segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

As Árvores, a Floresta e os Partidos Socialistas


Fui perguntado, a propósito da minha crónica “As árvores e a floresta” (Crónica 386 de 8 de Janeiro no Diário do Sul, publicada também em A Nossa Candeia em 16 de Janeiro), onde “metia” o Partido Socialista, uma vez que não o citei directamente, no panorama dos partidos que nomeei. Comentava então a posição dos partidos de raiz marxista e dos partidos liberais face à crise que hoje se vive em Portugal e no Mundo, que aparentemente os fez trocar de posição: os partidos marxistas clamando contra as projectadas nacionalizações, os liberais e neoliberais, reivindicando-as. Do lado marxista, entendia (e entendo) que não tem havido, no último meio século, discussão e aprofundamento teórico do modelo de sociedade proposto desde o final do século XIX. Do “outro” lado, nenhum modelo alternativo de sociedade foi ou é proposto, e o seu papel tem sido acompanhar, opondo-se, às teorias socialistas. Mas desde fim da segunda guerra mundial e particularmente a partir da instauração da realpolitik, (isto é, desde que se passaram a privilegiar as relações de mercado mais que as relações pautadas pela proximidade política) extinguiu-se completamente qualquer nova formulação teórica, passando a utilizar-se a análise marxista (e outras) sem a fazer evoluir. E se Karl Marx reformava as análises que fazia, sempre que reeditava um escrito, porque entendia que a realidade mudava (e estava-se então no final do séc. XIX), imagine-se o Mundo mais de cem anos depois! Sucederam-se, desde então, as derrocadas: começou pelos partidos comunistas europeus e acabou no próprio Bloco de Leste. Do que hoje se vê, falhou sempre a construção do “Homem Novo”, a dimensão humana do socialismo. Foi neste estranho limbo, entre teoria e prática, que se instalaram os partidos socialistas e sociais-democratas, como se dissessem “nem tanto ao mar, nem tanto à terra, nós podemos fazer a síntese entre esses dois mundos!” E poderiam? E poderão? Os partidos social-democratas do norte da Europa clamam que sim, mas o seu modelo tem dificuldades em ser exportado. Cada país tem as suas idiossincrasias e nada é exportável assim, sem mais nem menos. Por cá, o “nosso” Partido Socialista é “filho” da social-democracia alemã misturado com alguns pensadores portugueses do século XIX e XX. A mistura poderia ser interessante como “socialismo à portuguesa” mas, desde que Mário Soares, há bastantes anos, propôs “pôr o socialismo na gaveta”, nunca mais se falou em teorizar e os ideólogos (Karl Marx, Antero de Quental, José Fontana e António Sérgio entre outros) voltaram ao descanso das molduras em que são recordados. É assim que ainda hoje estamos. A Europa não tem ajudado à festa, porque todos os partidos que por lá se vêm, têm o mesmo tipo de formulação teórica dos nossos partidos socialista e social-democrata, ou seja, são apenas gestores de países que não pretendem transformar mas gerir, com mais ou menos crise. Mas nos últimos anos, uma nova realidade emergiu: a consciência de que tudo é finito. Os recursos da Terra são finitos e a capacidade da Terra absorver os desmandos da Humanidade também é finita. Esta constatação, impossível há cinquenta ou mesmo há trinta anos, levou a uma muito aguda consciência ecológica que, desde então, não tem cessado de crescer e de se afirmar como essencial. Os liberais simplesmente a têm ignorado (veja-se a atitude de Bush perante Kioto) e os marxistas clássicos, sem a saber integrar nas suas próprias teorias, inventaram partidos ou movimentos que lhes cobrissem essa “necessidade eleitoral”. Só os partidos socialistas se dispuseram a torná-la uma causa, assim tolhendo o passo ao crescimento dos partidos ecologistas que não tinham vocação de poder, por falta de uma ideologia de suporte. Por cá, o facto do “partido ecologista” se ter confundido durante demasiado tempo com o “partido monárquico”, facilitou as coisas. Descomprometidos com ideologias mais ortodoxas como as leninistas ou mesmo as marxistas, facilmente desligados de linhas mais rígidas de liberalismos e neoliberalismos, os partidos socialistas parecem estar particularmente bem posicionados para iniciarem uma nova formulação teórica da sociedade. Provado está que os modelos anteriormente vigentes e que se opunham entre si, não funcionam. Cabe-lhes a eles, historicamente, iniciar uma nova discussão sobre o modelo possível (já não ideal ou utópica, mas possível) de sociedade. Os dados aí estão. Cabe aos partidos socialistas (congregados na Internacional Socialista) ordená-los, equacioná-los, discuti-los e finalmente propor um novo modelo de sociedade. É esse trabalho que hoje se lhes exige, e para o qual todos devemos contribuir. Aí está onde ponho o Partido Socialista: numa posição de charneira e de grande responsabilidade, como motor de discussão da sociedade em que viveremos um dia.

Fernando Pinto
fernandopinto@netvisao.pt

(Publicado in Diário do Sul – Crónicas ao Correr da Pena nº389 - 29 de Janeiro de 2009)

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