Empreendorismo...


A exclusão social ameaça cerca de 30.000 pessoas, desempregados que deixaram de acreditar na reintegração no mundo laboral ou que perderam competências para investir na procura, anuncia hoje o DN. O fenómeno, denotando o grau de pobreza que grassa na sociedade portuguesa e que se revela, diariamente, em exponencial crescimento, com a actualização dos dados de que se tem uma ideia pelo cruzamento das fontes de informação (comunicação social, INE, IEFP, IPSS's, ...), é revelador de uma realidade que precisa, urgentemente, de soluções, sob pena de se tornar um factor multiplicador dos efeitos da crise. Por um lado, denota o estado anómico da população (cujo índice depressivo, em termos de saúde mental pública, se agrava constantemente) e, por outro, manifesta o desinvestimento da população activa, potenciais trabalhadores/consumidores, no esforço de resolução das situações de carência, aumentando-se o défice de capacidade criativa, indispensável ao empreendorismo reconhecido como essencial para efeitos de criação de emprego... este é um dos graves dilemas sociais que, em termos de previsibilidade, devemos equacionar como factor a considerar na construção de intervenções integradas, direccionadas para a recuperação dos índices de confiança dos investidores e para o contrariar do desânimo social que vai crescendo entre o número, cada vez maior, de pessoas em risco de pobreza... só assim podem ser criadas as condições de desenvolvimento, com impacto social revitalizador da economia, de atitudes inovadoras que requerem espírito de iniciativa.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A urgência imposta pela crise...



A questão que se coloca ao mundo contemporâneo e, em particular, às democracias europeias, é a de saber se a crítica gratuita e a demagogia especulativa, mais ou menos agressiva, são os melhores caminhos para, efectivamente, se enfrentarem os dramas sociais que a crise económico-financeira internacional agrava quotidianamente e cujo peso recai de forma ineludivelmente amarga sobre os cidadãos. O problema não está na aimples constatação ou enumeração das injustiças... o problema está na impossibilidade de nos remetermos à passividade, em nome de interesses narcísicos que maior satisfação alcançariam se o mundo avançasse apenas ao ritmo dos desejos e projectos de cada um... por isso, o que, neste momento, está realmente em causa é a capacidade de nos solidarizarmos em volta de um projecto sustentável capaz de intervir na evolução desta crise, restabelecendo a confiança dos cidadãos, combatendo o desemprego e lutando contra a pobreza. Todos não seremos demais!... pelo interesse público, pela salvaguarda das condições de vida das populações, pela democracia! A defesa dos interesses corporativos e o egoísmo não são, nos dias que correm, atitudes sérias e justas a ter para com os cidadãos. Hoje, mais do que nunca, a solidariedade é um dever ético! Permitam-me que o sublinhe com a poderosa voz de Miriam Makeba e o lindissimo "Soweto Blues"!

Vital Moreira...


O Partido Socialista está de parabéns! Ter Vital Moreira como cabeça de lista às eleições europeias é dar à participação portuguesa no Parlamento Europeu o brilhantismo de um homem, indubitavelmente de esquerda, culto, autónomo e inteligente! A Europa precisa de homens assim! Estamos todos de parabéns!... por tudo isto: Parabéns, Vital Moreira!

O Congresso do Partido Socialista...

Depois dos recentes acontecimentos nacionais em que a comunicação social envolveu de forma empolgada o nome do Primeiro Ministro, recorrendo à pura especulação até um grau exponencial que chegou a levar alguns a pensar que poderia estar em causa a continuidade governamental, no discurso de abertura do Congresso do PS, ouviu-se José Sócrates assumir a determinação pela transparência política como se, finalmente, hoje, a verdade voltasse a não ser receada pelo exercício do poder que nos habituámos a ver dominado pela demagogia. Interessante, o discurso de António Costa, orador de primeira água e verdadeiro mobilizador, apresentou de forma incisiva a Moção cuja coordenação geriu, salientando de forma clara os grandes aspectos que esse documento contempla, sem incorrer no erro de se lhes referir de forma equívoca ou condescendente; refiro-me ao casamento homossexual, relativamente ao qual defendeu os direitos para todos (nomeadamente à constituição de família independentemente da orientação de cada um), demonstrando que o tema pode ser abordado sem qualquer enfoque fraccionário e, à questão da regionalização que, por razões de coerência estrutural, deverá criar condições para ser efectivamente levada a efeito, após novo referendo que, desta vez, se anuncia capaz de vencer. Importante, o discurso de Ana Gomes, defendendo uma acção reformista mais eficaz do sistema fiscal, da justiça e do combate aos off-shores e aos mecanismos que materializam a corrupção, acentuou (designadamente pelo carácter combativo da euro-deputada que levou a bom termo uma luta em que se empenhou, praticamente sózinha, no que se refere à investigação dos voos da CIA sobre território nacional) o denominador comum que tem atravessado os discursos deste Congresso e que, de Fonseca Ferreira a Jaime Gama, afirma como prioridade política dos socialistas, o desenvolvimento de medidas contra a crise e o combate ao desemprego. Defendendo também a reforma económica num quadro de estabilidade esteve Jaime Gama e, particularmente incisivo no que respeita ao combate à corrupção e à política de off-shores, Vera Jardim que foi claro na determinação política com que a Moção de José Sócrates se apresenta no que respeita a esta matéria. Até ao momento, relevantes foram ainda as intervenções de Vieira da Silva, defensor do combate à desigualdade, do reforço da protecção social e das políticas sociais sustentadas e a de António Vitorino, que afirmou a defesa do emprego, da coesão social e da luta contra a pobreza como eixos orientadores do próximo ciclo eleitoral, essenciais à futura acção governativa. Destaque também para o facto de, de Fonseca Ferreira a Francisco Assis (que desdramatizou a influência política do BE, reiterando a confiança nos portugueses), ter sido comum o reivindicar de uma maioria absoluta que, como dissera António Costa, é necessária à estabilidade governativa porque "os tempos não estão para governos fracos". Ouvidas foram também outras vozes conhecidas: Paulo Pedroso, Jorge Lacão, Augusto Santos Silva, António José Seguro e militantes/delegados anónimos, muitos deles referindo o nome de Ferro Rodrigues como o de um bom cabeça-de-lista ao Parlamento Europeu... Finalmente, numa comunicação aos jornalistas, Fonseca Ferreira anunciou que irá apresentar uma lista própria à Comissão Nacional do PS e que os militantes que o apoiam irão organizar a partir de Março, uma corrente interna a designar por "Esquerda Socialista"... Não sei o que esperava a oposição ou a comunicação social deste Congresso que, a priori, consideraram este evento, uns, como Vicente Jorge Silva um não-acontecimento, outros, muitos, um unanimismo à volta do líder e que outros ainda reduziram à participação ou não de Manuel Alegre nos trabalhos... mas, efectivamente, um partido detentor de uma maioria absoluta, responsável pela governação, no contexto de uma crise internacional inédita e após uma campanha demolidora contra o seu Secretário-Geral e Primeiro-Ministro, está a realizar um Congresso adequado e digno do momento político que vivemos, no quadro do que é próprio ao funcionamento democrático... pelo menos, é isso que resulta do acompanhamento dos trabalhos que as televisões nos permitem... apesar do desalento e da decepção que isso provoca à oposição já que, se o BE preferiria constatar um efeito gravemente perturbador do evento resultante do facto de Manuel Alegre não ter estado presente, se tem que contentar com a auto-representação de que o PS o elegeu como principal inimigo e que, o PSD, pela voz da Dra Manuela Ferreira Leite se vê reduzido a ter apenas como comentário político expressões reveladoras de imaturidade democrática, como foram a afirmação de que uma cimeira informal europeia é mais importante do que o Congresso de um partido de governo com 3 actos eleitorais "à porta" e cujo desespero político lhe permitiu apenas ouvir no Congresso do PS a defesa da eutanásia e do casamento homossexual... Ridículo? Quem?
(este texto foi progressivamente actualizado até às 19.20h de hoje, sábado)

Human Steps...



Os passos humanos percorrem e preenchem os caminhos... os percorridos e os que há por percorrer... como o denota "Amjad" dos "La, La, La Human Steps", qualquer que seja o ponto de chegada, a caminhada é sempre mais um passo no sentido da compreensão de si e do mundo... uma dança que se basta a si mesma e encontra continuidade no olhar do outro.

Notícias do dia...

Além do Congresso do PS cujos trabalhos se iniciaram ontem e que merece a nossa atenção (ver aqui) para que se possa aferir do seu efectivo debate interno e do sentido inerente aos seus conteúdos que considero contrariarem a opinião de Vicente Jorge Silva (que, no Jornal das 9 da SICN de ontem, considerou o evento um não-acontecimento), o DN de hoje noticia três factos que merecem destaque. Um, referente às declarações de Pedro Passos Coelho ontem à noite, em Carcavelos, onde afirmou que o PSD está a perder votos para o BE (ler aqui)... estranha afinidade é o comentário que a constatação sugere e que coloca, como questão que se segue, a de saber se o Bloco considera o facto uma vitória e um elogio dada, nomeadamente, a sua persistência crítica sobre a proximidade da actuação política entre PSD e PS... outro, o facto do Vaticano não ter retirado a excomunhão ao bispo Williamson apesar do seu pedido de desculpas sobre o negacionismo do Holocausto por considerar insuficientes as palavras do prelado que se podem ler aqui... o terceiro, refere-se ao caso do negócio da CGD com Manuel Fino (ver aqui) a propósito do qual subscrevo as palavras de João Abel de Freitas no PuxaPalavra.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sentimento de Guerra... o peso de uma herança!


Difícil de fazer, o balanço sobre o número de vítimas na Guerra do Iraque deveria ser claro! Afinal, são 6 anos de Guerra!... 6 anos ao longo dos quais, como disse no seu mais recente discurso o Presidente dos EUA, Barack Obama, foram mais de 4.000 os soldados americanos mortos na guerra... entretanto, impõe-se a pergunta: e quantos soldados iraquianos morreram?... sem uma resposta exacta, sabemos contudo que, ia a guerra a meio (há cerca de 3 anos e meio), o balanço de vítimas civis variava, segundo as fontes, entre 100.000 e 150.000! Se o mundo está cansado desta guerra sangrenta e injusta, se o povo americano viu ocultados os funerais dos seus soldados mortos, pela comunicação social que tentou evitar, em assumida cumplicidade com a nada saudosa Administração Bush, a mobilização popular contra este conflito e o Governo norte-americano de então, qual será o sentimento do povo iraquiano? O que pensarão as suas populações feitas de homens, mulheres e crianças, iguais a todos nós? E o que sentirão quando, em todos os conflitos e particularmente na Palestina, projectarem os medos e desconfianças que se lhes materializaram na realidade quotidiana ao longo de todo este tempo? É urgente restabelecer a confiança entre os povos, as culturas e os Estados... porque, enquanto a guerra fôr o veículo relacional das relações político-económicas, não é sequer possível às populações percepcionarem a coexistência pacífica... os efeitos das guerras prolongam-se sempre muito além dos próprios conflitos... inquinando muitas vezes os processos e os períodos de paz.

Leituras Cruzadas...

Inadmissível é, efectivamente, o uso e abuso de alegadas faltas de memória em casos como o do BPN que João Abel de Freitas, no PuxaPalavra, resume de forma sintética e elucidativa... O caricato da situação torna extensível a outras dimensões sociais o teor da citação que Tomás Vasques escolheu para referir no Hoje Há Conquilhas... na realidade, ética e cultura estão muito aquém do que seria desejável numa sociedade laica e democrática do século XXI que, pelo menos no que se refere à expulsão do Bispo Williamson pelo negacionismo do Holocausto, a Argentina protagonizou obrigando a que, já em Londres, o dito prelado expressasse um pedido público de desculpas - quem o refere é João Tunes no Água Lisa "Antes Tarde que Nunca" e a noticia pode ler-se aqui...

De Praga ao Tibete... traumas, povos e culturas


Os povos manifestam, no que são e na forma como reagem, a personalidade cultural que os foi configurando ao longo da História em percursos feitos de conflitos, traumas, coexistências e vivências... Por isso nunca são evidentes nem lineares as suas formas de expressão, nem o deveriam ser as interpretações que deles e das suas culturas se fazem sem atender aos processos históricos em que radicam as razões dos comportamentos colectivos... Entre uma cultura de montanha, isolada e sempre em busca de um ritmo de integração na natureza que garanta o equilíbrio psicossomático e os efeitos da brutal ocupação chinesa que data de há quase 50 anos (1959), eivada de sentimentos de superioridade moral demonstrada pelo exercício da força, da crueldade e da aculturação forçada, o Tibete viu a sua cultura votada ao exílio, destituída do reconhecimento público da sua autonomia e da sua singularidade... Por outro lado, na Europa Central, o povo checo, entre ocupações alemãs e soviéticas ou o esmagamento da Primavera de Praga (leia-se o texto publicado no Praça Stephens), chegou à Europa Comunitária, simultaneamente ansioso e receoso da perda da sua soberania, acusado de um certo anti-europeismo, apesar de ser checa a actual Presidência da União Europeia. Num e noutro caso, as diferentes formas de manifestação de resistência cultural aos modelos envolventes revelam apenas as dificuldades de afirmação identitária em contextos onde a experiência lhes tem demonstrado a subjugação aos interesses vizinhos... como acontece aliás, nas diversas Comunidades Regionais de Espanha e mesmo em Portugal onde grande parte das opções políticas decorrem quase sempre dos condicionalismos determinados pelas relações internacionais... e esta é uma realidade a considerar quando se equaciona o futuro... porque, cada vez mais, emergem sinais de que o mundo globalizado de hoje pode vir a exigir um modo de ser e de estar regionalizado... e a única resposta que temos para percorrer com o mínimo de conflitos qualquer um dos caminhos que presente e futuro se conjugem para consolidar é, ainda e sempre, o máximo respeito pelos Direitos Humanos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Losar - O Ano Novo Tibetano



A cultura tibetana celebra o Losar (Ano Novo) no dia 25 de Fevereiro... foi ontem!... contudo, se só hoje aqui se assinala esta época festiva que se requer de bons augúrios, convém que se saiba que o facto decorre de, este ano, estar em curso uma campanha internacional de solidariedade para com as vítimas da violência contra as manifestações e os protestos de monges, cidadãos e activistas dos Direitos Humanos no Tibete que se caracteriza, como forma de expressão, pela não celebração festiva do Losar... e como todas as formas artísticas são bons veículos das mensagens que transmitem, fica aqui a referência, não festiva, a título de evocação simbólica.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Provincianismo e Ignorância Salazarenta...

É confrangedor que o bom-senso, a razoabilidade e a objectividade analítica estejam tão ausentes dos procedimentos de pessoas com responsabilidades na ordem pública (refiro-me ao caso da magistrada de Torres Vedras e ao da PSP de Braga)... confrangedor ao ponto de aí serem, ainda que injustamente, projectadas responsabilidades políticas que transcendem as actuações locais em que se esgota a esfera de intervenção dos protagonistas destes episódios infelizes!... Provincianismo ou conservadorismo de costumes que facilmente nos faz pensar na dimensão das heranças salazarentas que se guardam por aí, no inconsciente colectivo e na ideologia dissimulada de muitos quase insuspeitos que, entre nós, praguejam e vociferam como se lhes assistisse qualquer autoridade moral... a mesma, provavelmente, que justifica que, nos tempos que correm, se ocupem em manobras e congratulações por beatificações como a de Nuno Álvares Pereira...

A Crise - entre o mérito de Obama e a política em Portugal...

Não ouvi mas, pelo que Carlos Santos descreve e comenta em O Valor das Ideias, o discurso de Obama relançou a esperança e renovou a concentração nacional de esforços no combate contra a crise e o desemprego, sem demagogia e com seriedade. Não me surpreende. Desde que, em Outubro de 2007, li "A Audácia da Esperança" compreendi que Barack Obama tem um perfil carismático de cidadão culto, inteligente e rigoroso, cuja auto-confiança assenta num forte sentido ético valorizador da causa e do serviço público... um homem que conhece demasiado bem a realidade americana para a não levar a sério, consciente dos custos sociais dos modelos económicos vigentes e determinado em devolver os EUA ao povo americano. Por isso, congratulo-me com o sucesso do seu discurso de ontem... Obama merece e nos tempos que correm, precisamos desesperadamente de determinação e confiança!... ocorre-me, neste contexto, que, ao contrário do que está a acontecer em muitos países, em Portugal, apesar da dimensão e fragilidade da nossa economia, a crise surge como oportunidade para o empenho da oposição no divisionismo e no ataque político gratuito, sem alternativas e simplesmente demagógico... é pena!... seria útil, positivo e naturalmente preferível, podermos constatar a maturidade política entre os que se perfilam para ascender a representantes de uma população cujos interesses não são a sua primeira prioridade... seria, por isso, interessante perguntar e ouvir essa mesma população sobre se pretende que o seus representantes sejam apenas bons demagogos ou políticos competentes com sentido de responsabilidade e de Estado... esclareça-se que a diferença entre uns e outros consiste na viabilidade das soluções económico-financeiras apresentadas e na política social que lhes pode ser associada!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Expressões culturais...



Ouvir e ver os "Ciganos de Ouro", expressão mediterrânica da cultura cigana!...

Outro Brasil...


No Brasil há mais vida para além do Carnaval... os Sem-Terra sabem isso e por saberem que a vida é muito mais do que todos os carnavais, na esperança de serem ouvidos, entraram pelas terras dentro... por cá, ouvimos e vemos, apenas, o Carnaval... porque as dores do mundo são demasiado penosas, insignificantes ou assustadoras para quem prefere dissimular as realidades na ilusão dos carnavais?... a notícia chega do Brasil e pode ser lida aqui.

Perguntar, esclarece... o ruído, não!

Enquanto o desemprego aumenta desmedidamente por todo o mundo (em Espanha situa-se já nos 16%, atingindo mais de 3 milhões de pessoas) e, naturalmente, também em Portugal... mas, por terras lusas, toda a oposição esquece as respectivas divergências ideológicas para corroborar, em indistinto uníssono, acusações de má governação... entretanto, todos os países continuam a investir em esforços de sustentação da arquitectura financeira para evitar o total colapso das economias (leia-se o texto de José Manuel Dias no Cogir)... mas, o panorama partidário português recusa-se a pensar a questão... por desconhecimento, má-fé ou efectiva inexistência de alternativas sustentadas e sustentáveis?

Influências...


Transmitido ontem, pela RTP, um documentário de homenagem ao Mestre Lagoa Henriques em que o próprio falava da sua vida e obra, nele encontrei uma súbita, imensa e inesperada alegria: Lagoa Henriques contou que foi Agostinho da Silva quem lhe descobriu o talento escultórico e quem o influenciou decisivamente na sua opção artística. Com um sucesso e um mérito inequívocos, convenhamos! Recordo hoje, aqui, com saudade, o meu amigo, Professor Agostinho da Silva para cuja casa corri, em muitos finais de tarde, quando era urgente pensar e ouvir... desses dias guardei, na memória das conversas e dos silêncios, a eterna lição: reflectir é aprender!

Migrações Ciganas e Xenofobia


As atitudes e comportamentos sociais tendem a radicalizar-se no contexto das crises sociais... seja em relação a estrangeiros, seja, simplesmente, em relação aos que, ainda que partilhando a mesma nacionalidade, vivem segundo códigos e regras de conduta distintas das que se consideram padronizadas... deste dito "país de brandos costumes" reza a História uma longa tradição discriminatória que não podemos ignorar ou recusar-nos a compreender... particularmente quando as migrações conduzem as minorias ao regresso ao nomadismo forçado... estou a pensar nos povos ciganos e, particularmente, nos seus cidadãos que descem da Europa Central como romenos para mais facilmente escaparem ao racismo e à xenofobia de uma Europa que apregoa Direitos Humanos mas se furta a encarar os seus próprios condicionalismos culturais, fantasmas velhos de uma sociedade fortemente estratificada, feita de medos e perseguições que deixam vestígios espalhados, mais ou menos visivelmente, pelo tempo... Há tempos, corria o ano 2000, após ter organizado, no Instituto Superior de Serviço Social, o colóquio "Representações Sociais e Xenofobia - o caso dos ciganos no Alentejo", participei num Forum "Culturas Periféricas/Vivências Conjuntas" organizado pela CMBeja e daí resultou o texto publicado, em 2005, na Revista Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol.45 (1-2) onde, a propósito da correlação entre identidades culturais e intervenção social, escrevi:"(...) para os ciganos, «os gadgé são traidores e a sua palavra não vale nada», enquanto para os não-ciganos, «o cigano é esperto, está ali para nos enganar» ou «somos sempre enganados pelos ciganos»... Trata-se, de um certo ponto de vista, de um equívoco comunicacional fundado numa transferência psicanalítica de ostentação sublimatória e de uma catarse pelo passado de exclusão de que a generalidade dos cidadãos não-ciganos se sente herdeira e de que não quer ser protagonista, reconhecendo -e aí reside o fundamento da conflitualidade latente- a competência cigana em "tornear" o estado de obediência a que o controle socio-económico reduziu a autonomia e liberdade do povo não-cigano.(...) É o desemprego, a pobreza e a exclusão que a sociedade proporciona que justifica o agravamento da violência social. Racismo e xenofobia para com as minorias, em particular, com os ciganos, são afinal, atitudes catárticas de transferência dos sentimentos de rejeição e exclusão social a que os indivíduos procuram, num esforço pelo reconhecimento da sua integração social, escapar."... Num tempo em que, por um lado, se valoriza a diversidade cultural e, por outro, se temem as migrações, convém não permitir que se ignore que a cultura cigana participa do Património da Humanidade.

O som da fusão cultural...



Encantatório, este tema exemplar da fusão cultural das sonoridades: "Perfume Cigano" do Mestre, tunisino, Anouar Brahem...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Como se fazem os Santos?


Grande parte das figuras canonizadas são heróis ou mártires - pelo menos, aos olhos das representações socio-culturais dos grupos que os veneram... nessa medida, a generalidade dos Santos corresponde a arquétipos de comportamento que se pretendem disseminar através de símbolos cuja função é congregar fiéis motivados pelo exemplo que, de humano e prosaico, rapidamente se transforma, nomeadamente nas sociedades onde a tradição oral é fonte primordial de transmissão do conhecimento, em heróico e sobrenatural. A mistificação em que radicam contos e lendas é um processo similar em casos de que se perdeu a memória histórica fundadora, colectivizada e remetida para um fundo imaginário e, consequentemente, abstracto. No caso dos Santos mantém-se, regra geral, o fundamento histórico da antropomorfização das virtudes acrescidas a feitos considerados louváveis - seja o martírio ou a destruição de um sempre presente "inimigo" dito "infiel"... por esta razão, é a ideologia dominante (ou a que consegue direccionar os seus lobbies no sentido de corroborar os interesses do poder) que subjaz ao reconhecimento social da "santidade". Tendo analisado a relação entre o político e o religioso designadamente em Portugal com particular destaque para o Alentejo, em Espanha e em Goa, na Índia, escrevi em 2007: "(...) o fenómeno religioso incide e emerge dos arquétipos humanos presentes ao nível individual, tornando-se veículo do reforço de sociabilidades que, enquanto rede, se revelam terreno óptimo para a transmissão da mensagem que cria as redes políticas.(...)" (ver: "Continuidade cultural e mudança social - poderes e religiosidades: um caso entre Portugal e a Índia" in Crenças, Religiões e Poderes - Dos Indivíduos às Sociabilidades, coords.e orgs. Vitor Oliveira Jorge e José M.Costa Macedo, ed. Afrontamento, Porto, 2008). Vem esta referência a propósito da canonização de Nuno Álvares Pereira que nos coloca perante algumas questões interessantes, designadamente, a da necessidade de eleger um símbolo de um nacionalismo fundador da Pátria (veja-se a pintura que acima se reproduz "Vitória coroando o Santo Condestável"), contra culturas e civilizações como Espanha ou o Magrebe... facto que é de assinalar pela diferença de registo cultural que denota em relação a Espanha onde, assim que ganhou as eleições, Zapatero decidiu retirar do espaço público a figura de "Santiago, o Mata-Mouros" porque a estátua representava esta figura com 2 cabeças degoladas...